{"id":8467,"date":"2025-10-03T20:45:09","date_gmt":"2025-10-03T23:45:09","guid":{"rendered":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/?p=8467"},"modified":"2025-10-03T20:47:15","modified_gmt":"2025-10-03T23:47:15","slug":"cop30-escancara-crise-de-moradia-energia-e-agua-em-belem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/2025\/10\/03\/cop30-escancara-crise-de-moradia-energia-e-agua-em-belem\/","title":{"rendered":"COP30 escancara crise de moradia, energia e \u00e1gua em Bel\u00e9m"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Aumento do pre\u00e7o das hospedagens aponta para um antigo problema da cidade que afeta popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 anos<\/em><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por Cec\u00edlia Amorim<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-text-color has-link-color wp-elements-8c5fafb1fabb2131af1c145b0080cceb\"><strong>________<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O sol forte faz o vapor subir nos asfaltos da cidade. A chuva, que antigamente ca\u00eda todos os dias para aliviar o calor, hoje j\u00e1 n\u00e3o obedece \u00e0 lei do tempo. No chamado \u201cver\u00e3o amaz\u00f4nico\u201d, de junho a novembro, agora impera longos dias de estiagem. Banhada pela Ba\u00eda do Guajar\u00e1, Bel\u00e9m \u00e9 uma mistura de belezas naturais e desafios urbanos profundos. Para seu 1,5 milh\u00e3o de habitantes, morar na capital paraense \u00e9 uma experi\u00eancia de contrastes: a devo\u00e7\u00e3o ao C\u00edrio de Nazar\u00e9, a riqueza da culin\u00e1ria local e a vida pulsante \u00e0s margens do rio convivem com a falta de saneamento b\u00e1sico, o custo de vida elevado e uma crise habitacional que se agrava a cada dia.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, Bel\u00e9m ganhou os holofotes nacionais devido aos&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/economia.uol.com.br\/noticias\/redacao\/2025\/03\/12\/hospedagem-em-belem-na-cop30-sai-mais-cara-do-que-comprar-imovel-na-cidade.htm\">valores cobrados em alugu\u00e9is e hospedagens<\/a>&nbsp;<\/strong>para a Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre as Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas de 2025 (COP30). No entanto, para quem vive na cidade, pagar caro para morar n\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade, mas uma realidade hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados do \u00edndice de pre\u00e7os ao consumidor (INPC-IPCA) do Instituto de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE), divulgados em junho de 2025, comprovam essa tend\u00eancia ao colocarem a capital como a que teve o maior aumento no pre\u00e7o dos alugu\u00e9is residenciais no primeiro semestre do ano, com uma alta de 5,95% \u2013 mais de dois pontos percentuais acima da m\u00e9dia nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Para entender os n\u00fameros por tr\u00e1s dessa estat\u00edstica, que apenas escancara um problema cr\u00f4nico, \u00e9 preciso mergulhar na hist\u00f3ria da cidade, em sua estrutura fundi\u00e1ria e no cotidiano de seus moradores.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Bel\u00e9m: peso do aluguel para quem mora<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Alessandra de Paula, 51 anos, professora e carioca radicada em Bel\u00e9m h\u00e1 44 anos, sente na pele o peso do custo habitacional. \u201c\u00c9 uma das cidades mais caras, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 renda. Bel\u00e9m n\u00e3o \u00e9 uma cidade de uma renda alta e as pessoas n\u00e3o cobram pre\u00e7os considerando isso. N\u00e3o tem um \u00f3rg\u00e3o, n\u00e3o tem nada que fiscalize, que regularize\u201d, desabafa. Ela mora sozinha em um apartamento simples de dois quartos no sub\u00farbio e paga R$ 900 de aluguel, valor que considera alto.