Levantamento realizado pela Secretaria de Comunicação da Presidência da República mapeou 226 iniciativas em todo o Brasil. Desse total, apenas 6,1%  estão localizadas na região Norte, segundo análise exclusiva da Agência Carta Amazônia. 


Por Antônio Laranjeira

O lançamento oficial do Mapa Brasileiro da Educação Midiática, em fevereiro deste ano, consolidou pela primeira vez um panorama nacional das iniciativas voltadas ao desenvolvimento de competências midiáticas e informacionais no país.

Produzido a partir de um mapeamento iniciado em 2024, o projeto foi coordenado pela Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República em parceria com a Agência Porvir, com apoio da Unesco e da Embaixada do Reino Unido.

Segundo a Secom, o processo começou com uma chamada pública nacional para identificar iniciativas já existentes em diferentes territórios e setores, entre 2024 e 2026. Foram registradas, até o momento, 496 inscrições desde o começo do projeto e, após uma etapa de curadoria técnica e organização das informações, 226 iniciativas passaram a compor o mapa.

Mas como está a região Norte nesse mapa do Brasil? Como podemos medir a desigualdade na educação midiática na região?

Pensando em responder essas questões para quem é da Amazônia, realizamos uma análise exclusiva desse levantamento elaborado pelo governo federal em consulta à sociedade civil.

O que chamamos de desigualdade regional da educação midiática

Vale explicar antes como fizemos essa reportagem com dados: para medir a desigualdade da presença de iniciativas de educação midiática (como um índice) frente ao avanço da desinformação, esse artigo considera como critério não somente o tamanho da população (variável estatística), mas a dimensão da área por  essas narrativas circulam (variável geográfica).

Por isso, quando se trata de comparar as estatísticas das iniciativas de educação midiática entre regiões do Brasil, apenas o número de habitantes de cada região pode distorcer a análise, especialmente em regiões extensas, sub-representadas na mídia hegemônica e com menor número de habitantes, que é o caso da região Norte.

Consideramos que o fenômeno tem impacto direto sobre áreas geográficas específicas, a proporção também precisa considerar o tamanho dessas áreas para sermos justos.

Esse é um esclarecimento sobre a coerência metodológica da nossa avaliação: se o problema é social e territorial, a métrica também deve ser interdisciplinar, ou seja, aqui lançamos um olhar geográfico e estatístico (geoestatístico) sobre a educação midiática no Norte do Brasil.

Afinal, a desinformação não atinge somente pessoas; ela incide sobre lugares e paisagens sub-representadas de modo midiático do Brasil, do ponto de vista geográfico, como: terras indígenas, áreas de floresta, zonas de garimpo, corredores logísticos, periferias urbanas e ribeirinhas.

Formação sobre produção audiovisual realizada pelo Centro Popular de Comunicação e Audiovisual, em Manaus (Divulgação/ CPA)

Sudeste concentra 51,3% das iniciativas de educação midiática 

Dos 228 pontos georreferenciados no mapa interativo, o Sudeste concentra 117 iniciativas, o equivalente a 51,3% do total nacional. O Sul aparece com 44 registros, o Nordeste com 31 e o Centro-Oeste com 23. A região Norte registra apenas 14 iniciativas, representando 6,1% do total autodeclarado, quantidade proporcionalmente menor do que o percentual da população que ocupa esse território, que é de 8,5% de habitantes do Brasil. Em termos comparativos, o Sudeste possui nove vezes mais iniciativas que o Norte.

A desigualdade se acentua quando observada na escala municipal, revelando uma concentração urbana profunda. São Paulo lidera com 43 iniciativas, o que representa quase 19% de todo o mapa nacional. O Rio de Janeiro aparece com 29 registros, seguido por Brasília com 13, Florianópolis com 11 e Porto Alegre com 10. 

Sozinha, a cidade de São Paulo concentra mais de três vezes o total de toda a Região Norte. Esse padrão revela uma dependência de polos universitários e centros de pesquisa, o que é coerente com outro dado do levantamento metodológico, indicando que 97 das 228 iniciativas mapeadas são vinculadas a universidades, representando 42,9% do total.

O projeto organizou as iniciativas também por tipo de instituição responsável, listando 97 universidades, 58 organizações da sociedade civil, 35 órgãos governamentais, 31 escolas e 14 veículos de mídia. O predomínio universitário ajuda a explicar a concentração em capitais e cidades com grande infraestrutura acadêmica.

