Por Ismael Machado

A afirmação de que “ninguém aguenta mais filmes sobre a ditadura” revela menos sobre um suposto esgotamento estético e mais sobre uma posição política clara. Ao reagir aos recentes reconhecimentos de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, uma colunista do UOL — conhecida por uma postura reiteradamente alinhada à direita — não faz uma crítica cinematográfica propriamente dita, mas emite um juízo ideológico: o incômodo com a memória.

Os fatos desmontam rapidamente o argumento do excesso. Reportagem da Folha de São Paulo do último dia 12 de janeiro demonstra que o Brasil produziu menos filmes sobre sua ditadura militar do que Chile e Argentina, países que enfrentaram seus regimes autoritários por meio de políticas públicas de memória, justiça e cultura muito mais consistentes. Portanto, não há saturação do tema — há, ao contrário, um déficit histórico de elaboração.

Nesse sentido, é revelador que justamente Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto tenham se tornado alvos indiretos (nem tanto). Ambos os filmes recusam o tom didático ou panfletário que seus críticos costumam caricaturar. O filme de Walter Salles parte da experiência íntima, familiar, do luto e da ausência, mostrando como a violência da ditadura atravessa a vida cotidiana e deixa marcas silenciosas, persistentes. Já o projeto de Kleber Mendonça Filho carrega a assinatura de um cinema que tensiona poder, vigilância e paranoia política — temas que dialogam diretamente com o autoritarismo estrutural brasileiro.

O incômodo, portanto, não está na repetição, mas na persistência. Persistir em falar da ditadura significa contrariar uma narrativa confortável que tenta enquadrar o período como um “excesso do passado”, um erro pontual já superado. Isso quando não se torna algo negado ou exaltado. O Brasil, diferentemente de seus vizinhos latino-americanos, nunca julgou seus torturadores, sendo que alguns foram tratados como heróis num passado bem recente. O país nunca rompeu de forma clara com as estruturas de poder herdadas do regime militar. O cinema acabou se tornando um dos poucos espaços capazes de disputar essa memória. Para ser justo, a arte de forma geral (peças teatrais e livros também dedicaram, para dar um exemplo rápido, do tema, ainda que não de forma suficiente, como um todo).

Quando se afirma que “com três prêmios” para filmes sobre a ditadura já devemos partir para outros temas, insinua-se que a arte deveria obedecer a uma espécie de cota moral de sofrimento já devidamente cumprida. Trata-se de um argumento perverso. A memória não funciona por esgotamento. Nenhuma sociedade madura decreta o fim de seus traumas por saturação midiática. Ao contrário: quanto mais frágeis são as políticas públicas de memória, maior é o papel da cultura na preservação do debate.

O argumento do cansaço, além disso, é seletivo. Nunca se diz “chega de filmes sobre o Holocausto” ou “chega de filmes sobre a guerra do Vietnã ou mesmo a Segunda Guerra Mundial”. Esses temas são entendidos como fundantes, inescapáveis, permanentemente revisitados porque dizem respeito à formação ética das sociedades. No Brasil, porém, falar da ditadura ainda é visto por setores conservadores como um incômodo ideológico, e não como um dever histórico.

Essa resistência ajuda a explicar por que figuras públicas ainda relativizam a tortura, elogiam agentes da repressão e tratam os direitos humanos como obstáculo. Onde a memória falha, o autoritarismo encontra terreno fértil. Que o digam nossos congressistas soluçando ‘anistia’ a quem sim planejou derrubar o sempre claudicante sistema democrático brasileiro.

Dizer “chega de filmes sobre a ditadura” não é uma opinião inocente sobre cinema. É uma tomada de posição na disputa sobre o passado e, consequentemente, sobre o presente. O ataque sutil a “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” apenas reforça o quanto esses filmes são necessários. Se ainda provocam desconforto, é porque o Brasil ainda não resolveu aquilo que insiste em esquecer. Alguém chegou a dizer ‘ninguém aguenta mais’. Cabe a pergunta: quem é esse ninguém? De minha parte – e creio que de uma ampla parcela da sociedade- o que se quer é mais filmes que retratem nossos percalços e nossa trajetória.

Onde estão os filmes sobre a história da Guerrilha do Araguaia? Onde estão os filmes sobre o massacre feito aos indígenas durante a ditadura? Quem irá contar uma história sobre as mazelas da construção da Transamazônica? Que tenhamos mais e mais e mais. E que os filhotes da ditadura, como bem falava Leonel Brizola (podemos falar em netos?) apenas continuem babando bovinamente sua miséria intelectual.

Ismael Machado é cineasta, escritor e jornalista.

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Foto de capa:  Divulgação/Victor Jucá

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