O homem que forjou a própria morte para escapar da Justiça e como o anúncio de sua fazenda revelou uma rota de ouro irregular na Amazônia, contaminando cadeias de suprimentos internacionais.

Por Ruan Martins

Carros, celulares e laptops são alguns dos muitos bens de consumo que utilizam pequenas quantidades de ouro em sua composição. Uma investigação conduzida por Subsolo descobriu que parte desse ouro pode estar contaminada por fraudes, violência armada e destruição ambiental desde a sua origem em terras protegidas no coração da floresta amazônica.

A descoberta começou por meio de um anúncio publicado, em dezembro de 2023, no Facebook Marketplace. No classificado, os corretores imobiliários ofertaram uma fazenda de 11.310 hectares, em Itaituba, a capital nacional do ouro. O anúncio descrevia um imóvel com instalações robustas, como pistas de pouso, casas, represas e uma área de pasto suficiente para alimentar mil cabeças de gado. No local, havia ainda uma porção de mata intocada e dois depósitos de ouro, um achado comum às propriedades da região.

Passando-se por um investidor estrangeiro interessado em comprar a fazenda, um repórter do Subsolo conversou com alguns dos corretores imobiliários encarregados da venda. A conversa resultou no compartilhamento de imagens e documentos do imóvel, os quais revelaram que apenas 1.092 hectares, ou menos de 10% da área, têm título de propriedade. O restante é terra pública, inscrita no Cadastro Ambiental Rural (CAR) em nome de terceiros, uma estratégia comumente utilizada na região para disfarçar a concentração de terras, contornando a restrição legal que impede que áreas maiores que 2.500 hectares sejam regularizadas pelo programa Terra Legal.

Além da situação documental do imóvel, os arquivos obtidos pela reportagem ajudaram a revelar a identidade do homem por trás da terra. Conhecido como “Vando”, Ivanildo Canuto Soares, de 55 anos, esconde um passado muito diferente do de outros produtores rurais da Amazônia. A seguir, Subsolo narra a sua trajetória das favelas de São Paulo até os garimpos de ouro na floresta.

Entre fugas e prisões

 No início dos anos 2000, quando tinha 29 anos, Vando era considerado o traficante mais poderoso da Zona Leste de São Paulo. De lá, ele gerenciava a distribuição de maconha e cocaína oriundas do Paraguai e da Bolívia. As drogas chegavam ao Brasil por meio de atravessadores situados nos estados de fronteira do Centro-Oeste. A partir desse ponto, elas eram levadas para grandes centros consumidores, como Rio de Janeiro e São Paulo.

A posição elevada que Vando ocupava na cadeia de comando do narcotráfico era resultado de uma carreira criminosa que havia começado por um cargo mais baixo, o de “soldado” do tráfico. No submundo do crime, um soldado acumula funções que vão desde a segurança armada dos pontos de venda de drogas até o transporte dos narcóticos. A sua ascensão na hierarquia do tráfico foi acompanhada por um crescimento considerável do seu patrimônio pessoal. Em poucos anos, ele acumulava cinco carros importados, duas casas com piscinas e quadras de tênis, além de um sítio na cidade de Ourinhos, interior do estado de São Paulo.

Essa vida de ostentação, contudo, estava por um fio desde que Vando e seus comparsas assassinaram um policial civil e seu acompanhante, em 1997, na favela Elba, zona leste de São Paulo. Condenado a 21 anos de prisão pelo duplo homicídio, ele conseguiu fugir da cadeia e pôs em prática um plano arriscado. Embora seja branco, mandou enterrar um indigente negro como sendo ele o morto e, para formalizar a farsa, ainda pagou 100 mil reais por uma certidão de óbito falsa.

No princípio, o plano funcionou. Com o foragido declarado morto, a Justiça arquivou o caso e os policiais encerraram as investigações para capturá-lo. Apenas um ano após o seu falso sepultamento, porém, essa história sofreu uma reviravolta. Depois de separar-se de Vando, em 2001, sua companheira procurou a polícia para delatar a fraude da falsa morte. Graças a esse depoimento, as investigações foram retomadas e um novo inquérito para apurar o crime de falsidade ideológica foi instaurado.

Apesar dos infortúnios, Vando não desistiu do seu propósito maior: manter-se fora da prisão e proteger o patrimônio construído por meio do crime. Em mais uma ação ousada, ele migrou para o estado do Mato Grosso, onde fez três cirurgias plásticas para mudar o rosto. A transformação seria, então, completada pela confecção de um registro de identidade falso. No novo documento, ele passaria a se chamar João Vitor Soares. Em um movimento paralelo a essa mudança de identidade, Vando teria subornado funcionários do Departamento de Inquéritos Policiais para darem fim ao inquérito de três volumes aberto contra ele. Sem esses arquivos, a Justiça não poderia autorizar as ações de bloqueio dos seus bens. Essa era a terceira vez que inquéritos policiais relacionados a Vando desapareciam dos órgãos públicos de São Paulo. Meses antes do último sumiço, duas planilhas com suas digitais e informações de identificação pessoal foram extraviadas.

