Protesto exige a suspensão imediata da licença concedida à Belo Sun. Em entrevista exclusiva para a agência Carta Amazônia, Pyja Xipaya, liderança das Mulheres Indígenas do Médio Xingu, falou sobre luta territorial, resistência feminina e defesa do rio Xingu.

Por Cecília Amorim

Há quase um mês, o prédio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (FUNAI) em Altamira, no sudoeste do Pará, é ocupado por mulheres indígenas do Médio Xingu. A ação, que já dura 28 dias, é um marco na história da luta indígena na região: pela primeira vez, um movimento organizado por mulheres assume a linha de frente de uma ocupação política para denunciar a falta de representação institucional e os impactos de um megaprojeto de mineração que ameaça seus territórios.

A ocupação tem gênero, rosto e voz: são mulheres dos povos Xipaya, Juruna, Xikrin, Arara, entre outros, que decidiram ocupar o espaço físico da FUNAI para exigir duas coisas fundamentais: a nomeação imediata de um coordenador indígena para a unidade local, cargo vago desde fevereiro, e a suspensão definitiva do projeto Belo Sun, uma mineradora de capital canadense que planeja se instalar na Volta Grande do Xingu.

A ausência de uma coordenação indígena na FUNAI local inviabiliza o diálogo com o Estado e fragiliza a proteção territorial em um momento crítico. A Belo Sun, que seria uma das maiores minas a céu aberto do país, representa, segundo as lideranças, uma ameaça concreta à vida dos rios, dos peixes, das caças e dos povos que dependem diretamente desse equilíbrio.

Lideranças afirmam que a mobilização continuará até que a autorização para o projeto seja suspensa
(Foto: Movimento de Mulheres do Médio Xingu/ Divulgação)

Segundo a organização, mais de 100 indígenas participam da ocupação.  As lideranças afirmam que a mobilização continuará até que a autorização para o projeto seja suspensa. Em documentos enviados a autoridades federais, mulheres indígenas alertam que a região já enfrenta fortes pressões ambientais e que novos empreendimentos podem aprofundar ainda mais os impactos sobre o território.

Mas a ocupação não é apenas uma resposta institucional. É também um grito de autonomia e protagonismo feminino. 

“Nós mulheres também temos o nosso direito de lutar pelos nossos territórios”. Em meio ao sol escaldante, à chuva, às crianças adoecidas e à saudade de casa, o que sustenta a resistência é a força coletiva e a certeza de que está em jogo algo maior: a própria existência”,  afirma Pyja Xipaya, liderança das Mulheres Indígenas do Médio Xingu.

A reportagem entrou em contato com a FUNAI para comentar as reivindicações apresentadas pelo movimento, mas não recebeu retorno até o fechamento desta edição. O espaço está aberto para manifestações do órgão federal. 

A Carta Amazônia conversou com Pyja Xipaya, uma das vozes centrais da ocupação, que ocorre desde o dia 23 de fevereiro, para entender os motivos, os desafios e os significados dessa luta. 

O que motivou a ocupação da FUNAI por mulheres indígenas do Médio Xingu?

  Pyja Xipaya – O que nos levou à ocupação da FUNAI, nós e mulheres indígenas do Médio Xingu, junto com liderança, foi sobre Belo Sun. A nossa preocupação é sobre Belo Sun. Então, para isso, estamos aqui ocupando o prédio da FUNAI, porque estamos sem uma coordenação indígena, estamos sem coordenador desde o mês de fevereiro. Então, estamos aqui há quase 30 dias, esperando uma resposta de Brasília para colocar uma coordenação indígena. Queremos um indígena. O nome já foi encaminhado, já foi nomeado por todas as lideranças, encaminhado para FUNAI Brasília, mas até agora não nos deram nenhuma resposta. Isso nos levou a estar aqui na ocupação do prédio. Nos preocupamos muito com esse empreendimento que está aí agora, Belo Sun, e precisamos de uma FUNAI local para lutar junto com a gente, para nos ajudar.

