Belém recebe mostra internacional de cinema dedicada à produção independente e experimental. Programação ocorre nos dias 13 e 14 de março, no Sesc Ver-o-Peso, com entrada gratuita.
Por Cecília Amorim
Nos dias 13 e 14 de março, a cidade de Belém será palco de uma nova experiência cinematográfica que propõe romper fronteiras estéticas, políticas e geográficas. A MAIRI – Mostra Internacional de Cinema Transbordante nasce na Amazônia com a proposta de reunir filmes que desafiam as estruturas convencionais do cinema e experimentam novas formas de narrar e perceber o mundo.
A mostra, com entrada gratuita, acontecerá no SESC Ver-o-Peso, durante o período que coincide com o chamado inverno amazônico, quando as chuvas intensas e as “águas grandes” transformam a paisagem da região. Inspirada nesse movimento das águas que ultrapassam margens e limites, a MAIRI utiliza a ideia de transbordamento como metáfora para pensar o cinema como espaço de deslocamento, experimentação e criação coletiva.
Mais do que um evento de exibição audiovisual, o festival propõe um encontro entre arte, corpo e território, convidando o público a repensar o presente e imaginar novos futuros a partir da Amazônia.
Dedicada ao cinema independente e experimental, a MAIRI reúne curtas, médias e longas-metragens de temática livre. A proposta central é acolher produções que rompam com narrativas lineares ou modelos tradicionais de produção audiovisual, abrindo espaço para linguagens que dialoguem com sensibilidade, crítica social e imaginação política.
Segundo a idealizadora e produtora da mostra, Xan Marçall, o festival nasce de um processo de reflexão que atravessa sua trajetória artística e acadêmica.
“A MAIRI nasce de alguns desejos que se confluem em minha trajetória como artista, educadora e pesquisadora amazônida. Tenho me interessado em contar esse outro lado da história não oficial, subalternizada, que transborda os padrões oficiais de narrativa e de recorte da realidade”, afirma.
Atriz, escritora, professora de teatro e realizadora de cinema, Marçall também desenvolve pesquisas no campo da antropologia. Parte de sua investigação acompanha os recentes movimentos de retomada de consciência indígena urbana em Belém, tema que influencia diretamente a concepção da mostra.
Curadoria amazônica e protagonismo feminino
Um dos pilares da MAIRI é sua curadoria formada por mulheres da Amazônia, responsáveis por selecionar obras que dialoguem com o espírito experimental da mostra e abordem temas como território, memória, ecologia e dissidências.
A equipe curatorial reúne a cineasta e educadora popular Geo Abreu, a atriz e produtora cultural Marcione Pará e Rayo Machado, publicitária e roteirista. Para Marçall, essa escolha é também uma tomada de posição política diante das desigualdades históricas que marcam a produção cultural no país.
“Vivemos há séculos um extrativismo dos nossos imaginários. Os menores recursos orçamentários no campo das artes e do cinema estão na região Norte, menos de 8% de todo o território nacional. Muitas vezes produções de fora dizem como devemos fazer cinema e insinuam que não estamos preparados. Isso é uma violência simbólica”.
Apesar dessas barreiras, ela destaca que mulheres amazônidas vêm ampliando sua presença na criação audiovisual e na formação de novos profissionais.
“Mulheres da Amazônia têm produzido intensamente no campo do audiovisual, na formação em cinema e na curadoria. Temos pensado o mundo a partir de um ponto de vista muito particular e, ao mesmo tempo, coletivo”.
O próprio nome da mostra carrega um significado simbólico. “Mairi” remete a um território ancestral — real ou fabulativo — soterrado pelos processos coloniais, evocando outras formas de imaginar o mundo e de compreender a relação entre humanidade e natureza.
Nesse sentido, o festival se insere em debates contemporâneos sobre decolonialidade, memória e ecologia, propondo um cinema que não apenas represente a Amazônia, mas que dialogue com suas cosmologias e modos de vida.
Para Marçall, a criação da mostra também nasce de uma experiência pessoal de deslocamento e conexão com outros contextos culturais.
“Ser uma pessoa da Amazônia que teve que transpor os limites da cidade para dialogar com diferentes pessoas do Brasil e do mundo é um dos principais motivadores da MAIRI. A ideia é tentar conectar o mundo a partir de Belém, pelo cinema, por meio da arte, da estética e da poesia”.
Além das exibições, a programação da mostra inclui atividades formativas e encontros entre realizadores e público, ampliando o debate sobre linguagem cinematográfica e produção independente.
A proposta é fortalecer a formação de espectadores e estimular a circulação de obras que muitas vezes encontram dificuldades para chegar às salas comerciais.
Nesse sentido, a MAIRI busca também afirmar Belém como um território de confluência artística e política, capaz de dialogar com produções globais sem abrir mão de sua perspectiva territorial.
A criação da mostra acontece em um momento de crescente atenção internacional sobre a Amazônia, tanto pelos conflitos socioambientais quanto pela força cultural da região.
Iniciativas como a MAIRI contribuem para deslocar o olhar tradicional sobre o território, frequentemente construído a partir de narrativas externas. Ao privilegiar linguagens experimentais e perspectivas amazônicas, o festival reforça a ideia de que a região não é apenas objeto de representação, mas também produtora de pensamento, arte e imaginação política.
Marçall compara esse processo à própria dinâmica da floresta.
“Encontramos maneiras de comunicar o mundo a partir do local. É como uma floresta que nasce no quintal de casa e se expande em diálogo interessado com o Brasil e com o mundo”.
Com essa proposta, a MAIRI convida realizadores e espectadores a participar de um movimento de transbordamento, ultrapassando fronteiras entre arte e política, local e global, memória e futuro.
Mais informações sobre a mostra e sua programação podem ser acompanhadas no perfil oficial no Instagram: https://www.instagram.com/mairicinematransbordante/
Serviço
MAIRI – Mostra Internacional de Cinema Transbordante
Programação: 13 e 14 de março –
13 de março (sexta-feira) – exibições das 15h às 21h;
14 de março (sábado) – exibições das 15h às 18h30.
Local: Sesc Ver-o-Peso – Boulevard Castilhos França, 522/523, Campina, Belém.
Entrada gratuita
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Foto de capa: Filme Crónica de una Desdicha Hereditaria/ Divulgação
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