Após intenso trabalho de investigação, a Polícia Federal (PF) finalmente conseguiu capturar Vando, em 2003, em Cuiabá. No momento da prisão, ele estava organizando o transporte de 20kg de cocaína recém-chegados ao Brasil. Aos policiais, ele confessou que, toda semana, enviava essa mesma quantidade de droga para São Paulo. Na ocasião da nova prisão, o delegado da PF Diógenes Curado Filho explicou ao Diário de Cuiabá que “a droga vinha da Bolívia no tanque de gasolina de um Monza. Quando chegava em Cuiabá, esse tanque era retirado do carro e colocado em um outro Monza, e assim a cocaína era transportada até São Paulo”. Poucos meses antes da nova prisão, a Polícia de São Paulo apreendeu quatro toneladas de maconha pertencentes a Vando. Na época, essa foi considerada a maior apreensão da droga na história do estado.

A temporada atrás das grades, porém, não duraria muito tempo. Em 2005, Vando deixou a prisão sob a escolta de dois agentes prisionais para uma visita ao hospital. Na volta, os guardas permitiram que ele, mesmo sem autorização da Justiça, passasse pelo seu apartamento em um bairro da capital matogrossense com a alegada justificativa de que iria pegar alguns documentos ali deixados. Do apartamento, Vando fugiu mais uma vez.

Uma nova prisão, em 2008, foi seguida por mais uma fuga. Enquanto Vando estava foragido, seu advogado tentava anular o processo contra ele. Em um pedido de habeas corpus encaminhado ao Supremo Tribunal Federal, a defesa argumentou que, a partir do momento que a Justiça havia considerado o caso encerrado com base na certidão de óbito apresentada, Vando estava juridicamente morto, e os mortos não podem ser “ressuscitados”. Por maioria, a Primeira Turma da Corte rejeitou o pedido; a divergência ficou por conta do então ministro Marco Aurélio Mello.

De foragido a garimpeiro

Quando Vando foi finalmente capturado pela Polícia Militar, em fevereiro de 2024, ele já não era mais o mesmo criminoso que havia liderado a distribuição de drogas ilícitas em uma zona densamente povoada de São Paulo. Em mais de uma década como foragido, ele aproveitou o tempo longe das grades para diversificar seus negócios. Agora, ele era um fazendeiro e garimpeiro artesanal, criando centenas de cabeças de gado e minerando ouro no interior da Amazônia.

Pelo menos, era isso que o anúncio publicado no Facebook e os arquivos compartilhados pelos corretores faziam crer. Dentre os documentos vinculados à terra colocada à venda na rede social, havia uma autorização de exploração de ouro concedida a Vando pela Agência Nacional de Mineração (ANM). Como o subsolo pertence à União, aqueles que desejam explorá-lo devem, primeiro, solicitar uma autorização à Agência, seja para fins industriais ou artesanais.

As autorizações para minas artesanais, conhecidas como “garimpos”, são chamadas de Permissão de Lavra Garimpeira (PLG) e podem ser concedidas a indivíduos ou cooperativas. As PLGs foram criadas em 1989 para reconhecer e proteger o garimpo, em um momento em que milhares de pessoas haviam migrado para a Amazônia em busca de ouro. Sozinhos, os garimpeiros podem obter PLGs para áreas de até 50 hectares. Reunidos em cooperativas, porém, eles conseguem licenças para operar em áreas maiores na Amazônia, cujas extensões podem chegar a 10 mil hectares. A legislação não limita o número de PLGs que um indivíduo ou cooperativa pode obter.

Em março de 2020, Vando solicitou à ANM uma autorização para extrair ouro sobre uma área de 25 hectares dentro do imóvel que, três anos depois, seria colocado à venda no Facebook. Documentos analisados por Subsolo mostram que a então Gerente Regional do escritório da ANM na cidade de Belém, no Pará, encaminhou o requerimento com solicitação de urgência para a Divisão de Pesquisa e Recursos Minerais três meses após o pedido ser protocolado. À reportagem, a ANM disse que a justificativa para a solicitação de urgência não foi registrada pela servidora no despacho.

