Saúde reprodutiva, ancestralidade e resistência das mulheres indígenas na Amazônia diante das crises climática e institucional antes e depois da Conferência Mundial do Clima, em Belém

Por Rudja Santos

A floresta tornou-se um território onde o tempo perdeu a precisão. Depois da COP30, realizada em 2025 — que, por semanas, movimentou Belém e colocou a Amazônia sob os holofotes do mundo —, o cotidiano dos povos indígenas continua marcado por mudanças que não entraram nos discursos oficiais. Se, na COP, a crise climática foi tema de painéis, negociações e promessas, nas aldeias o tema é mais visceral e assume a forma de corpos que adoecem junto com o território.

Os relatos das mulheres indígenas da Amazônia — do Putumayo colombiano ao norte do Brasil — revelam realidades semelhantes: as mudanças climáticas já estão interferindo de maneira profunda nas trajetórias de gestação, no cotidiano de trabalho e na saúde mental e física. Não são previsões; são rotinas. Não são riscos futuros; são feridas presentes.

Contexto institucional e impactos amplos

Segundo Marinete Tukano, coordenadora-geral da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB) — articulação que reúne lideranças femininas de diferentes povos da Amazônia Legal —, “os principais impactos das mudanças climáticas na saúde das mulheres indígenas estão relacionados à saúde mental, à soberania alimentar, às colheitas, à economia familiar, à violência, entre outros fatores”. Ela aponta ainda que a malária, a desnutrição, o aumento do risco de suicídio e o câncer têm crescido nas comunidades em decorrência do colapso climático.

Organizações como a Amazon Conservation Team (ACT), que atua há três décadas na defesa dos direitos territoriais e sociais das comunidades, também observam de perto essas transformações. A ACT desenvolve ações específicas voltadas à saúde da mulher indígena, oferecendo apoio durante a gestação, o parto, o pós-parto e no acompanhamento da saúde mental e física, além de fortalecer redes de cuidado que respeitam os saberes tradicionais. Seu trabalho demonstra que, para além das estatísticas e dos compromissos internacionais, existem vidas que carregam, no corpo, os efeitos das mudanças climáticas e da degradação ambiental.

Os impactos e as consequências de um clima adoecido

“Hoje, tudo mudou com o clima. Antes, sabíamos quando plantar, quando mover, quando parir. Agora, nada avisa”, relata Sineida Viveros Garreta, especialista e transformadora de plantas do povo indígena Inga, de Putumayo, na Colômbia. Dialogando com o relato de Sineida, Sandra Patiño Londoño, antropóloga e coordenadora da linha Comunidades y Bosques: Una Sola Salud da ACT-Colômbia, afirma haver um “desequilíbrio do território” que repercute no corpo, na mente e nas emoções. “Quando elas dizem que ‘nada avisa’, é porque os calendários ecológicos e de saúde estão desarmonizados, não são precisos como no passado. E isso desorganiza toda a lógica do cuidado”. Para a antropóloga, essa compreensão é central para entender a crise climática.

A ideia de que o território perdeu o ritmo aparece também nas falas de Olga Macuxi, liderança indígena de Roraima. Ela descreve plantas que “não nascem mais no mês certo”, raízes que “queimam” e remédios que “demoram mais para fortalecer”. Durante o encontro Vozes que defendem a floresta: gênero, juventude e resistência indígena na Amazônia, evento paralelo à COP30 em Belém, ela empunhava pomadas, cicatrizantes e xaropes feitos com plantas da floresta. “Esse xarope de cupim aqui salvou a gente no tempo da Covid”, disse, segurando o frasco como quem segura uma memória coletiva de sobrevivência. “Nós precisamos preservar, porque a medicina da natureza está mudando. E isso mexe com tudo: com o corpo, com o espírito e com o trabalho das mulheres”.

Olga Macuxi, liderança indígena de Roraima (Foto: Rudja Santos/Carta Amazônia)

As transformações ambientais também chegam ao cotidiano do trabalho, aumentando o peso das tarefas das mulheres. São elas que caminham distâncias maiores para buscar água quando os rios baixam; são elas que passam mais horas no campo, observando as mudanças no território, experimentando com a terra e buscando maneiras de tornar as plantas mais resistentes à seca e às inundações; são elas que cuidam dos doentes quando a malária e a dengue avançam para regiões onde antes as condições climáticas não permitiam sua transmissão, intensificando ainda mais a carga de trabalho e de cuidado com os outros.

Sandra relata que, em uma comunidade que visita com frequência, uma mulher lhe contou que hoje precisa caminhar mais horas por dia do que no passado. “Não é só o esforço físico: é a carga emocional de saber que aquilo que ela fazia com tranquilidade agora virou uma corrida contra o tempo”.

E é na saúde mental das mulheres indígenas que a crise climática produz efeitos invisíveis. Patiño fala do que chama de “perda do norte”. “O território era bússola, calendário e segurança. Quando ele muda de comportamento, as mulheres sentem que o mundo está desalinhado. Isso gera ansiedade, tristeza e sensação de impotência”, explica.