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, ela afirma que n\u00e3o consegue se imaginar vivendo em outro lugar. \u201cEu amo morar em Bel\u00e9m, essa cidade tem uma coisa de que contagia e agrega. Bel\u00e9m \u00e9 hospitaleira, festeira e, ao mesmo tempo, muito resiliente. No C\u00edrio de Nazar\u00e9 eu reponho as energias para o ano todo. O c\u00edrio define a minha exist\u00eancia e me fortalece\u201d, diz a professora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O bairro da Crema\u00e7\u00e3o, onde Alessandra vive, aparece na lista como um dos&nbsp;metros quadrados mais caros para aluguel na cidade, custando em m\u00e9dia R$ 64,90\/m\u00b2, atr\u00e1s apenas do Umarizal (bairro nobre), (R$ 67,80\/m\u00b2) e do Jurunas (periferia) (R$ 67,30\/m\u00b2). Com o crescimento da cidade, Crema\u00e7\u00e3o e Jurunas hoje s\u00e3o considerados bairros de borda, ficam entre o centro (bairros nobres) e a periferia mais recente. Com isso, a parte mais pr\u00f3xima do centro da cidade \u00e9 supervalorizada em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 que fica mais afastada.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>O professor Dr. Raul Neto, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Par\u00e1 (UFPA), explica que essa disparidade \u00e9 sintom\u00e1tica. \u201cProporcionalmente, em rela\u00e7\u00e3o s\u00f3 de aluguel por metro quadrado, tu n\u00e3o tens uma diferen\u00e7a t\u00e3o significativa entre um bairro de borda, como o Jurunas e um bairro nobre, como o Batista Campos. O pre\u00e7o de um kitnet em n\u00edvel de metro quadrado \u00e9 igual a de um apartamento de dois quartos num pr\u00e9dio m\u00e9dio. Aquela popula\u00e7\u00e3o que est\u00e1 alugando kitnet n\u00e3o est\u00e1 ganhando tanto quanto ganha uma pessoa que est\u00e1 alugando um apartamento em uma torre\u201d, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa distor\u00e7\u00e3o \u00e9 fruto do que os especialistas chamam de \u201ccidade partida\u201d. A professora Dra. Roberta Menezes Rodrigues, tamb\u00e9m da FAU-UFPA, tra\u00e7a um panorama hist\u00f3rico: Bel\u00e9m cresceu a partir da \u201cprimeira l\u00e9gua patrimonial\u201d, uma por\u00e7\u00e3o de terra concedida \u00e0 C\u00e2mara Municipal de Bel\u00e9m pela coroa portuguesa no s\u00e9culo XVII, e que consistia a \u00e1rea rural da cidade. O investimento em infraestrutura e urbaniza\u00e7\u00e3o se concentrou fortemente nessa \u00e1rea central, que hoje abriga os principais equipamentos p\u00fablicos, culturais e o mercado imobili\u00e1rio de alta renda.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cAl\u00e9m disso, voc\u00ea tem uma \u00e1rea que ficou em um processo de certa indefini\u00e7\u00e3o por bastante tempo, uma estrutura, um resqu\u00edcio fundi\u00e1rio dessas grandes propriedades\u201d, explica a professora. O resultado \u00e9 uma metr\u00f3pole onde bairros centrais como Umarizal, Nazar\u00e9 e Batista Campos possuem infraestrutura completa \u2013 cal\u00e7adas largas, arboriza\u00e7\u00e3o, pra\u00e7as, esgoto tratado \u2013, enquanto a vasta \u201c\u00e1rea de expans\u00e3o\u201d e as periferias consolidaram-se como um \u201cgrande mosaico ou uma colcha de retalhos de diferentes estrat\u00e9gias e formas de moradia\u201d, muitas delas marcadas pela autoconstru\u00e7\u00e3o e pela absoluta car\u00eancia de servi\u00e7os urbanos b\u00e1sicos, explica a pesquisadora.