Como Vando estava foragido, todo o processo foi conduzido via procuração por Guilherme Willi Aggens, um engenheiro florestal que costuma ser descrito pela imprensa como lobista pró-garimpo em Brasília. Nos dados da ANM, Aggens aparece também como representante legal de um dos únicos garimpos autorizados pela Agência em Roraima, a 35km do território Yanomami. Contatado pela reportagem, Aggens disse que não é lobista e que considera essa caracterização equivocada e de conotação pejorativa. Ele disse que, como consultor, sua atuação é “técnica e institucional, sempre pública, transparente” e feita por canais oficiais. Ele contou já ter participado de audiência pública na Câmara dos Deputados para discutir a atualização da legislação minerária, assim como de reuniões na ANM para defender os interesses de seus clientes ou debater o aperfeiçoamento de normas do setor. Por fim, ele afirmou que quando solicitou a PLG, não sabia que Vando estava foragido, acrescentando que “a legislação minerária não exige certidão de antecedentes criminais do titular para requerimento de PLG”. Sua resposta completa pode ser encontra aqui no ítem 4.A.

Graças aos serviços prestados por Aggens, a PLG de Vando foi concedida em agosto de 2020. As imagens de satélite da área, porém, mostram que, até hoje, o garimpo está coberto por mata nativa densa, com exceção de um pequeno trecho de estrada de terra que corta a parte sudeste da PLG. No local, não há indícios de atividade de mineração de ouro, como a abertura de clareiras na mata ou a presença de depósitos de rejeitos. Apesar disso, nos registros da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) consta a informação de que foram comercializados 6,5 kg de minério de ouro extraídos da mina. Segundo a legislação que regulamenta o imposto, a CFEM deve ser recolhida pelo primeiro comprador do ouro gerado pelos garimpos. Os registros mostram que quase todo o minério supostamente retirado da área foi comprado pela D’Gold, cuja razão social e nome mais conhecido é F.d’Gold. Na CFEM, a empresa declarou ter adquirido 6,34 kg de minério de ouro provenientes desse garimpo, com aquisições feitas entre novembro de 2020 e setembro de 2022. Por essa quantidade de minério, a empresa pagou aproximadamente 25 mil reais de imposto. Os 196 gramas restantes foram adquiridos por outra empresa, a Ourominas.

Tanto a F.d’Gold quanto a Ourominas atuam como Distribuidoras de Valores e Títulos Mobiliários (DTVM), o único tipo de companhia financeira autorizada pelo Banco Central a comprar ouro diretamente dos garimpos. As DTVMs são o primeiro elo rastreável na cadeia do ouro e, na Amazônia, as empresas mantêm pontos de compra do minério nas principais regiões produtoras, como Itaituba, Jacareacanga e Novo Progresso, municípios localizados no oeste do Pará. Por lá, esses pontos são conhecidos como “bancas”.

Pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e investigadores do Ministério Público Federal (MPF) cruzaram dados da CFEM com imagens de satélite dos garimpos autorizados pela ANM e descobriram algo curioso. Parte das áreas apontadas como tendo sido a origem do ouro declarado no imposto está completamente coberta por mata. De acordo com o estudo, esse é um forte indício de que a PLG foi utilizada para lavar o ouro retirado de outras áreas. Nesses casos, o minério extraído de terras protegidas ou sem autorização é declarado como se tivesse sido retirado de um garimpo autorizado, mas que não apresenta indícios de mineração. A pesquisa descobriu que, entre 2019 e 2020, pelo menos 28% do ouro produzido em garimpos do país, ou 49 toneladas do minério, tinha indícios de procedência irregular. Desse total, 6,3 toneladas tiveram sua origem ilícita confirmada pelos autores do estudo. Segundo o MPF, apenas três DTVMs compraram 71% desse volume de origem irregular, dentre as quais estão a F.d’Gold, a Ourominas e a Carol.

Um corretor imobiliário com quem Subsolo conversou, contou que a parte mais fácil da mineração ilegal em áreas protegidas é a venda. Ele afirmou que em Novo Progresso, por exemplo, “há muitas bancas que compram o ouro extraído de áreas protegidas”, como a Floresta Nacional do Jamanxim, onde, segundo ele, há dois garimpos clandestinos em funcionamento na parte norte da reserva. “Só é necessário tomar cuidado com a fiscalização [dentro da floresta]”, advertiu.

O Rei do Ouro

As ligações entre Vando e a F.d’Gold parecem ser mais antigas do que as transações registradas na CFEM. Nos arquivos da ANM, o responsável técnico pela PLG de Vando é o geólogo Alain Daniel Lestra, que, de agosto de 2007 até novembro de 2022, dividiu a sociedade da D’Gold Pesquisa e Exploração Mineral, um braço já extinto da F.d’Gold, com o empresário Dirceu Santos Frederico Sobrinho, conhecido como “Rei do Ouro”. Sobrinho mantém 123 PLGs registradas em seu nome e, ao longo de oito anos, no período que vai 2014 a 2022, presidiu a Associação Nacional do Ouro (Anoro), a mais importante instituição do setor minerário brasileiro e uma das principais defensoras da legalização do garimpo em áreas protegidas na Amazônia.