Sandra Patiño em trabalho com os indígenas (Foto: Acervo Pessoal/ Sandra Patiño)

Algumas mulheres se emocionam ao falar sobre isso, não porque expressem sofrimento abertamente — muitas culturas não o fazem —, mas porque as mudanças climáticas perturbam aquilo que sustentava a vida cotidiana. “Quando o rio adoece, a gente adoece junto”, sintetiza Olga.

Essas alterações no ritmo da floresta, no aumento das cargas de trabalho e na saúde mental também interferem na saúde reprodutiva e na cura física das mulheres. Segundo Lirian Ribeiro Monteiro, ponto focal de Medicinas e Mulheres Indígenas da ACT-Brasil, “o aumento da temperatura está associado ao risco de partos prematuros; a contaminação dos rios agrava problemas gastrointestinais e de pele; o ar seco intensifica crises respiratórias; e o desmatamento ameaça plantas essenciais à prevenção e à cura de doenças. Tudo isso incide primeiro sobre as mulheres e sobre as gestantes”.

Sandra descreve cenário semelhante na Colômbia. Em Putumayo, chuvas imprevisíveis destroem roças inteiras; o calor prolongado queima sementes; o assoreamento dos rios prejudica a pesca. “E, quando não há alimento suficiente, isso se traduz em gestantes que não conseguem manter energia para um parto saudável”.

Em algumas comunidades, as mulheres chegam às consultas com tonturas, fraqueza e dores de cabeça. “Elas dizem: ‘comi pouco para que meus filhos almoçassem’ — e essa é uma frase que nos atravessa, porque mostra o quanto a crise climática adentrou as casas. A insegurança alimentar é um dos efeitos mais diretos da mudança climática. E, quando a comida é pouca, quem se sacrifica primeiro é a mãe”, explica Sandra.

Participantes do Encontro “Vozes que defendem a floresta_ gênero, juventude e resistência indígena na Amazônia”, realizado na Embaixa dos Povos, durante a COP30, em Belém. (Foto: Rudja Santos/Carta Amazônia)

Além da crise climática, a crise institucional

Além dos impactos do clima, as mulheres indígenas enfrentam uma crise que atravessa instituições, serviços e saberes. “O corpo da mulher indígena é pressionado por múltiplas frentes: clima, trabalho, escassez de alimentos, saúde que não chega e cultura desrespeitada nos hospitais”, sintetiza Sandra.

Relatos revelam um quadro preocupante de violências obstétricas e institucionais. Segundo Lirian, “o sistema oficial de saúde não está preparado para atender mulheres indígenas. Falta intérprete, falta respeito aos rituais e falta compreensão de que o parto não é apenas um procedimento biomédico”.

Ela cita episódios em que mulheres são levadas ao hospital contra sua vontade, obrigadas a assinar termos de responsabilidade, proibidas de ter suas parteiras ao lado e impedidas de se alimentar de acordo com suas tradições, especialmente durante o resguardo — período em que alimentação, temperatura corporal e presença da família têm papel central. “Em alguns hospitais, nem mesmo o pai da criança pode cumprir a couvade, o resguardo masculino. Ele também precisa de alimentação diferenciada, mas isso não é reconhecido. A cultura é vista como problema”, explica Lirian.

Sandra menciona que, na Colômbia, ainda há mulheres indígenas sendo examinadas por médicos sem o devido consentimento, o que gera um fardo adicional para a gestante, já que, culturalmente, isso é malvisto. “Para muitas culturas, isso é um choque profundo. Não é apenas incômodo; é violência simbólica. É trauma”. Ela lembra o relato de uma parteira sobre uma paciente que, anos atrás, chorou porque lhe foi proibido entrar no hospital com ela. “A mulher disse: ‘Se ela não entrar, meu espírito fica fraco’. Era um pedido simples, mas não foi atendido”.

A presença das parteiras permeia todas as entrevistas. Para as mulheres indígenas, essa mestra do nascimento é mais do que uma profissional: é protetora, guardiã espiritual, ponte entre mundos. “Elas conhecem o território, reconhecem sinais de risco que não aparecem em exames, acompanham quando o hospital está longe, conduzem rezas, cantos, banhos e massagens. São elas que acalmam, traduzem e seguram a mão da gestante”, explica Sandra.

Lirian completa: “Sem as parteiras, o sistema oficial de saúde não alcança as mulheres indígenas”. Em muitos hospitais brasileiros, elas aguardam do lado de fora da porta, mesmo quando a gestante suplica por sua presença. “Isso é uma violência construída por um racismo institucional que desvaloriza os saberes ancestrais”, afirma.

Além das violências sofridas no momento do parto, as mulheres indígenas também enfrentam violações de direitos nos atendimentos clínicos gerais. Mônica Guajajara, do povo Guajajara, do Maranhão, denuncia que, nos atendimentos de média e alta complexidade, as violências são graves, pois não há adaptação às suas culturas.