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise da moradia e o medo da remo\u00e7\u00e3o&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A falta de regula\u00e7\u00e3o e de dados oficiais sobre o mercado imobili\u00e1rio \u00e9 um problema cr\u00f4nico. O professor Raul Neto confirma: \u201cA prefeitura n\u00e3o tem uma pol\u00edtica de pesquisa sistem\u00e1tica sobre o pre\u00e7o de venda de im\u00f3veis ou de aluguel. O que a gente faz aqui na universidade \u00e9 coletar pre\u00e7o de OLX, de site, e vai tentando extrair as m\u00e9dias at\u00e9 chegar num valor aproximado\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de transpar\u00eancia ganhou novos contornos com os preparativos para a COP30. Alessandra relata o que muitos belenenses est\u00e3o vivendo: \u201cO impacto mais espec\u00edfico \u00e9 relacionado \u00e0 quest\u00e3o do alojamento. Voc\u00ea tem todo um estoque de im\u00f3veis que est\u00e3o voltados para o aluguel comum, buscando a possibilidade de, em um curto per\u00edodo, conseguir altos valores de lucro\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Propriet\u00e1rios estariam rescindindo contratos para colocar im\u00f3veis no mercado de temporada, alimentado por plataformas como Airbnb e incentivado pela expectativa do evento. \u201cIsso tem um impacto grande para a oferta de im\u00f3veis para o aluguel, que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 barato, porque voc\u00ea tem uma escassez de oferta de boa qualidade e boa localiza\u00e7\u00e3o, e agora a coisa ficou bem mais complicada\u201d, afirma Neto.<\/p>\n\n\n\n<p>O temor \u00e9 que a COP30 deixe como legado um patamar permanentemente alto nos pre\u00e7os de aluguel e compra de im\u00f3veis, um fen\u00f4meno j\u00e1 observado em outras cidades-sede de grandes eventos. No Rio de Janeiro durante a Copa de 2014 e as Olimp\u00edadas de 2016, bairros pr\u00f3ximos ao Parque Ol\u00edmpico e \u00e0 zona portu\u00e1ria viveram forte especula\u00e7\u00e3o, remo\u00e7\u00f5es de moradores e pre\u00e7os de aluguel que seguiram altos mesmo ap\u00f3s os jogos. Fora do Brasil, o impacto tamb\u00e9m foi profundo: Barcelona, ap\u00f3s as Olimp\u00edadas de 1992, enfrenta at\u00e9 hoje uma crise de moradia causada pelo aumento no turismo e na especula\u00e7\u00e3o; e em Londres, os Jogos de 2012 provocaram valoriza\u00e7\u00e3o no leste da cidade, empurrando moradores de baixa renda para fora da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Roberta alerta que grandes obras da COP, como os parques lineares da Doca e de Tamandar\u00e9, embora apresentados como investimentos em saneamento, tamb\u00e9m servem ao interesse do mercado imobili\u00e1rio de valorizar e verticalizar \u00e1reas espec\u00edficas. Na \u00e1rea da Tamandar\u00e9, muitas fam\u00edlias foram removidas sob press\u00e3o, um processo que pode se repetir. No pacote do que est\u00e1 sendo chamado de \u201clegado da COP\u201d h\u00e1 obras de infraestrutura em diversos pontos da cidade, cerca de 12 canais est\u00e3o em obras e&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/3460-2\/\">mais de 500 resid\u00eancias est\u00e3o sendo removidas para a continua\u00e7\u00e3o das obras.&nbsp;<\/a><\/strong><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-8468\" srcset=\"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www-300x225.jpg 300w, https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www-768x576.jpg 768w, https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-content\/uploads\/2025\/10\/www.