Mesmo sem apoio efetivo do poder público, iniciativa educa cerca de 2 mil famílias e mostra que a reciclagem começa na base social

Por Eraldo Paulino

Cerca de duas toneladas de materiais recicláveis deixam de ser descartadas de forma irregular todos os meses em Colares, município-ilha do Nordeste Paraense com cerca de 13 mil habitantes. Esse impacto positivo é resultado do trabalho da Samaúma – Associação de Coletores de Coleta Seletiva de Colares, iniciativa comunitária que nasceu durante a pandemia da Covid-19 e hoje envolve diretamente mais de 2 mil residências, tanto da área urbana quanto da zona rural.

O projeto surgiu em um período de forte crise econômica. Com a pandemia, o músico, educador popular e militante socioambiental Marcelo Paz perdeu sua principal fonte de renda. Ao lado de sua companheira, Sandra Carvalho, e de mais 10 famílias, ele encontrou na coleta seletiva comunitária uma possibilidade de recomeço. “A gente começou entendendo que precisava criar uma alternativa de sobrevivência e, ao mesmo tempo, colaborar com nosso trabalho para melhorar a realidade da cidade”, explica Marcelo.

Com capacitação realizada pela cooperativa RECICROM, de Vigia, o grupo passou a investir na educação socioambiental, visitando casas e dialogando com as famílias sobre a importância da reciclagem. “Tivemos uma reunião para entender como faríamos isso, e percebemos que o caminho era a educação ambiental. Incentivar as pessoas a não mandarem nada para o lixão, a reciclar, a transformar, a fechar o ciclo das coisas”, relata Marcelo. Segundo ele, esse processo ganhou força dentro dos lares. “As mamães fazem isso no dia a dia, e eu tenho um orgulho enorme por essas mamães”, completa.

Através do projeto, cerca de duas toneladas de materiais deixam de ser descartadas de forma irregular (Foto: Eraldo Paulino/Carta Amazônia)

Entre essas mulheres está Dona Raimunda Ferreira, conhecida como Dona Dica, uma das chamadas “mamães guardiãs”, que se tornou referência na comunidade. Ela descreve com cuidado o processo de preparação dos resíduos. “Eu sacudo a embalagem, coloco água dentro, tiro todo o resíduo do leite. Lavo bem, coloco todo dia no sol. Quando seca, eu abro, dobro direitinho para não fazer muito volume”, conta.

A mesma disciplina faz parte da rotina de Maria do Rosário, conhecida como Rosa. Ela destaca o cuidado constante com os materiais separados. “Eu não deixo na chuva, tudo é limpinho”, afirma. Para ela, o esforço cotidiano tem um sentido maior. “A gente faz isso porque sabe que é importante para o meio ambiente”, reforça.

Apesar dos resultados expressivos, o trabalho ainda enfrenta limitações estruturais. Para a moradora Ana Maria, a associação deveria receber mais apoio do poder público. “A gente fica meio triste, porque eles não têm tanto apoio. As autoridades deveriam dar mais estrutura. Eles trabalham no sol, na chuva, carregam material o tempo todo”, observa.

Por meio da mobilização popular, a Samaúma conseguiu que a prefeitura cedesse um espaço para funcionar como galpão de coleta. Ainda assim, como explica Sandra Carvalho, uma das fundadoras, a comunidade segue sendo o principal suporte do projeto. “Hoje somos uma associação regularizada, mas ainda corremos atrás do básico. Quando chove, todo mundo se esconde debaixo de um pequeno telhado. A gente sonha com a cobertura necessária para trabalhar com a dignidade que merecemos”, afirma. Segundo ela, o incentivo da sociedade tem sido decisivo. “Nós começamos a ter sócios contribuintes, e isso é o que mais tem ajudado a manter o projeto funcionando”, completa.

Além da coleta seletiva, a associação desenvolve um trabalho criativo que transforma resíduos em arte. Por meio da chamada Ecoarte, materiais descartados ganham nova vida nas mãos de artesãs da comunidade. Marcelo resume a proposta: “Coisas maravilhosas surgem da reciclagem. O metal vira filtro dos sonhos, o guarda-chuva que a gente encontra na rua se transforma em pufe. Por que jogar fora? Tudo é arte, tudo se transforma”.

Educação ambiental em Colares a nível internacional

Enquanto países como Alemanha, Coreia do Sul, Áustria, Eslovênia e Japão lideram mundialmente a coleta seletiva e a reciclagem, com taxas superiores a 55% e chegando a mais de 60% dos resíduos urbanos reaproveitados, o Brasil ainda enfrenta entraves históricos. Nessas nações, os bons resultados são fruto da separação rigorosa dos resíduos na fonte — papel, plástico, vidro, metal e orgânicos —, da alta conscientização da população, do uso de tecnologia avançada e de políticas consolidadas de economia circular.

Iniciativa beneficia cerca de 2 mil casas, incluindo a área urbana e a zona rural de Colares (Foto: Eraldo Paulino/Carta Amazônia)

A experiência da Samaúma mostra que esse modelo é possível mesmo em contextos de pouca estrutura. Praticamente sem apoio do poder público, a associação conseguiu educar cerca de 2 mil pessoas para realizar corretamente a separação, limpeza e destinação dos resíduos sólidos, uma responsabilidade que deveria ser compartilhada por toda a sociedade e amplamente fomentada pelo Estado.

Parte desse cenário está relacionada à não efetivação da Política Nacional de Resíduos Sólidos, instituída pela Lei nº 12.305/2010. Apesar de estabelecer diretrizes importantes para a gestão integrada do lixo no país, a política ainda não resultou no empoderamento efetivo de cerca de 2 mil cooperativas e associações de catadoras e catadores de materiais recicláveis. Iniciativas como a da Samaúma evidenciam, ao mesmo tempo, a força da organização popular e a urgência de políticas públicas que reconheçam, valorizem e fortaleçam quem já faz a reciclagem acontecer na prática.

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Foto de capa:  Eraldo Paulino/Carta Amazônia / Modificado por IA via Google Gemini

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