OPINIÃO
Por Rosiene Carvalho
Completa-se hoje cinco anos do primeiro colapso que levou centenas de pessoas à morte nos hospitais de Manaus por falta de oxigênio, seguido pelo segundo colapso das unidades de saúde, em plena pandemia de Covid-19. A maior crise sanitária do século teve como epicentro Manaus.
O Ministério Público Federal (MPF) no Amazonas afirma agora que as ações criminais caíram — mas não menciona as falhas apontadas pela Justiça em suas próprias iniciativas, como a ausência de provas e problemas técnicos do Direito que não atenderam às exigências da Justiça brasileira. Tampouco aborda as falhas nas investigações. O MPF diz que, a partir de agora, o foco será a indenização das vítimas — vítimas que, até hoje, a instituição não foi capaz de identificar sequer numericamente.
Não há novidade. A novidade, se é possível chegar a alguma por interpretação, está em dois pontos: um esforço de reparação de imagem do MPF e as consequências, com ou sem intenção explícita.
Uma dessas consequências é eleitoral. Este é um ano que a população vai às urnas e nele figuram personagens centrais do episódio do terror sem reparo até hoje. O senador e pré-candidato ao Governo do Amazonas Omar Aziz (PSD) atuou como investigador e presidente da CPI da Covid-19. Ele teve, enquanto investigação, um papel mais consistente do que o desempenhado pelo MPE-AM (Ministério Público do Estado do Amazonas) e pelo MPF. O senador e candidato à reeleição, Eduardo Braga (MDB), membro da CPI, teve e tem nessa pauta uma artilharia política contra seu eventual opositor neste pleito, o governador e pré-candidato ao Senado Wilson Lima (União Brasil) — outro ator central, que figura como réu e é apontado como um dos responsáveis pelo colapso do sistema de saúde e pela consequente morte de pessoas.
Por outro lado, do ponto de vista criminal, a coletiva é positiva para Wilson Lima, pois o próprio MPF afirma que há ações arquivadas e que, daqui para frente, o foco será nas ações de indenização das vítimas — vítimas que, repita-se, não foram sequer identificadas.
É difícil acreditar que, até hoje, ninguém tenha sido capaz de levantar os nomes dos corpos que saíram dos hospitais e das casas — por falta de leitos — e foram enterrados naquele período. Nem mesmo em números as investigações conseguiram identificar as vítimas.
Penso que há responsabilidades que recaem diretamente sobre gestores, mas há também responsabilidades coletivas, como sociedade e como instituições que falharam no passado e deixaram consequências para o presente e o futuro. Se não temos direito sequer à memória recente do dano que sofremos — das vidas perdidas e dos que amamos —, se há impunidade e falta de informação que levam uma sociedade a conceder expressiva aprovação aos seus algozes, isso também é resultado da forma como atuaram o MPF e o MPE no Amazonas.

Rosiene Carvalho é jornalista amazonense e apresentadora do Exclusiva, programa de rádio da Band News- Difusora 93,7 FM, de Manaus.
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Foto de capa: Altemar Alcantara / SECOM/Prefeitura de Manaus
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