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">                <em>Beatriz Nunes, aposentada sofre com as altas contas de energia (Foto: Cecilia Amorim)<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><strong><br>Energia cara no estado que \u00e9 um dos maiores produtores do pa\u00eds<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se o aluguel \u00e9 o vil\u00e3o mais vis\u00edvel, as altas tarifas de energia el\u00e9trica s\u00e3o um problema antigo. Washington Nunes, 42 anos, belenense que trabalha em um restaurante, mora em casa pr\u00f3pria no bairro da Condor, na periferia, com outras tr\u00eas pessoas. Apesar de n\u00e3o pagar aluguel, o custo de vida o aperta. \u201cBel\u00e9m \u00e9 uma cidade muito boa com as pessoas, mas o que mais pesa no meu or\u00e7amento mensal \u00e9 a energia el\u00e9trica. N\u00e3o entendo como uma casa pequena de dois compartimentos chega a vir R$ 300 e at\u00e9 quase R$ 400. Isso quebra a gente sabe? E agora que vi que a Cosanpa [Companhia de Saneamento do Par\u00e1] foi vendida [privatizada] meu medo \u00e9 as tarifas de \u00e1gua tamb\u00e9m subirem\u201d, desabafa.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Quem tamb\u00e9m sofre com as altas taxas de energia \u00e9 Beatriz Nunes Amorim,&nbsp;aposentada de 82 anos e av\u00f3 de Washington. Vizinha do neto, ela mora sozinha em um c\u00f4modo com banheiro que mede seis metros quadrados. Em sua casa, tem uma geladeira, um ventilador, uma televis\u00e3o e um fog\u00e3o el\u00e9trico. A idosa denuncia que a sua energia j\u00e1 chegou a R$ 300, mas com muita economia conseguiu reduzir cerca de 30% da conta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu tinha tr\u00eas l\u00e2mpadas: uma dentro de casa, uma no banheiro e uma na porta para iluminar a entrada. Tirei. Agora a frente da minha casa fica no escuro. Para quem recebe um sal\u00e1rio m\u00ednimo e precisa comprar rem\u00e9dios de mais de R$ 200, isso faz diferen\u00e7a. Mas tudo bem, a gente paga porque n\u00e3o pode ficar sem luz,\u201d conta a aposentada.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Com o c\u00edrio chegando, Beatriz pede que Nazinha (como os paraenses carinhosamente chamam a Nossa Senhora de Nazar\u00e9), fa\u00e7a os pol\u00edticos olharem melhor para a cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEu nasci e cresci aqui. Nesta cidade criei meus filhos. N\u00e3o \u00e9 mais s\u00f3 lixo e caro\u00e7o de a\u00e7a\u00ed na rua, essa rua era embaixo d\u2019\u00e1gua, hoje tem asfalto e n\u00e3o preciso mais andar em pontes de madeira. Antes a gente ia com os meninos no ver-o-peso pedir cabe\u00e7a de peixe pra fazer um caldo, hoje a gente consegue ir ao supermercado encher o carrinho, pe\u00e7o que Nazinha ilumine os pol\u00edticos porque eu acredito que ainda d\u00e1 para melhorar\u201d, finaliza.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o Par\u00e1 seja o&nbsp;<strong><a href=\"https:\/\/agenciapara.com.br\/noticia\/21955\/para-e-o-segundo-maior-produtor-de-energia-do-brasil\">segundo maior produtor de energia el\u00e9trica do Brasil<\/a><\/strong>&nbsp;\u2013 com hidrel\u00e9tricas gigantes como Belo Monte e Tucuru\u00ed, que juntas s\u00e3o respons\u00e1veis por cerca de 11% da eletricidade do Sistema Interligado Nacional \u2013 o estado tem a tarifa mais cara do pa\u00eds. Enquanto a m\u00e9dia nacional \u00e9 de R$ 0,731 por quilowatt-hora (kWh), no Par\u00e1 o custo chega a R$ 0,962 por kWh.<\/p>\n\n\n\n<p>A explica\u00e7\u00e3o para esse cen\u00e1rio est\u00e1 em uma combina\u00e7\u00e3o de fatores, dentre eles, a vasta extens\u00e3o geogr\u00e1fica do estado, o que torna a implanta\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o da infraestrutura el\u00e9trica mais cara. A baixa densidade demogr\u00e1fica tamb\u00e9m encarece a opera\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o da rede el\u00e9trica.