A relação de Sobrinho com o ouro começou há mais de 30 anos. Seu pai mantinha um hortifrúti próximo de Serra Pelada, no sudeste do Pará, onde se reuniram mais de 100 mil homens em busca de ouro, formando o maior garimpo a céu aberto do mundo. Foi lá onde ele obteve sua primeira PLG, em 1990, marcando o início da sua carreira como garimpeiro. Duas décadas depois, ele fundou a F.d’Gold, empresa que se tornaria uma das principais compradoras do ouro extraído de garimpos no país. Sua sede na Avenida Paulista, em um prédio de 17 andares, em nada lembra a origem modesta de Sobrinho no interior do Pará.

Tão notável quanto o seu sucesso empresarial é a sua habilidade de se livrar das acusações apresentadas contra si. Em 2011, o Ministério Público denunciou Sobrinho pela suposta receptação de ouro extraído ilegalmente de uma unidade de conservação no estado do Amapá. A Justiça, porém, determinou o trancamento do processo por considerar que as aquisições foram legais, afinal elas estavam devidamente registradas em notas fiscais.

Quatro anos depois, em 2015, Sobrinho foi denunciado pelo Ministério Público pela suposta prática de crime de lavagem de dinheiro proveniente do comércio ilegal de ouro no Pará. Outra vez, porém, a Justiça determinou o trancamento do processo após a defesa apresentar laudos contábeis da compra e venda de ouro para justificar as transações suspeitas. Em agosto de 2021, o MPF propôs uma Ação Civil Pública (ACP) para responsabilizar a F.d’Gold pela suposta compra de 1,3 tonelada de ouro com indícios de origem irregular na Amazônia Legal. A ACP foi julgada improcedente em primeira instância, mas o Tribunal Regional Federal da 1ª Região anulou essa decisão porque a F.d’Gold apresentou sua defesa sob sigilo, o que impediu o MPF de contestá-la. Com isso, o processo voltou à fase de réplica.

Sobrinho também foi denunciado por ter, supostamente, contaminado o meio ambiente com cianeto, uma substância tóxica utilizada em garimpos ilegais para retirar as impurezas do ouro. Em setembro de 2022, ele veio a ser preso temporariamente pela PF após investigações apontarem conexões entre a F.d’Gold e os garimpos ilegais na Terra Indígena Yanomami.

Apesar dos muitos processos, Sobrinho nunca foi condenado. Procurados pela reportagem, nem ele, nem a F.d’Gold, nem o geólogo Alain Daniel Lestra responderam aos pedidos de comentário.

Manobras contábeis

Por muito tempo, as fraudes na CFEM foram favorecidas por uma legislação ultrapassada que previa que não era responsabilidade do comprador averiguar a origem do ouro, pois ele podia presumir que, no momento da transação, o garimpeiro agiu de boa-fé. Desse modo, ao pagar a CFEM, os compradores deveriam, tão somente, enviar à ANM informações que ajudassem a descrever a aquisição, como a quantidade de ouro expressa em gramas, o número de identificação do garimpo onde o ouro foi extraído, assim como a cidade onde a mina está localizada. Os registros diferenciam o “minério de ouro” do “ouro”; o primeiro é o ouro bruto, enquanto o segundo já foi beneficiado e está mais próximo de seu estado de pureza.

Subsolo analisou milhares de declarações da CFEM entregues pela F.d’Gold entre janeiro de 2010 e setembro de 2025. Alguns achados são intrigantes.

As sete maiores compras de minério de ouro feitas pela empresa nesse período seguem o mesmo padrão: a quantidade de minério declarada no imposto é o resultado da combinação do número do processo do garimpo na ANM com a adição do número “20”. Cada uma dessas sete aquisições veio de um garimpo diferente e duas delas ocorreram depois que a Suprema Corte pôs fim à presunção da boa-fé na compra do ouro, em março de 2025.

Dois exemplos ajudam a entender melhor essa fórmula.

Um garimpo de 10 hectares, localizado em Peixoto de Azevedo, no Mato Grosso, teria fornecido 86.610.320 gramas de minério de ouro para a F.d’Gold em janeiro de 2025. Essa quantidade é o resultado da combinação do número do processo do garimpo de origem do ouro (866103) com a adição do número 20.

No segundo caso, em Itaituba, um garimpo de 9,4 hectares teria vendido 85.022.720 gramas de ouro bruto para a F.d’Gold em março de 2021. Esse volume nada mais é que o resultado da mesma fórmula: o número do processo do garimpo de origem (850227) mais 20.

