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Medicina a serviço dos povos da floresta

Projeto criado pelo médico indígena Idjarrury Sompré, da etnia Kaingang, propõe um atendimento de saúde integrado entre a medicina ocidental e os saberes ancestrais dos povos tradicionais da Amazônia

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Medicina a serviço dos povos da floresta

 

Após receber um chamado para um atendimento de urgência via rádio amador, acionado por uma das 50 comunidades da Terra Indígena Zo’é, no norte do Pará, o médico Idjarrury Sompré se desloca da unidade de saúde onde atua, no próprio território, até o local indicado para o atendimento. Ao longo do trajeto, realizado a bordo de uma canoa que atravessa rios e igarapés e longas horas de caminhadas em trilhas no interior da floresta densa, o médico chega até o paciente para realizar os primeiros socorros. A cena se repete com frequência na rotina do médico indígena, especialista em acolhimento de povos de recente contato e de regiões remotas da Amazônia.

“Por mais difícil que seja atuar nesses locais. É preciso que alguém esteja lá atuando. E eu me sinto na obrigação de ser esse alguém, de incentivar que mais pessoas também estejam lá. É importante mostrar que não são só dificuldades, não são só desafios. É também a chance de fazer o melhor para um povo que precisa de cuidado”, afirma o médico Kaingang.

 

Idjarrury Sompré em atendimento médico na Terra Indígena Zo’é, no Pará (Fonte: Acervo pessoal/ Idjarrury Sompré)

 

 

O desafio enfrentado durante os atendimentos médicos em locais de difícil acesso foi o que motivou Idjarrury a criar o projeto “Socorristas da Floresta”. A iniciativa, fundada pelo médico indígena e outros dois profissionais de saúde da Amazônia, atua com treinamento e capacitação de moradores da floresta em técnicas simples e práticas de atendimento inicial, a partir da realidade do território amazônico.

“O projeto foi pensando para enfrentar um desafio real vivido por quem mora em regiões remotas da Amazônia. Nesses locais, o atendimento médico de urgência costuma demorar longas horas ou até dias por conta das dificuldades de acesso. Por isso, levar treinamentos de primeiros socorros a indígenas e ribeirinhos faz toda a diferença nesses atendimentos, principalmente em casos de maior gravidade como afogamentos, acidentes com ferramentas de trabalho e picadas de animais peçonhentos. A nossa proposta é fomentar uma cooperação de saberes e usar os recursos da floresta para ajudar a salvar vidas”, explica Idjarrury.

Além das técnicas de primeiros socorros, o treinamento também inclui orientações para o transporte de pacientes em rede com varão, imobilização de pernas ou braços com materiais disponíveis na floresta e produzir maca de resgate adaptada com cordas e com madeira retirada do próprio territorio. O projeto já capacitou até o momento mais de 200 pessoas de comunidades tradicionais da Amazônia.

 

Eu não escolhi a medicina. Foi a medicina que me escolheu

Nascido no Território Indígena de Pinhalzinho, em Santa Catarina, Idjarrury aprendeu desde muito cedo a importância do cuidado, da luta e da organização para a resistência dos povos originários. O seu nome é uma homenagem de seus pais ao líder indígena Idjarruri Karajá, uma das principais lideranças da Assembleia Nacional Constituinte, que garantiu a inclusão dos direitos indígenas na Constituição Federal.

Ainda na infância, aos 9 anos, precisou deixar a comunidade onde morava no Sul e se mudar com a família para a Terra Indígena Mãe Maria, do povo Gavião, no Pará. Com a mudança, provocada por um conflito territorial que ameaçava a vida de seu pai, Idjarrury passou a conviver com outra etnia e ampliar seus aprendizados sobre os povos indígenas da Amazônia.

Aos 17 anos, após finalizar o ensino médio no território Gavião, não teve dúvida sobre o curso que desejava seguir.

“Eu sempre digo que eu não escolhi a medicina. Foi a medicina que me escolheu. A primeira memória que eu tenho sobre a profissão, acho que tinha uns 4 anos, foi no pré-escolar. Num determinado momento na escola, durante um ensaio fotográfico com crianças vestidas com fantasias referentes a profissões, os professores me deram uma roupa de cowboy com chapéu, colete de couro e laço, mas eu chorei muito e decidi não fazer a foto, até me tranquei no banheiro para não ser fotografado. Só parei de chorar quando me ofereceram outras opções de fantasia e eu escolhi o jaleco com um estetoscópio, que me silenciou e me deixou tranquilo naquele momento”, lembra.

A cena do menino encantado com a fantasia de doutor segue viva em sua memória. “Eu nem sabia o que era medicina naquela época. Mas anos depois, eu passei entender aquele episódio como o primeiro sinal que seguiria nessa profissão”, conta Idjarrury, que até hoje guarda a foto de criança vestida de médico.

 

O trabalho de Idjarrury é um apelo pela descolonização do cuidado. Ele propõe que a medicina seja um exercício de alteridade: tratar o indígena não como um paciente genérico, mas como um indivíduo cuja saúde depende da integridade do seu território. (Foto: João Risi)

 

 

Durante a faculdade, o então estudante de medicina se sentiu incomodado com os contrastes entre os ensinamentos em sala de aula e o seu modo de vida tradicional. “Eram choques de realidades constantes. Não havia diálogo entre a ciência ocidental e o conhecimento ancestral, que me atravessava, enquanto alguém que morou a vida toda em território indígena”.

Foi somente a partir dos projetos de extensão em territórios tradicionais, realizados durante a graduação na Universidade Federal do Pará, conhecendo de perto a realidade da saúde indígena na região amazônica, que ele passou a compreender a sua missão como um mediador entre a medicina ocidental e os saberes ancestrais no cuidado com os povos da floresta. “Ser um médico indígena e atuar dentro das nossas comunidades nos traz uma visão muito particular. Nós não estamos apenas tratando doenças biológicas; nós estamos lidando com a preservação de modos de vida, com a proteção de territórios e com o respeito à nossa medicina tradicional”, afirma.

 

Quando uma floresta adoece, o nosso povo adoece junto.

Idjarrury conta que muitas vezes, a medicina ocidental foca no sintoma e não compreende a saúde como um elemento de equilíbrio. “É o equilíbrio com a terra, com a floresta e com os nossos ancestrais. Quando uma floresta adoece, o nosso povo adoece junto. Por isso, a luta pela saúde indígena é, indissociavelmente, uma luta pela demarcação de terras e pela preservação ambiental”.

Ativista do Sistema Único de Saúde (SUS), o médico afirma que sua maior motivação é o ver o povo indígena saudável e atendido de forma humanizada, sem agressão aos seus saberes tradicionais.

 

Idjarrury se descreve como uma “ponte” entre a medicina ocidental e os saberes ancestrais no cuidado com os povos da floresta. A sua maior motivação é o ver o povo indígena saudável e atendido de forma humanizada. (Foto: João Risi)

 

“Eu defendo um sistema de saúde pública que vá além de levar profissionais para as aldeias, mas que saiba ouvir os nossos pajés, as nossas benzedeiras e que entenda que a cura muitas vezes vem da nossa própria cultura. Ser médico indígena é ser uma ponte entre esses dois mundos, garantindo que o direito à saúde seja respeitado sem que a nossa identidade seja apagada.”

 

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Foto de capa: João Risi. 

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