Conforme o mapa, o levantamento do governo federal classificou as ações principalmente como focadas em cidadania digital (roxo), produção midiática (verde-escuro), análise crítica (vermelho) e conscientização (azul-escuro). Os dados indicam que a educação midiática no Brasil tem sido estruturada majoritariamente como formação em competências digitais e cidadania, em detrimento de iniciativas específicas de verificação de fatos. Veja mais no mapa a seguir.

A região Norte no mapa (e também fora dele)

No recorte regional, a distribuição dentro do Norte mostra o Pará com quatro iniciativas, seguido por Amazonas e Rondônia com três cada, Roraima com duas e Tocantins com uma. Dois estados da região, Acre e Amapá, não registraram nenhuma iniciativa no mapa final. O Pará lidera regionalmente, mas ainda assim permanece distante das capitais do Sudeste e do Sul e com um número total inferior ao de cidades médias de outras regiões brasileiras.

Os dados apresentados pelo mapa revelam um paradoxo fundamental: a distribuição das iniciativas mostra concentração onde já existem maior infraestrutura acadêmica e institucional. A região Norte, que enfrenta desafios históricos de conectividade desigual, vastidão territorial e circulação intensa de informação por aplicativos de mensagem, aparece sub-representada no mapa.

Destacamos os dados da região Norte em pontos vermelhos no mapa e em azul para outras regiões do Brasil, para fins de comparação da desigualdade regional da educação midiática. Veja mais no mapa a seguir.

Atualização do mapa: saiba como participar

É importante observar que, segundo a metodologia oficial, o mapa não é um programa de financiamento nem um ranking de desempenho, refletindo as inscrições voluntárias e a capacidade de articulação local. Ainda assim, os dados permitem uma interpretação de que a institucionalização da educação midiática no Brasil acompanha a desigualdade histórica de infraestrutura educacional.

Oficina sobre desinformação e checagem de notícias falsas, realizada pela Escola Carta Amazônia de Jornalismo, na Escola Estadual José Veríssimo,
em Belém. (Foto: Adison Ferreira/Carta Amazônia)

O principal motivo de exclusão identificado até o momento refere-se ao envio de informações incompletas ou inconsistentes nas inscrições. De acordo com a Secom, “a metodologia utilizada no processo está sendo sistematizada para divulgação pública, no site do mapa, de modo a garantir transparência sobre os critérios adotados”.

Porém, a ausência de organizações como a Escola Carta Amazônia, de Belém (PA), o coletivo Tetepawa Comunica, de Cruzeiro do Sul (AC) e Centro Popular de Comunicação e Audiovisual (CPA) e a Escola Abaré, de Manaus (AM), que desenvolvem projetos de educação midiática na Região Norte são indícios de que esse primeiro conjunto de dados ainda não tem atingido a sociedade civil organizada em cidades e certamente ainda precisa escutar ativamente mais populações.

Participantes da oficina sobre a Lei de Acesso à Informação, proteção e segurança, e meio ambiente, promovida pela Abaré Escola de Jornalismo, em Manaus (Foto: Divulgação /Abaré Escola)

Procurada pela Carta Amazônia, a Coordenação Geral de Educação Midiática, da Secom, informou que pretende ampliar a divulgação do mapeamento para que novas iniciativas sejam inseridas no levantamento do Governo Federal. 

 “Reconhecemos que iniciativas dessa natureza podem não alcançar todos os públicos em um primeiro momento. Após o encerramento das candidaturas, a principal ação prevista será a divulgação ampla do Mapa, dando visibilidade às experiências mapeadas em todo o país. Além disso, está prevista a realização da 4ª edição da Semana Brasileira de Educação Midiática (SBEM), em outubro de 2026, que dará destaque às iniciativas participantes do mapa e promoverá o intercâmbio de experiências em âmbito nacional”, comentou Thais Brito, Coordenadora Geral de Educação Midiática, da Secom da Presidência.

O prazo para as inscrições no mapa brasileiro da educação midiática segue até o próximo dia 16 de março. As submissões para fazer parte do mapa podem ser feitas online pelo formulário. O preenchimento leva, em média, 15 minutos. Confira aqui.

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Foto de capa:  Antonio Laranjeira/ Reprodução Carta Maps

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