<\/p>\n\n\n\n<p>O valor da tarifa \u00e9 definido pela Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel), e a sua composi\u00e7\u00e3o inclui custos de opera\u00e7\u00e3o e expans\u00e3o, impostos, al\u00e9m de gera\u00e7\u00e3o e transmiss\u00e3o da energia. Com o fim do subs\u00eddio federal \u00e0s distribuidoras privatizadas, do qual a Equatorial Par\u00e1, concession\u00e1ria que assumiu o servi\u00e7o em 2012, n\u00e3o p\u00f4de mais se beneficiar. Com isso, a popula\u00e7\u00e3o paraense, mesmo morando em um estado que exporta energia para todo o Brasil, segue arcando com contas de luz que pesam cada vez mais no bolso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cercada de \u00e1guas, Bel\u00e9m vive problemas para abastecer as torneiras das resid\u00eancias&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Bel\u00e9m, a \u201ccidade das \u00e1guas\u201d, \u00e9 marcada por sua geografia hidrogr\u00e1fica singular. Localizada na conflu\u00eancia do Rio Guam\u00e1 com a Ba\u00eda do Guajar\u00e1, 65% do territ\u00f3rio da capital paraense correspondem a 39 ilhas e \u00e9 atravessada por uma rede de igarap\u00e9s, furos e bacias hidrogr\u00e1ficas que moldam sua paisagem e o cotidiano de quem vive aqui.<\/p>\n\n\n\n<p>A abund\u00e2ncia de \u00e1gua, que poderia ser sin\u00f4nimo de riqueza natural e qualidade de vida, tamb\u00e9m escancara os desafios hist\u00f3ricos da cidade em rela\u00e7\u00e3o ao saneamento b\u00e1sico. Ao longo dos s\u00e9culos, a urbaniza\u00e7\u00e3o reconfigurou rios e \u00e1reas alagadas, conhecidas como \u201cbaixadas\u201d, mas sem resolver de forma estrutural o problema da falta de infraestrutura.<\/p>\n\n\n\n<p><strong><a href=\"https:\/\/tratabrasil.org.br\/ranking-do-saneamento-2024\/\">Levantamentos do Instituto Trata Brasil, divulgados em 2024<\/a><\/strong>, mostram que 91% da popula\u00e7\u00e3o paraense n\u00e3o tem acesso \u00e0 coleta de esgoto. Enquanto o estado se prepara para receber a COP30, moradores da capital seguem sem acesso ao m\u00ednimo de dignidade garantido pelo saneamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a capital da Amaz\u00f4nia ainda convive com ruas inundadas, igarap\u00e9s polu\u00eddos e uma popula\u00e7\u00e3o que paga o pre\u00e7o do descaso em sa\u00fade, habita\u00e7\u00e3o e dignidade. Afinal, como garantir uma cidade sustent\u00e1vel, capaz de receber grandes eventos globais e oferecer qualidade de vida, se o saneamento continua sendo um dos maiores gargalos de Bel\u00e9m?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A professora Roberta \u00e9 enf\u00e1tica: \u201cAcesso \u00e0 \u00e1gua em Bel\u00e9m \u00e9 um problema. A rede de distribui\u00e7\u00e3o atende basicamente a \u00e1rea central e algumas partes da \u00e1rea de expans\u00e3o. Mas a \u00e1rea de expans\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 sendo atendida. Ent\u00e3o voc\u00ea tem comunidades inteiras que n\u00e3o tem \u00e1gua e que vai furar o po\u00e7o raso ou po\u00e7o profundo. Isso \u00e9 um problem\u00e3o porque [entra] a gest\u00e3o da \u00e1gua subterr\u00e2nea, da contamina\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o disso com esgoto \u00e9 um problem\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela destaca que a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas de saneamento b\u00e1sico no processo de urbaniza\u00e7\u00e3o \u00e9 a regra. \u201cQuando voc\u00ea faz grandes investimentos na cidade, voc\u00ea est\u00e1 lidando tamb\u00e9m com uma expectativa enorme das pessoas de que finalmente vamos ter condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas dignas de moradia: n\u00e3o preciso meter o p\u00e9 na lama, n\u00e3o preciso ficar preocupada com a chuva que cai, n\u00e3o precisa ficar preocupada se vai ter \u00e1gua na minha torneira ou n\u00e3o\u201d, afirma Roberta.