Cordão da Bicharada e Pretinhos do Mangue mostram que é possível aliar diversão e conscientização sobre a preservação da floresta
Por Adison Ferreira
Cerca de 350 quilômetros separam dois cortejos de carnaval na Amazônia unidos por folia e educação ambiental. Na Vila de Juaba, distrito da cidade de Cametá, no Baixo Tocantins, no Pará, o bloco Cordão da Bicharada reúne foliões fantasiados de animais da fauna amazônica e mundial para conscientizar a comunidade sobre a conservação da floresta. No município de Curuçá, na Região do Salgado Paraense (litoral), o bloco Pretinhos do Mangue usa a lama do manguezal como abadá para chamar atenção sobre a importância de preservar a biodiversidade local.
Idealizador do Cordão da Bicharada, mestre Zenóbio Ferreira, 78 anos, conta que a iniciativa nasceu em 1975, inspirada na tradição dos cortejos festivos de mascarados da região do Baixo Tocantins e, principalmente, nos livros que leu durante a infância.
“Quando era criança, li uma frase num livro que me chamou bastante atenção. A frase dizia assim: ‘as aves não têm onde pousar’. Anos depois encontrei um livro na biblioteca por nome ‘Mundo Animal’ que tinha várias figuras de bicho de todo jeito, de tudo que era canto. Foi daí que surgiu a ideia de construir as vestimentas dos animais. Eu queria trazer uma mensagem da floresta para as pessoas, mostrando as dificuldades dos animais com a devastação das matas e como eles tentam sobreviver a esse desmatamento”, afirma.
As primeiras fantasias foram feitas à base de lona, juta e materiais reaproveitados disponíveis na comunidade. Com o passar do tempo, os adereços foram se aperfeiçoando com o uso de diversos tipos de tecidos e máscaras de argila moldadas à mão.

O cortejo sai tradicionalmente às terças-feiras de carnaval pelas águas do rio Tocantins. Embalado por canções carnavalescas próprias e encenações teatrais que homenageiam a fauna, o cordão avança floresta adentro, encantando e divertindo as comunidades ribeirinhas da região.
“Antigamente as pessoas tinham medo da gente. Nós tínhamos uma regra de não tirar as máscaras e fantasias após o desfile porque queríamos conquistar o povo como bicho e não como gente. Mas com o tempo isso foi mudando. Hoje em dia, onde quer que a gente se apresente, é uma felicidade só. Crianças, jovens, adultos e idosos se unem aos bichos”, conta o idealizador do bloco.
Fantasia ecológica
Em Curuçá, a inspiração para o Pretinhos do Mangue foi a preservação dos manguezais da região. Segundo os moradores, o cortejo ecológico iniciou em 1989 a partir da frustração de dois amigos que foram ao mangue da cidade atrás de alimento para o tira-gosto, mas não conseguiram nenhum caranguejo, devido ao período da “andada” (reprodução) da espécie prevalecente do município, o caranguejo-uçá.
Como não acharam o animal, Everaldo Campos e Sebastião Araújo decidiram criar uma fantasia ecológica, com lama pelo corpo e alguns galhos na cabeça. A brincadeira se repetiu nos anos seguintes, chamando a atenção da comunidade e atraindo um número cada vez maior de brincantes.
Mais de trinta anos depois, o bloco segue pelas ruas da cidade, reunindo milhares de foliões cobertos de lama, acompanhados por carros alegóricos ao som de carimbó e as tradicionais músicas de carnaval. Em 2010, o Pretinhos do Mangue foi reconhecido como Patrimônio Cultural do Estado do Pará. Um reconhecimento que reforça a principal mensagem do cortejo: a preservação ambiental e valorização da cultura dos manguezais.

Brincante do bloco há mais de duas décadas, o professor César Tenório, 39 anos, afirma que o bloco é uma manifestação popular que vai além do carnaval. “A parte da folia é muito importante, afinal, é através dela que o cortejo consegue reunir essa multidão nas ruas. Mas a mensagem de conscientização ambiental apresentada aqui é a principal motivação dessa festa. Sem os manguezais e sem as florestas não existe alimento, não existe vida, não existe carnaval, não existe planeta. Por isso, acho primoroso o trabalho realizado pelos moradores de Curuçá durante o carnaval.”
O cortejo de foliões fantasiados de lama do mangue sai tradicionalmente no domingo e na terça-feira de carnaval.
O manguezal, que é cenário de concentração do bloco, faz parte da Reserva Extrativista Mãe Grande de Curuçá. A unidade de conservação conta com aproximadamente 37 mil hectares de estuário – região onde as águas de rios interagem com o oceano – e é povoada por 1.808 famílias, divididas em 49 pequenas comunidades instaladas em ilhas, furos, rios e praias.

Folia e manifesto em defesa da Amazônia.
Mesmo separados por mais de 350 quilômetros, os cortejos ecológicos da Vila do Juaba e de Curuçá ocupam o mesmo território quando o assunto é não dar folga para a conscientização ambiental. Juntos, os dois blocos nos ensinam com muita leveza e irreverência que brincar carnaval também pode ser um manifesto em defesa da Amazônia.

Seja fantasiado de animal silvestre em cima de uma embarcação que trafega pelo rio Tocantins, embalado por marchinhas carnavalescas, como o Cordão da Bicharada, ou num desfile de foliões cobertos de lama de mangue pelas ruas de uma cidade do interior, os dois cortejos levam alegria e conscientização ambiental por onde passam e reforçam a mensagem sobre a importância e a urgência de manter a floresta em pé.
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Foto de capa: Acervo / Museu Juabense
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