Como tem sido a rotina durante esses quase 30 dias de ocupação?

  Pyja Xipaya – A nossa rotina aqui dentro da FUNAI, nesses 28 dias, não tem sido muito fácil. Nós, que estamos acostumados nas nossas casas, na nossa aldeia… é muito ruim ficar aqui, tanto de dia, fora de casa. As crianças estão adoecendo, as crianças fora da escola, muita chuva, sol, quentura. As crianças adoecendo a cada dia que passa. A gente segue dando todo o atendimento durante a ocupação, mas não é fácil, é muito difícil ficar aqui. E o que nos mantém firmes, nós mulheres indígenas, junto com liderança, é a nossa força, a nossa resistência. Porque nós temos que lutar contra esse empreendimento de morte, porque ele arrisca a nossa vida. Então, é isso que nos mantém firme até agora.

Quais são os principais riscos ambientais que o projeto Belo Sun representa?

Pyja XipayaNa nossa avaliação das comunidades indígenas, dos territórios indígenas, os riscos ambientais que esse projeto pode trazer para nós, para os nossos territórios e os territórios da região, é que nós temos medo da contaminação dos peixes, das caças, do rio, contaminação do solo, medo de trazer mais desmatamento, garimpagem de terra, invasões de áreas indígenas. Esse é o nosso medo com esse empreendimento. Já estamos assustados com o que Belo Monte trouxe para nós, e agora, com esse empreendimento, a gente está mais assustado ainda. Então, é não a Belo Sun. Não aceitamos Belo Sun, não aceitamos a morte do nosso rio Xingu, não aceitamos esse empreendimento na nossa região do Médio Xingu. Não aceitamos.

Qual é o papel das mulheres nesse processo de mobilização?

  Pyja Xipaya –  O principal papel das mulheres nesse processo de mobilização é que nós mulheres também temos nosso direito de lutar pelo nosso território. Também precisamos ser ouvidas. Nossas vozes têm que ser ouvidas. Nós mulheres também temos as nossas forças, temos as nossas vozes. Então, o principal papel de nós mulheres indígenas nessa mobilização é que nós mulheres também temos o nosso direito de lutar pelos nossos territórios.

O que essa mobilização significa para você pessoalmente?

Pyja Xipaya –  Significa muita coisa. Significa a força das mulheres indígenas. Nunca, aqui na nossa região do Médio Xingu, nenhuma mulher indígena olhou para os territórios, olhou para esse empreendimento que está aí trazendo morte para todos nós. Nunca. Então, nós mulheres indígenas nos levantamos para lutar contra esse empreendimento. Então significa muito para mim. Muito, muito mesmo.

Eu não sou liderança do meu território Xipaya, eu não sou líder, mas eu sou líder das mulheres indígenas do movimento das mulheres indígenas aqui do Médio Xingu. Essa é uma mobilização nossa, das mulheres, que está aqui. A gente se levantou para lutar pelo nosso direito, contra esse empreendimento. Então significa muito para mim. É motivo de muita alegria para nós mulheres termos nos reunido e estarmos lutando juntas contra esse empreendimento, para salvar o nosso rio, salvar a nossa vida.

O que está em jogo com esse projeto?

  Pyja Xipaya –  É a nossa vida que está em jogo. Não só para o meu povo Xipaya, mas para todos, todos nós do Médio Xingu. É a nossa vida que está correndo risco. É a nossa vida que está em jogo com esse empreendimento da Belo Sun. Todos nós estamos correndo risco de vida. Esperamos a resposta do governo de que Belo Sun não será mais instalada na nossa região e que a nossa coordenação indígena seja colocada aqui na nossa FUNAI local. Então, assim encerraremos a nossa ocupação aqui no prédio da FUNAI, nós do movimento das mulheres indígenas do Médio Xingu.

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Foto de capa:  Xingu Vivo para Sempre/ Divulgação

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