<\/p>\n\n\n\n<p>Os investimentos da COP30 em saneamento, segundo ela, est\u00e3o prioritariamente focados em melhorar a infraestrutura de bairros j\u00e1 consolidados e valorizados, como o Umarizal, em detrimento das \u00e1reas perif\u00e9ricas que mais necessitam. \u201c\u00c9 um momento de lidar com essas expectativas\u2026 na \u00e1rea central tem sido muito mais dif\u00edcil voc\u00ea conseguir viabilizar uma produ\u00e7\u00e3o de habita\u00e7\u00e3o de interesse social porque voc\u00ea tem \u00e1reas que est\u00e3o disputadas pelo mercado imobili\u00e1rio e essas \u00e1reas que t\u00eam recebido mais aten\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O custo da alimenta\u00e7\u00e3o na cidade da culin\u00e1ria tradicional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese) de agosto de 2025 informam que o custo da cesta b\u00e1sica em Bel\u00e9m diminuiu 1,28%, ficando em R$ 687,30. Neste per\u00edodo, o valor da cesta b\u00e1sica caiu em 24 das 27 cidades pesquisadas, como destaque para Macei\u00f3 (-4,10%), Recife (-4,02%), Jo\u00e3o Pessoa (-4,00%), Natal (-3,73%), Vit\u00f3ria (-3,12%) e S\u00e3o Lu\u00eds (-3,06%).<\/p>\n\n\n\n<p>Itens como arroz, feij\u00e3o e \u00f3leo de soja tiveram quedas significativas no acumulado do ano. No entanto, para Alessandra de Paula, alguns pre\u00e7os ainda n\u00e3o se justificam. \u201cPeixe em Bel\u00e9m eu acho super caro e eu n\u00e3o encontro uma justificativa plaus\u00edvel nesse sentido porque a abund\u00e2ncia de peixe, de rios, deveria ser mais em conta\u201d, diz. Ela gasta em m\u00e9dia de R$ 500 a R$ 600 por m\u00eas com alimenta\u00e7\u00e3o e itens de higiene, morando sozinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro fardo pesado para o or\u00e7amento \u00e9 o transporte p\u00fablico. \u201cQuem precisa us\u00e1-los passa por um sofrimento di\u00e1rio\u201d, lamenta a professora. O problema \u00e9 metropolitano, exigindo solu\u00e7\u00f5es integradas entre Bel\u00e9m, Ananindeua e Marituba, cidades para onde uma parcela significativa da popula\u00e7\u00e3o de baixa renda foi empurrada pela falta de op\u00e7\u00f5es acess\u00edveis na capital e se tornaram cidades dormit\u00f3rios para milhares de trabalhadores.<\/p>\n\n\n\n<p>A combina\u00e7\u00e3o de alugu\u00e9is alt\u00edssimos, infraestrutura prec\u00e1ria e a press\u00e3o de um mercado imobili\u00e1rio aquecido por um megaevento global cria uma tempestade perfeita para a crise habitacional. As hist\u00f3rias de pessoas sendo obrigadas a se mudar, como as relatadas indiretamente por Alessandra, come\u00e7am a se multiplicar, ainda que de forma invis\u00edvel para as estat\u00edsticas oficiais. Algumas semanas atr\u00e1s, a vereadora Vivi Reis (PSOL), publicou em suas redes sociais que precisou se mudar devido a uma jun\u00e7\u00e3o de aumento de alugu\u00e9is com a n\u00e3o disposi\u00e7\u00e3o dos propriet\u00e1rios em renovar o contrato. A t\u00e1tica seria para manter a possibilidade de desocupa\u00e7\u00e3o do im\u00f3vel no per\u00edodo da Confer\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O futuro p\u00f3s-COP30<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O legado da COP 30 para a moradia em Bel\u00e9m ainda \u00e9 uma inc\u00f3gnita. Haver\u00e1 um reajuste dos pre\u00e7os para patamares mais razo\u00e1veis ap\u00f3s o evento, ou a cidade seguir\u00e1 o caminho de outras metr\u00f3poles, onde o \u201cefeito Airbnb\u201d e a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria tornaram o centro inacess\u00edvel para seus pr\u00f3prios moradores?