“A gente tem uma saúde diferenciada na atenção básica, mas, quando chega à média e à alta complexidade, essa diferenciação não existe. É aí que morrem as nossas parentas — seja pela espera, pela demora ou pela falta de acolhimento”. Ela cita casos de mulheres com câncer que morreram aguardando atendimento. “Não tem intérprete, não tem acompanhante, não tem respeito. As mulheres ficam sozinhas”, denuncia.

Soluções, caminhos e futuros

Diante dos desafios impostos pelo clima e pelas estruturas institucionais, mulheres indígenas, comunidades, movimentos, articulações e organizações parceiras constroem caminhos possíveis para fortalecer a saúde, a ancestralidade e a resistência das mulheres na Amazônia.

Como exemplo concreto, Lirian cita ações desenvolvidas pela ACT em parceria com as mulheres indígenas, incluindo o fortalecimento de articulações, como a UMIAB; oficinas formativas para a consolidação de saberes; e o apoio ao protagonismo das mulheres em espaços e atos políticos, como o Acampamento Terra Livre (ATL), com vistas à incidência sobre a saúde de seus corpos e territórios. “Isso fortalece a autonomia. É cuidado que nasce de dentro”, afirma.

Marinete, da UMIAB, ressalta a importância do protagonismo das organizações de mulheres indígenas diante da crise: “Na conjuntura atual, estamos buscando fortalecer as organizações regionais da Amazônia Legal para que possamos traçar estratégias em conjunto, buscar parcerias e estar presentes em espaços de decisão e de discussão climática”.

A liderança indígena também aponta que as soluções passam pelo fortalecimento das múltiplas dimensões que permeiam o cotidiano das mulheres: “Trabalhar a socioeconomia, a bioeconomia e programas de atenção contínua à saúde da mulher é fundamental para protegê-las frente às mudanças climáticas”. Além disso, destaca que a UMIAB pretende desenvolver projetos voltados à saúde da mulher, ressaltando que “a cultura e a história dos povos indígenas influenciam a forma como lidam com os efeitos do clima sobre a saúde, sobretudo por meio do manejo sustentável e do uso das medicinas tradicionais”.

No campo da proteção da saúde das mulheres indígenas nos espaços institucionais, Sandra cita os protocolos interculturais construídos na Colômbia, as rotas compartilhadas com hospitais, os espaços de decisão conjunta e a tradução do consentimento informado para línguas indígenas. Ressalta, ainda, que esses protocolos precisam reconhecer efetivamente a atuação das parteiras, e não apenas tolerá-la.

No Hospital Fronterizo La Dorada, Sandra testemunhou mudanças concretas: “As parteiras podem entrar, cantar, usar plantas, tocar na gestante. Elas são acolhidas, não apenas permitidas”. Trata-se de uma experiência ainda rara, mas que aponta caminhos possíveis para a construção de políticas de saúde interculturais e efetivas.

Marinete, Sandra e Lirian reforçam que qualquer política que se proponha a responder à crise climática precisa incluir as mulheres indígenas como protagonistas, e não apenas como beneficiárias.

Sabedorias, aprendizados, sentidos e curas

Lirian comenta ter aprendido com as parteiras que “o corpo é terra viva”, um território capaz de sentir, registrar e responder às mudanças do mundo ao redor. Já Sandra compartilha a compreensão do cuidado como resistência — um ato cotidiano que desafia um sistema de saúde alheio aos saberes ancestrais e que subestima culturas inteiras.

Olga lembra que as transformações climáticas não são apenas números ou previsões: são sinais sentidos na água, no ar, na terra e nos corpos das mulheres que nela vivem. “A floresta fala e, quando ela muda de tom, a gente precisa escutar”, afirma.

O que ecoa na fala de todas é uma ideia central: as mulheres indígenas carregam o clima no corpo. Carregam a mudança na pele, no pulmão, na barriga, na roça, nas mãos que plantam, nas costas que transportam água, nos pés que percorrem longas distâncias, na voz que insiste em ensinar as mais jovens a reconhecer a medicina ancestral, mesmo quando a planta falta.

A saúde da mulher indígena é o ponto onde se cruzam múltiplas crises: ambiental, sanitária, social, espiritual e emocional. E, se algo ficou claro após a COP30, é que nenhuma política climática faz sentido se ignorar essa geopolítica do cuidado. Depois dos discursos sobre a Amazônia como centro do mundo climático, permanece o que sempre esteve aqui: mulheres que sustentam a vida mesmo quando o clima desmorona, carregando o futuro no ventre e na memória.

Apesar das violências médicas, institucionais e ambientais, elas seguem vivendo segundo o calendário da floresta, mesmo quando a floresta já não consegue avisar a hora das coisas. Cada gesto de cuidado, cada reza, cada toque e cada presença das parteiras constituem resistência — um elo que mantém viva a conexão entre corpo, espírito e território. É nesse espaço de sabedoria e persistência que se revela a força silenciosa, porém inquebrável, das mulheres indígenas da Amazônia.

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Reportagem produzida em parceria com a organização Amazon Conservation Team – ACT Brasil.

Foto de capa:  Méle Dornelas/Acervo ACT-Brasil

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