Além do padrão contábil, esses dois exemplos apresentam limitações físicas e operacionais.

No primeiro caso, parece ser fisicamente impossível que um garimpo com apenas 10 hectares, cuja operação foi autorizada em 2015, tenha produzido uma quantidade tão grande de minério de ouro em um único mês. Excetuando-se essa grande venda feita à F.d’Gold, a média de minério de ouro comercializada por esse garimpo, desde 2018, é de 4,7kg.

No segundo caso, o garimpo de 9,4 hectares não tem permissão para explorar ouro, mas sim cassiterita, um minério utilizado na obtenção do estanho, um metal empregado em soldas e ligas metálicas.

Todos os registros que seguem o padrão contábil identificado pela reportagem estão relacionados à compra de minério de ouro. Ao converter as quantidades em toneladas, torna-se possível notar que seus volumes variam numa faixa de 85 a 86 toneladas, o equivalente à carga de três caminhões basculantes. Quando somados esses volumes, tem-se um total de 603 toneladas de minério de ouro, quantidade suficiente para encher 21 caminhões basculantes.

Além desses sete casos, a F.d’Gold não declarou nenhuma outra compra de um volume tão grande de minério de ouro em toda a sua história de atuação, considerando as quase 18 mil aquisições reportadas pela empresa até setembro de 2025. Abaixo dessa faixa de 85 a 86 toneladas, a maior aquisição é de 22 toneladas de minério de ouro ocorrida em janeiro de 2025, em uma compra que não segue o padrão contábil identificado pela reportagem. O mesmo fenômeno se repete do outro lado do balcão: esses sete registros também correspondem às maiores vendas efetuadas pelos sete garimpos de origem do minério, considerando seus históricos de operação até setembro de 2025.

Das sete maiores aquisições de minério de ouro feitas pela F.d’Gold, cinco delas têm origem em cooperativas. A principal fornecedora é a Cooperativa de Garimpeiros do Vale do Rio Peixoto (Coogavepe). Considerada a maior associação do setor, a organização tem sete mil membros e controla 197 PLGs, os quais cobrem uma área de 207 mil hectares na Amazônia. Pelo menos três dos sete registros contábeis identificados por Subsolo apontam para compras de 86 toneladas de ouro pela F.d’Gold de garimpos operados por esta cooperativa.

Em um evento do setor minerário, em 2024, o presidente da Coogavepe, Gilson Camboim, declarou que “o foco da nossa atuação está no cuidado com as pessoas e com o meio ambiente”. Uma operação da PF, contudo, pôs em dúvida a veracidade desse compromisso. Em 2024, a organização foi alvo de mandado de busca e apreensão durante a Operação Hermes II por suspeitas de comprar mercúrio de forma irregular. O metal altamente tóxico costuma ser utilizado nos garimpos para separar o ouro de outros sedimentos.

Em outro caso curioso identificado nos registros da CFEM, a F.d’Gold declarou a compra de uma tonelada de ouro em agosto de 2024, um volume quase três vezes maior que a porção de metal que os mais de 100 mil garimpeiros de Serra Pelada conseguiam extrair todos os meses no pico de operação da mina. A origem de todo esse ouro é um garimpo autorizado há 20 anos em um rio de Porto Velho, capital do estado de Rondônia. Na hora de declarar o imposto, a empresa recolheu apenas 15 mil reais sobre o volume adquirido.

Apesar de o Brasil possuir a 10ª maior reserva de ouro do mundo, o recolhimento da CFEM é fiscalizado por apenas 16 servidores da ANM. Outros 28 servidores se dedicam à análise de milhares de solicitações de PLGs recebidas pela autarquia. Levantamentos apontam que, para cada 1 real recolhido na CFEM, a mesma quantia é sonegada.

A fiscalização precária da cadeia de produção de ouro no Brasil, combinada à facilidade de se sonegar impostos de produção minerária, tornaram os garimpos uma alternativa altamente lucrativa para organizações criminosas lavarem o dinheiro proveniente do tráfico internacional de drogas. Dentre essas organizações está o Comando Vermelho, ao qual Vando está historicamente ligado.

Drogas, ouro e sangue

Em meadosda década de 2000, Vando era descrito pelos jornais Gazeta Digital e Diário de Cuiabá como o “braço direito de Fernandinho Beira-Mar”, o segundo homem mais importante na hierarquia do Comando Vermelho, uma organização criminosa que surgiu nos presídios do Rio de Janeiro e que lucra milhões de reais todos os anos com o tráfico internacional de drogas, mantendo o controle armado sobre bairros pobres em todo o país.