<\/p>\n\n\n\n<p>Para o professor Raul Neto, \u00e9 preciso que a prefeitura e o estado repensem a pol\u00edtica habitacional, o planejamento urbano que \u00e9 \u201ct\u00e3o permissivo\u201d para o setor imobili\u00e1rio, pois isso de alguma maneira torna o pre\u00e7o da terra inacess\u00edvel para a maioria dos moradores da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A reportagem encaminhou \u00e0 gest\u00e3o municipal&nbsp;os questionamentos sobre o reconhecimento do impacto da COP30 na eleva\u00e7\u00e3o dos pre\u00e7os dos alugu\u00e9is, a exist\u00eancia de medidas em andamento ou em estudo para mitigar esses efeitos e as a\u00e7\u00f5es previstas para evitar que o legado do evento aprofunde a crise de moradia em Bel\u00e9m, mas n\u00e3o obteve resposta at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Edi\u00e7\u00e3o: Bruno Fonseca<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>___________________________________<\/strong>______<\/p>\n\n\n\n<p><em>Foto de capa:<\/em>&nbsp;Raphael Luz\/Ag. Par\u00e1<\/p>\n\n\n\n<p><em>Esta reportagem foi produzida atrav\u00e9s de uma parceria entre os ve\u00edculos Ag\u00eancia P\u00fablica, Amaz\u00f4nia Vox, Carta Amaz\u00f4nia e Lupa na cobertura da COP30. O material pode ser republicado sem edi\u00e7\u00f5es com o devido cr\u00e9dito.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-white-color has-text-color has-link-color wp-elements-4a048d008a19112585d17b9e320cf04d\"><strong>____<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-vivid-red-color has-text-color has-link-color wp-elements-53146716628a2e34da2575b0bd50ee17\"><em>Fique por dentro das \u00faltimas not\u00edcias da ag\u00eancia Carta Amaz\u00f4nia.&nbsp;<strong>Participe do nosso&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.whatsapp.com\/channel\/0029Vajcelz8qIzmGGHSAR3L?fbclid=PAZXh0bgNhZW0CMTEAAad4zptZku8bM5RvuzeBp5bKxAsCx5uZxJVMMo9AiU6uH1-8OeuHZas9k_jRHA_aem_LQtSLHIyPsx2yDrrXsDD_w\">canal no WhatsApp<\/a>&nbsp;e<\/strong>&nbsp;receba conte\u00fados exclusivos direto no seu celular.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aumento do pre\u00e7o das hospedagens aponta para um antigo problema da cidade que afeta popula\u00e7\u00e3o h\u00e1 anos Por Cec\u00edlia Amorim ________ O sol forte faz o vapor subir nos asfaltos da cidade. A chuva, que antigamente ca\u00eda todos os dias para aliviar o calor, hoje j\u00e1 n\u00e3o obedece \u00e0 lei do tempo. No chamado \u201cver\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":8469,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[29],"tags":[36,37,33,97,96,98],"class_list":["post-8467","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cop30","tag-amazonia","tag-belem","tag-cop30","tag-crise-de-moradia","tag-ibge","tag-saneamento-basico"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8467"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8467\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":8471,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8467\/revisions\/8471"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/media\/8469"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/cartaamazonia.com.br\/carta-maps-cop30\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}