meioAmbiente
Campanha de desinformação bolsonarista culpa governo federal por fogo na Amazônia
Publicações recorrem a dados mentirosos para afirmar que governo petista teve mais desmatamento do que gestão anterior. Mas a derrubada da floresta atingiu neste ano mínima em mais de uma década.
Incêndios provocaram emergência no Amazonas em ano de El Niño. (Foto: Marizilda Cruppe/Greenpeace)
___
Publicações compartilhadas nas redes bolsonaristas afirmam que o principal culpado pelo avanço das queimadas na floresta amazônica em 2026 é o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Num vídeo com milhões de visualizações que circula pelas redes sociais, uma voz gerada por inteligência artificial questiona: “Onde estão os artistas da esquerda agora? A Amazônia está sendo destruída pelas queimadas, e o governo Lula não faz absolutamente nada”.
Outros conteúdos compartilhados a partir de canais como o Brasil Paralelo e “Endireitando Brasil” mostram números falsos para tentar convencer a população que o número de queimadas e desmatamento da floresta é muito maior no governo Lula do que na gestão do Bolsonaro. Mas isso não é verdade.
Os dados oficiais divulgados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) revelam que o desmatamento na Amazônia atingiu, em agosto, o nível mais baixo em mais de uma década: foram 2,8 mil quilômetros quadrados de agosto de 2025 a julho de 2026.
Foram 36% a menos do que no período anterior, de agosto de 2024 a julho de 2025, em que se desmataram 4,5 mil quilômetros, de acordo com o Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), mantido pelo INPE.
Se levado em conta o governo Lula como um todo, houve 41% menos desmatamento que durante o governo de Jair Bolsonaro, conforme calculou o Observatório do Clima.
Impacto da seca e do El Niño
A questão é que a campanha presidencial esquentou, e tem circulado diversas desinformações nas redes sociais: dados sobre a quantidade de vegetação queimada na Amazônia, e não da área de floresta derrubada.
As queimadas resultam em parte, sim, de ações criminosas —quando alguém provoca incêndios para, depois, cortar a floresta. Mas outros fatores ajudam a espalhar o fogo, como períodos de seca intensa, ou o El Niño, que está acontecendo neste ano.
O fenômeno contribui para incêndios extremos na Amazônia e em outras partes do mundo. Nesses casos, mesmo que a floresta queime, ela ainda pode se regenerar se não houver interferência humana.
Faz tempo que aliados da família Bolsonaro usam as queimadas contra o governo Lula. Eles tentam, assim, deslegitimar críticas à gestão ambiental do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula retomou políticas ambientais
Em outro vídeo feito com inteligência artificial, uma falsa imagem do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, diz que a crise atual no Amazonas “revela a incongruência, a incompetência, o descaso, a hipocrisia do PT e da esquerda. E eles somem diante do que está acontecendo na Amazônia.”
Em relação aos incêndios de outubro, o Corpo de Bombeiros local disse que, inicialmente, o governo federal negou ajuda. O que fez Lula ser alvo de críticas. Mas o governo federal contestou a declaração, afirmando que ofereceu ajuda assim que o estado de emergência foi declarado no Amazonas.
A grande diferença entre os governos de Lula e Bolsonaro, porém, está na fiscalização ambiental. Bolsonaro desmontou órgãos públicos que combatem o desmatamento ilegal, como o Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade).
Já Lula retomou políticas ambientais que fizeram o desmatamento cair e poderiam levar o Brasil a zerar o desmatamento ilegal até 2030, de acordo com análise do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon).
Governo investiga possível ação criminosa por trás de incêndios no Amazonas.
As equipes da força-tarefa que atuam no combate aos incêndios que atingem o Amazonas já abriram, até o momento, 120 Termos Circunstanciados de Ocorrência, procedimentos investigatórios que servem para apurar possíveis condutas criminosas.
Durante entrevista coletiva em Manaus na última quarta-feira (14), o ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima, João Paulo Capobianco, afirmou que os focos de incêndio tiveram como origem ação humana e garantiu investigação para identificar os responsáveis.
“Vamos iniciar uma ação forte de investigação para identificar quem está operando esse conjunto enorme de incêndios e verificar se há uma organização por trás disso. E vamos punir aqueles que forem identificados de forma exemplar para que não fique na região uma sensação de impunidade”, destacou.
As investigações estão a cargo das polícias Federal, Rodoviária Federal e Polícia Civil do Amazonas, atuando com outras forças de segurança. O ministro lembrou de situações similares de incêndios criminosos ocorridos em 2024, quando houve o chamado “Dia do fogo”, quando foram registrados mais de dois mil incêndios simultâneos, em São Paulo e no Pará.
________________________________________________
Conteúdo produzido com apoio da DW Brasil
Fique por dentro das últimas notícias da agência Carta Amazônia. Participe do nosso canal no WhatsApp e receba conteúdos exclusivos direto no seu celular.