O envolvimento de Vando com garimpos de ouro na Amazônia é um sintoma de um fenômeno mais amplo na floresta. O relatório Nexos de Crime e Drogas na Bacia Amazônica, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), revela que “há evidências crescentes de traficantes de drogas financiando e fornecendo apoio logístico para atividades ilegais nas operações de mineração de ouro em toda a região, incluindo territórios protegidos”.

O fenômeno, porém, não é recente. Em 1990, o jornal Folha de Boa Vista reportou o uso de pistas de pouso do garimpo por narcotraficantes. No mesmo ano, o Serviço Nacional Indígena admitiu a possibilidade de o ouro produzido no território indígena Yanomami estar sendo utilizado “para lavar rendimentos do narcotráfico”. Esse envolvimento, contudo, era pontual e secundário, enquanto hoje é sistemático, resultado de uma mudança que começou há uma década, quando o Comando Vermelho rompeu com o Primeiro Comando da Capital (PCC), em 2016. Esse episódio forçou a organização criminosa fluminense a procurar na Amazônia rotas alternativas para o abastecimento de drogas.

A combinação de um reduzido aparato policial e o crescimento da população prisional na região tornam mais fácil para as organizações criminosas expandirem sua atuação pelo território. De acordo com levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), um único delegado de polícia na Amazônia cobre uma área com 2.541 km², enquanto no resto do país, a mesma área é coberta por três profissionais. Segundo o FBSP, nos nove estados da região, houve um crescimento de 35% no número de detentos entre 2016 e 2022.

Relatórios de segurança indicam que o Comando Vermelho chegou à região um pouco antes do seu rompimento com o PCC. Em 2013, criminosos de Roraima que cumpriam penas em presídios federais junto com integrantes da facção fluminense voltaram ao estado como afiliados da organização, alistando novos membros nos presídios locais.

Atualmente, dos 772 municípios da Amazônia Legal, 344 têm organizações do narcotráfico operando neles. O Comando Vermelho está presente sozinho em 286 municípios, enquanto o PCC opera sem oposição em 90 deles, segundo o FBSP. A crescente presença do Comando Vermelho na região tornou mais fácil para a organização controlar a Rota dos Solimões, a principal via de escoamento da cocaína para Europa e Estados Unidos.

Fonte: Instituto Mãe Crioula (2025)

No interior da floresta, a organização também passou a se envolver mais ativamente nos garimpos de ouro, sejam eles legais ou ilegais. O aumento do preço do minério no mercado internacional e a baixa fiscalização tornaram o metal mais atraente aos olhos dos traficantes.

Esse envolvimento também é consequência de uma transformação na natureza dos garimpos, que, de minas artesanais, se tornaram verdadeiros complexos industriais. Diferentemente do que ocorria em Serra Pelada, onde os garimpeiros usavam bateias e picaretas, hoje, muitos garimpos demandam investimentos milionários e são operados com máquinas modernas, como retroescavadeiras, tratores de esteira, pás-carregadeiras e caminhões basculantes. Parte dessa transformação é explicada pela dificuldade de se acessar áreas remotas no interior da floresta, o que demanda o uso de aviões, pistas de pouso e pilotos bem treinados. Uma fatia do dinheiro abundante do narcotráfico tem sido investido nessas operações.

Na região, boa parte dos garimpos que operam à margem da lei depende do uso do mercúrio, um produto de comercialização fortemente controlada no país. Apesar das restrições legais, estimativas apontam que toneladas do metal chegam aos garimpos da Amazônia todos os anos. A contaminação por mercúrio pode prejudicar rios, peixes e o solo, além de causar prejuízos graves à saúde da população, como danos ao sistema nervoso central, além de doenças pulmonares e cardiovasculares. Em 2024, um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) revelou que 100% dos indígenas yanomamis testados em nove aldeias de Roraima tinham mercúrio no sangue. Outro estudo da Fiocruz, divulgado no mesmo ano, encontrou níveis alarmantes do metal em 80 indígenas do povo Munduruku.

O dano causado pelos garimpos ilegais não se restringe apenas aos efeitos nocivos do mercúrio no corpo humano e nos ecossistemas locais. Dentro da Terra Indígena Yanomami, a presença de garimpeiros provocou surtos de malária, pneumonia e infecções virais, além de escassez de alimentos. Entre 2019 e 2022, 177 yanomamis, sobretudo crianças, morreram por desnutrição, em uma crise humanitária completamente negligenciada pelo governo Bolsonaro. Entre 2023 e 2024, cerca de 13 mil garimpeiros foram retirados do território Yanomami.

