Reportagem sobre governança quilombola no Marajó, da jornalista Cecília Amorim, concorre na categoria texto

Da Redação

A jornalista Cecília Alves Amorim, cofundadora da agência Carta Amazônia, está entre as finalistas do Prêmio MOL de Jornalismo para a Solidariedade, na categoria Texto, com a reportagem “Governança quilombola fortalece titulação no Pará, mas reconhecimento no Marajó ainda é lento”. A matéria, publicada em novembro do ano passado, é uma produção da agência Carta Amazônia em parceria com a InfoAmazonia.

A premiação, organizada pelo Instituto MOL, reconhece reportagens que abordam impacto social, solidariedade, diversidade e fortalecimento da sociedade civil, destacando o papel do jornalismo na promoção da cidadania e da justiça social.

A matéria, que também conta com a parceria do repórter fotográfico Harisson Lopes, integra a série Amazônia Quilombola, da Rede Cidadã InfoAmazonia. O conteúdo aborda os desafios enfrentados por comunidades quilombolas no processo de reconhecimento e titulação de seus territórios no arquipélago do Marajó, no Pará. O trabalho foi reconhecido por trazer uma abordagem aprofundada sobre governança territorial, direitos coletivos e preservação ambiental na Amazônia.

A indicação coloca a reportagem produzida na Amazônia entre trabalhos de destaque do jornalismo nacional que abordam temas sociais e ambientais.

Quilombo de Gurupá, no Marajó, é uma das comunidades citadas na reportagem. (Foto: Harrison Lopes/ Carta Amazônia)

Quilombos como guardiões da floresta

A reportagem parte de um dado importante: os territórios quilombolas da Amazônia Legal preservam, em média, 92,3% de sua cobertura florestal, segundo levantamento do Instituto Socioambiental em parceria com a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. Esse índice evidencia o papel dessas comunidades como protetoras da floresta e da biodiversidade amazônica.

No Pará, onde existem 163 territórios quilombolas mapeados e 102 titulados, o estado apresenta o maior índice de titulação da Amazônia. Ainda assim, muitas comunidades continuam esperando há décadas pelo reconhecimento oficial de suas terras.

No arquipélago do Marajó, a situação é ainda mais delicada. Entre as 49 comunidades associadas à organização quilombola Malungu, apenas 15 possuem título definitivo, o que expõe essas populações a conflitos territoriais, pressões econômicas e ausência de políticas públicas.

A matéria traz relatos de moradores e lideranças quilombolas, revelando como a luta pelo território atravessa gerações. Comunidades como Caldeirão, no município de Salvaterra, convivem com ameaças como invasões de terra, mudanças climáticas e o avanço de grandes empreendimentos agrícolas. Ao mesmo tempo, mantêm práticas tradicionais de agricultura, pesca e manejo da floresta.

Lideranças locais ressaltam que o título coletivo das terras representa mais que um documento: é uma garantia de autonomia, preservação cultural e segurança para as comunidades.

Durante a reportagem, Cecília Amorim visitou diversas comunidades quilombolas do Marajó. (Foto: Harrison Lopes/ Carta Amazônia)

Uma pauta construída no território

Segundo Cecília Amorim, a reportagem premiada não nasceu apenas de dados ou entrevistas pontuais. A ideia da pauta surgiu após um processo de convivência e escuta prolongada.

Durante cerca de um ano, a jornalista acompanhou de perto iniciativas e projetos em territórios quilombolas marajoaras, convivendo com lideranças comunitárias, agricultores, jovens e mulheres das comunidades. Essa experiência permitiu compreender melhor as dinâmicas sociais, os desafios políticos e as estratégias de resistência presentes nesses territórios.

“Foi a partir desse contato direto com o cotidiano das comunidades que surgiram as perguntas que orientaram a reportagem: como funciona a governança quilombola no território? Quais são os obstáculos para a titulação das terras? E de que forma essas comunidades contribuem para a proteção da Amazônia?”, afirma Cecília,

O resultado foi um trabalho que combina dados, contexto político e narrativas humanas, mostrando a Amazônia a partir da perspectiva de quem vive e luta por seu território.

Trajetória no jornalismo socioambiental

Amazônida de nascimento e paraense de coração, Cecília Amorim atua no jornalismo com foco na pauta socioambiental. Ao longo de sua trajetória, tem se dedicado a cobrir temas relacionados à Amazônia, especialmente aqueles que raramente ganham espaço na grande mídia.

Além de reportagens investigativas sobre questões socioambientais, direitos de povos tradicionais e justiça climáticas e especiais, seu trabalho busca aproximar o público das realidades vividas por comunidades indígenas, quilombolas e ribeirinhas, destacando suas histórias, modos de vida e estratégias de resistência.

A indicação ao prêmio reconhece não apenas uma reportagem específica, mas também um modo de fazer jornalismo baseado na escuta, na presença em campo e no compromisso com as vozes dos territórios.

Para a jornalista, contar essas histórias é também uma forma de ampliar o debate público sobre a região. “Para mim o fazer jornalismo precisa estar atrelada com o social, eu sempre quis fazer uma comunicação que traga impacto para o meu território. Contar histórias que o Brasil não conhece. Mostrar pessoas, comunidades e lugares que a grande mídia não mostra. Contribuir assim para que as outras regiões conheçam de forma real meu território. Quero mostrar a Amazônia plural, mostrar que a Amazônia também é negra”, afirma.

Ao colocar em evidência o protagonismo das comunidades quilombolas na conservação da floresta e na defesa de seus territórios, a reportagem mostra que a Amazônia não é apenas um espaço de disputa ambiental, mas também um território de memória, cultura e luta política.

A indicação ao prêmio reforça a importância de um jornalismo produzido a partir da Amazônia, capaz de revelar as complexidades da região e dar visibilidade às vozes que historicamente foram silenciadas.

Etapa de voto popular

Além da seleção de um júri especializado, as reportagens finalistas do Prêmio MOL também concorrem numa etapa de votação popular através de um formulário online. Acesse o link da premiação e vote na reportagem da agência Carta Amazônia.

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Foto de capa:  Reprodução – Harisson Lopes/ Carta Amazônia

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