Agricultores, quilombolas e caminhoneiros bloqueiam vias em reação a reajustes. Ação policial gera tensão e denúncias de violência

Por Cecilia Amorim

Nos últimos dias, o arquipélago do Marajó, no Pará, tem sido cenário de intensos protestos protagonizados por comunidades quilombolas, caminhoneiros e agricultores familiares dos municípios de Salvaterra, Cachoeira do Arari e Soure. A manifestação denuncia o aumento das tarifas de balsas e lanchas que operam na região, serviço monopolizado pela empresa Henvil Transporte LTDA.

A Henvil anunciou recentemente um reajuste de 23% nas tarifas para caminhões e veículos particulares. As passagens de lancha passaram de R$ 45 para R$ 52, e o acesso à sala executiva teve um aumento de R$ 10 para R$ 20. Com o reajuste, as tarifas para caminhões e carretas podem chegar a R$ 2.400.

Inconformados com os aumentos, caminhoneiros da Associação de Transportadores de Carga e Logística do Marajó iniciaram, no último domingo (16), a interdição da rodovia que dá acesso ao porto Camará, em Soure, permitindo a passagem apenas de ambulâncias, bombeiros e viaturas policiais. A mobilização ganhou o apoio da população local, ampliando-se na terça-feira (18). Em resposta, reforços da polícia militar foram enviados ao município.

Na quarta-feira (19) pela manhã, episódios de violência foram registrados. Líbia Pantoja Nunes, moradora da Comunidade Quilombola de Vila União, relatou os motivos que levaram às mobilizações:

“Foi contra o aumento da passagem da balsa. A área comum não aumentou, mas o resto todo aumentou e a população é a mais afetada: quem vem de carro, moto, bicicleta, até quem traz um cachorro pagou mais. O consumidor final vai sofrer com tudo, porque o preço de tudo que consumimos aqui também vai aumentar do mesmo tanto. Até as vans aumentaram”.

É importante destacar que os três municípios não possuem transporte público oficial. O serviço é realizado por vans privadas, cujos proprietários também elevaram os preços das passagens, que passaram de R$ 10 ou R$ 15 para R$ 20. A preocupação dos moradores é justificável, pois os suprimentos que abastecem os municípios vêm de Belém através das balsas, e temem que o aumento das tarifas resulte em elevação nos preços dos produtos, impactando significativamente a população.

Violência policial

Ao longo da PA-154, comunidades quilombolas como Cachoeirinha, Condeixa, Maruacã, Vila União, Vila Jubim, Passagem Grande e Caldeirão estabeleceram bloqueios. Em Vila União, o bloqueio ocorreu próximo a uma escola de educação infantil. Na manhã de quarta-feira, a polícia utilizou spray de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dispersar os manifestantes. Os disparos atingiram a escola, causando pânico entre trabalhadores e estudantes. Três manifestantes foram presos, com fiança estipulada em um salário mínimo para cada um.

Vídeo publicado pelos moradores na internet denunciam violência policial na manifestação (Fonte: Reprodução/Redes sociais)

“A polícia começou e atingiu uma casa onde tinha uma criança de um ano dormindo. A mãe saiu chorando e a criança desesperada. Atiraram balas de borracha e gás lacrimogêneo dentro da escola. A diretora quase desmaiou, funcionários foram feridos. Eles não vieram para negociar: o governador mandou acabar com tudo”, afirma Líbia.

Na manhã de quinta-feira (20), a ação policial ocorreu na comunidade Vila de Jubim, onde há denúncias de invasão a uma residência. No final do dia, a violência se intensificou na Comunidade Passagem Grande, com relatos de uso de armas de fogo pelas forças policiais.

Moradora da Vila de Jubim, Leidinalva de Jesus, desabafou sobre a ação policial:

“Agora aqui na Vila de Passagem Grande estamos sendo alvos de tiros, não estão sendo mais tiros de borracha. E ainda está vindo uma balsa de novo cheia de viatura para o Marajó. Nós não somos bandidos, nós não somos ladrões, nós somos povo lutando pelo direito que é nosso, nós pedimos ajuda, que o governo venha se manifestar com uma posição, nós não aguentamos mais nosso povo passar por isso”.

As ações consideradas desproporcionais por parte das autoridades policiais assustam a população, que permanece unida reivindicando valores justos que garantam o direito de ir e vir, além de assegurar a viabilidade econômica das comunidades e o abastecimento das cidades.

Emerson Miranda, quilombola e morador da Comunidade de Caldeirão, também denuncia o descaso do governo com os direitos básicos dos moradores do arquipélago. “Os caminhoneiros são os que trazem comida e combustível para a ilha. Se o transporte fica inviável, tudo na cidade é afetado. O governador mandou a polícia, mas nenhuma autoridade veio ouvir o povo. Isso é sobre o direito de viver no Marajó. Somos agricultores, quilombolas, extrativistas. Se não podemos transportar nossa produção, morremos de fome em nossa própria terra”.

Protesto também denuncia o descaso do governo com os direitos básicos dos moradores do Marajó (Reprodução/Redes sociais)

As comunidades quilombolas do Marajó são compostas por agricultores que produzem principalmente macaxeira, farinha, abacaxi, hortaliças e açaí. Eles dependem das balsas para escoar a produção para a capital, e o aumento das tarifas impacta diretamente sua subsistência.

Enquanto uma nova balsa com reforços policiais seguem para a região, as comunidades permanecem mobilizadas. “O Marajó acordou, e não vai calar até que o governo olhe para nós”, resumiu Emerson.

A reportagem entrou em contato com a assessoria da Polícia Militar do Pará e com a empresa Henvil Transporte LTDA, mas até o fechamento desta edição não obteve retorno.

Atualização:

Após quatro dias de protestos intensos, os manifestantes obtiveram a suspensão do aumento de 23% nas tarifas das balsas e lanchas que operam na região. Em uma longa reunião na noite desta quinta feira (20) com lideranças quilombolas do Marajó e representantes da Malungu, Secretaria de Estado de Integração e Desenvolvimento Regional (SEIRDH), Agência de Regulação e Controle de Serviços Públicos de Transporte (ARTRAN), a Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (SEGUP), Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho, Emprego e Renda (SEASTER) e Assembleia Legislativa os manifestantes conseguiram a suspensão do aumento tarifário. Ficou acordado que, em sete dias, representantes dos caminhoneiros e lideranças comunitárias se reunirão em Belém para discutir um possível reajuste de 11%, em vez do proposto inicialmente.

As comunidades do Marajó permanecem mobilizadas, aguardando a reunião em Belém para assegurar que qualquer ajuste tarifário seja justo e não prejudique a economia local.

______________________________

Foto de capa: Reprodução/Redes sociais