A crise humanitária provocada pelo garimpo ilegal afetou, sobretudo, as crianças yanomamis. Foto feita com autorização da família e liderança Yanomami. (Foto: Paulo Zero/Divulgação 2023)

A todos esses males soma-se a insegurança que os garimpos ilegais geram nas reservas indígenas. Ataques contra povos nativos se tornaram comuns na última década. Em 2021, as casas da liderança indígena Maria Leusa Munduruku e de sua mãe, cacica da aldeia, foram incendiadas depois de terem sido atingidas por disparos efetuados por garimpeiros. O ataque ocorreu após um confronto entre policiais e garimpeiros que atuavam no interior da reserva. Em outro episódio registrado em 2021, uma aldeia Yanomami foi atacada a tiros por garimpeiros ligados às organizações criminosas do narcotráfico. Na ocasião, uma criança de sete anos morreu e cinco indígenas ficaram feridos.

Da Amazônia para o mundo

O ouro dquirido nos postos de compra da F.d’Gold na Amazônia é transportado em aviões para São Paulo, onde é refinado pela Marsam Metais, empresa dirigida por Sarah Frederico Westphal, filha de Sobrinho. Por muitos anos, o minério processado pela refinadora abasteceu centenas de empresas de capital aberto dos Estados Unidos e da Europa. A relação com a F.d’Gold, porém, cobrou o seu preço. Em 2022, a Marsam perdeu um importante selo de boas práticas do setor, e algumas empresas deixaram de listar a refinadora dentre os fornecedores identificados em suas suas cadeias de suprimentos.

Esse selo de conformidade é concedido pela Responsible Minerals Initiative (RMI), uma organização americana que promove auditorias regulares das refinadoras presentes nas cadeias de suprimentos de empresas listadas nas bolsas de valores dos Estados Unidos. Esse trabalho tem como objetivo ajudar as companhias a cumprir as determinações da Seção 1502 da Lei Dodd-Frank. De acordo com a Seção, as empresas listadas nas bolsas americanas devem verificar regularmente suas aquisições de quatro tipos de metais, os quais são conhecidos pelo acrônimo 3TG, que engloba o estanho, o tântalo, o tungstênio e o ouro. Dado o alto risco de terem ligações com grupos armados na República Democrática do Congo e em países vizinhos, esse metais são conhecidos como minérios de conflito. Nesses casos, a inspeção periódica ajudaria a evitar que as empresas patrocinem grupos armados e violações de direitos humanos no exterior.

O RMI, por outro lado, não costuma priorizar questões relacionadas ao meio ambiente e às disputas pela posse da terra. Por essa razão, o Brasil não é classificado como um país afetado por conflitos ou com alto risco de associação dos 3TGs a grupos armados. A investigação do Subsolo, porém, mostra que o risco de envolvimento de grupos armados em atividades de exploração de ouro na Amazônia é mais alto do que se imagina.

Embora a Marsam não tenha sido denunciada na ACP proposta pelo MPF contra a F.d’Gold, suas conexões públicas com a empresa de Sobrinho afetaram a reputação da companhia, fazendo com que o número de empresas que listavam a refinadora em sua cadeia de suprimentos caísse de mais de 300, em 2022, para 185, em 2025. Reportagem da Associated Press, publicada em janeiro de 2022, revelou que mais de 1/3 do ouro processado pela refinadora tem origem na F.d’Gold. Em seus fornos, o metal de diferentes origens é fundido e purificado, uma prática que, segundo estudos de geoquímica forense, eleva a complexidade do rastreio da origem do ouro.

Os Conflicts Minerals Reports enviados anualmente à Securities and Exchange Commission, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, mostram que, apesar da perda do selo de conformidade do RMI, companhias como Tesla, Ford, Cisco, Sony, Motorola, Starbucks, Nokia e Embraer continuaram a reportar a presença da Marsam em suas cadeias de suprimentos nos anos de 2023, 2024 e 2025.

A Amazon foi uma das companhias que parou de listar a Marsam após a perda do selo de conformidade, em 2022. No relatório de 2025, porém, a refinadora voltou a figurar na lista dos seus fornecedores indiretos. Ao Subsolo, a empresa explicou que não adquire materiais diretamente da Marsam e exige uma diligência reforçada de qualquer fundição que perca sua conformidade com a RMI. “Após a Marsam perder sua certificação em 2022, impusemos essa exigência aos fornecedores que a utilizavam como fonte”, afirmou a empresa, confirmando que “a Marsam voltou a aparecer em nosso relatório de 2025 porque os fornecedores retomaram essa relação”. “Diante da situação de não conformidade da Marsam e de seus supostos vínculos com atividades ilícitas, incluindo conexões com a F.d’Gold, impusemos novamente a exigência de diligência reforçada a esses fornecedores”, afirmou a empresa. Por fim, a Amazon disse que busca “viabilizar cadeias de suprimentos seguras, equitativas, justas e sustentáveis ​​em todas as nossas operações, e estabelecemos relacionamentos com fornecedores que estejam alinhados aos nossos valores e comprometidos com a melhoria das condições para os trabalhadores”.

