Por Cecília Amorim

Quando vim morar em Belém, aos 9 anos de idade, e isso já faz 31 anos, algumas imagens ficaram gravadas na minha memória. O copo de cerveja luminoso da Cerpa no Entroncamento (entrada da cidade); a forma livre como as mulheres se vestiam, que para a minha família, vinda de uma pequena cidade conservadora, era um escândalo; a primeira festa de aniversário em que me deparei com maniçoba, vatapá e outras comidas típicas da região que devido ao estranhamento me fizeram voltar para casa com fome; e, claro, o Natal chuvoso.

Nasci em Imperatriz, no Maranhão, me criei até os seis anos em uma cidadezinha chamada Axixá de Goiás, (nem sei se aparece nos mapas) e depois fomos para Palmas, a capital do recém-criado estado do Tocantins. Aos nove anos, minha família desembarcou na cidade das mangueiras com a intenção de pegar um navio rumo a Macapá. A viagem nunca aconteceu e aqui ficamos.

Eu estava acostumada a climas “organizados”: tempo de chover, tempo de não chover. A surpresa foi chegar a um lugar onde a chuva fazia parte do cotidiano, quase um compromisso diário.

Na adolescência, eu escutava um programa de rádio chamado Depois da Chuva. Não lembro exatamente o horário, mas sei que passava à tarde, justamente quando, quase sempre, chovia. Eu costumava explicar para as primas que não conheciam Belém que aqui existiam apenas duas estações: o verão, com muito sol e pouca chuva, e o inverno, com muita chuva e pouco sol.

Lembro bem de dezembro. Aos poucos, os dias iam ficando mais cinzentos, as roupas não secavam no varal e a casa se enchia de peças úmidas espalhadas por todos os cantos. A cidade ficava coberta por um manto nublado durante quase todo o dia. Durante os dias chuvosos, a molecada que estava de férias escolares enchia as ruas para tomar banho de chuva nas biqueiras das casas. À noite, ficávamos enroladas em lençol de rede, assistindo a filmes ou novelas na velha televisão preto e branco que depois foi substituída pela TV colorida de tubo.

Durante os dias chuvosos, a molecada lotava as ruas para tomar banho de chuva (Foto: por IA via Google Gemini)

Quanto mais o Natal se aproximava, mais a chuva parecia se intensificar. Na minha família, nunca houve o hábito de ceia ou grandes comemorações natalinas. Já adolescente, com algumas amizades formadas, eu e minha irmã costumávamos visitar casas de amigas na noite de Natal, sombrinha na cabeça e os pés molhados, atrás de algum vestígio da magia natalina. A chuva seguia firme por janeiro adentro.

Nos últimos anos, porém, algo mudou. Tenho observado que o período chuvoso demora cada vez mais a chegar. Foram vários natais sem cair uma gota sequer. No ano passado, tudo indicava que seria assim novamente. Dezembro passou seco, sem sinal do conhecido inverno amazônico. No dia de Natal, choveu a noite toda, mas foi um episódio isolado. Logo depois, o sol voltou a impor toda a sua força sobre Belém. Agora, no final de janeiro, começamos a ver o céu nublado outra vez, o sol se escondendo atrás das nuvens. E isso não acontece por acaso. Há motivos, razões e responsáveis.

Os efeitos da crise climatica

Tenho cada vez menos dúvidas de que a crise climática é sentida primeiro no corpo, nas rotinas e no ritmo da vida muito antes de ser compreendida nos relatórios técnicos. Na Amazônia, queimadas, desmatamento, secas prolongadas e a irregularidade das chuvas não são fenômenos isolados. Fazem parte de um mesmo colapso ambiental que se retroalimenta. Quando a floresta é derrubada ou incendiada, o ciclo das águas é interrompido, os chamados “rios voadores” enfraquecem, o calor se intensifica e o clima entra em desequilíbrio. Os efeitos aparecem rápido: rios mais baixos, temperaturas sufocantes, alimentos mais caros e uma fumaça que, em algumas cidades, invade casas, escolas e hospitais.

Há algum tempo, Antonio Donato Nobre, um pesquisador brasileiro, descobriu que as árvores da floresta funcionam como uma fábrica de umidade. Ele descobriu que o oceano não é o único responsável pelo clima úmido da região. As árvores da floresta transpiram enormes quantidades de água, que sobem para a atmosfera em forma de vapor. Essa massa de vapor é transportada pelos ventos, os famosos rios voadores viajam pela amazônia e chegam a outras regiões do Brasil e até em países vizinhos como Bolívia, Paraguai, Argentina e Uruguai onde se transforma em chuva.

A falta de chuva impacta em vários aspectos da nossa vida pois o é o regime de chuvas que abastece bacias hidrográficas importantes para a agricultura e geração de energia, o que significa risco de apagões e energia mais cara. A destruição da floresta reduz a evapotranspiração, o que enfraquece os rios voadores e altera os padrões de chuva. A derrubada das árvores funciona como um efeito dominó que prejudica a todos. 

Nas cidades amazônicas, sentimos esse impacto todos os dias. O ar fica pesado, crianças e idosos adoecem, bairros inteiros enfrentam falta de água e eventos extremos se tornam cada vez mais frequentes. A crise climática escancara desigualdades antigas: quem vive nas periferias, em áreas alagáveis ou sem infraestrutura, sofre primeiro e sofre mais. Quem vive em regiões isoladas que dependem do ciclo das águas também sofre, vimos ano passado comunidades inteiras isoladas por conta da seca no Amazonas. Não é apenas uma questão ambiental, mas de justiça social, saúde e políticas públicas.

Quando falo da Amazônia, não falo de um território distante ou abstrato. Falo de onde escolhi viver e criar meus filhos. Falo de um território que guarda as minhas memórias. Falo de um sistema vivo que sustenta o equilíbrio climático do país e de certa forma do planeta. 

Ignorar a conexão entre floresta e cidade é insistir em um modelo que já provou ser insustentável. Defender a Amazônia é, antes de tudo, defender quem vive nela e reconhecer que, sem floresta em pé, não há futuro possível, nem para a região, nem para o mundo, nem para a continuidade da vida.

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Foto de capa: Reprodução gerada por IA via Google Gemini

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