Apesar de representar um avanço em direção ao aumento da transparência de informações sobre as matérias-primas utilizadas no processo produtivo das grandes empresas de capital aberto do mundo, os Conflicts Minerals Reports também têm os seus próprios limites. Nesses relatórios, as empresas informam apenas quais refinadoras foram encontradas na cadeia de suprimentos dos seus fornecedores diretos, mas não confirmam nem negam se algum dos 3TGs foi, de fato, inserido nos produtos comercializados. Um fornecedor pode adquirir o ouro processado pela Marsam e aplicar ou não na fabricação de um componente vendido à Sony, por exemplo. Essa é a razão pela qual não é possível saber com certeza absoluta se o metal processado pela Marsam foi usado em um carro, lâmpada ou celular fabricado por essas empresas, e qual a quantidade empregada em cada produto. Nesse cenário, outras companhias consideraram arriscado demais operar sob essa incerteza e bloquearam a Marsam da sua cadeia de suprimentos.

Contatadas pelo Subsolo, a Marsam Metais e as demais empresas citadas não responderam aos pedidos de comentários.

Grileiros e garimpeiros

O exemplo de Vando demonstra como a grilagem e o garimpo coexistem como formas complementares de extração de riqueza da floresta amazônica. Embora se trate de práticas distintas, no caso de Vando, grilagem e garimpo são operados pela mesma pessoa, a partir do mesmo território. Ainda que o subsolo brasileiro pertença à União, há casos em que grileiros de terras têm usurpado áreas públicas que contêm reservas de ouro porque o controle da superfície torna mais fácil aos invasores negociar o acesso ao subsolo a qualquer pessoa ou empresa interessada em explorá-lo, como evidenciado no terceiro capítulo desta série, que mostrou que grileiros se apossaram de parte do assentamento Terra Nossa, no Pará, e depois venderam os direitos de acesso à superfície à Chapleau Exploração Mineral. Terras com depósitos de ouro também podem ser vendidas por preços mais altos do que aquelas que têm apenas madeira.

O aumento do preço do metal no mercado internacional desde o início da pandemia, associado à expectativa de mudança na legislação que trata da mineração em terras protegidas na Amazônia, tornaram essa ameaça ainda mais intensa. Um relatório do Greenpeace revelou que 4,2 mil hectares de floresta foram destruídos pelo garimpo ilegal entre 2023 e 2024. Segundo a organização, a atividade garimpeira no período “não diminuiu, apenas se deslocou de um território indígena para outro”. Os efeitos dessa corrida pelo ouro são sentidos pelos nativos que vivem nas áreas mais desejadas pelos garimpeiros.

Apesar de estar cumprindo pena por homicídio qualificado em prisão domiciliar, não há sinais de que Vando esteja de fora dessa corrida pelo ouro. Além do garimpo em Itaituba, que não tem sinais de exploração, ele também aportou fundos na criação de uma empresa de transporte rodoviário chamada Soares Gold Transporte, cuja sócia consta como titular de uma das porções do imóvel que ele colocou à venda no Facebook. Outra empresa, chamada Soares Gold Representações de Metais Ltda, aberta em março de 2020, tem como sócios alguns dos nomes que aparecem como titulares das parcelas do seu imóvel no CAR.

Contatado pela reportagem por e-mail e WhatsApp, Vando não respondeu às questões enviadas e bloqueou o contato do Subsolo.

Não foi possível confirmar se Vando ainda mantém vínculos com Fernandinho Beira-Mar e com qualquer outro narcotraficante ou organização criminosa atuante no país. Desde a sua recaptura, em 2024, seus problemas com a Justiça foram reduzidos substancialmente. Em abril de 2026, o processo por crime contra a fé pública decorrente da sua falsa morte prescreveu e o processo por tráfico de drogas foi suspenso. Segundo o MP, ele sofre de “graves problemas de saúde”, como diabetes, gota, hipertensão, quadro de cervicalgia aguda e lombociatalgia, uma dor que começa na parte de baixo da coxa e desce pela perna através do nervo ciático. Devido a esses problemas, segundo o órgão, ele precisa realizar viagens frequentes para se tratar em São Paulo.

Enquanto Vando cumpre sua pena na capital do ouro, o metal escondido em conectores, cabos, chips e placas de circuito pode estar carregando consigo as marcas da destruição da floresta e o sangue dos seus guardiões.


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Reportagem produzida pelo projeto de jornalismo investigativo Subsolo.

A investigação foi financiada por: The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.

Apoio: Rodolfo Gadelha, do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ajudou a filtrar os milhões de registros da CFEM.

Foto de capa: Alexandro Pereira/Rede Amazônica

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