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Guia alimentar mapeia a culinária ancestral da Amazônia 

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Guia alimentar mapeia a culinária ancestral da Amazônia 

Livro, produzido pelo laboratório Énois, debate clima, periferia e ancestralidade a partir da culinária tradicional da região amazônica

Da Redação

A nova edição do projeto “Prato Firmeza” coloca a culinária da Amazônia e os saberes tradicionais da floresta no centro dos debates da agenda climática. Lançado durante a COP30, em Belém, o Guia Prato Firmeza Amazônia – raízes da culinária tradicional brasileira, revela com base em histórias reais de empreendimentos populares, aldeias indígenas, comunidades quilombolas e cozinheiras da Amazônia, como a comida se tornou ferramenta de resistência, memória e enfrentamento à mudanças do clima.

O livro é uma publicação da Énois, um laboratório de comunicação que apoia coletivos nascentes das periferias para fortalecer o bem viver por meio da informação comunitária.

O guia mostra o quanto a crise climática afeta diretamente a produção de alimentos e o acesso à comida. “Não é possível falar em justiça climática ignorando quem planta, pesca, colhe e cozinha. Garantir justiça alimentar significa questionar modos de produção devastadores e reconhecer e alorizar os saberes e modos de produção tradicionais, assegurando acesso digno e sustentável à alimentação, protegendo territórios que sustentam a vida”, destaca a nota de apresentação do livro.

Entre os principais temas abordado na publicação estão a culinária indígena e quilombola como solução climática; os impactos da crise climática em restaurantes periféricos; e a relação alimentação e COP30.  O guia ressalta a importância do alimento ancestral e típico da Amazônia, que há séculos garante equilíbrio entre natureza, cultura e sobrevivência.

“O Prato Firmeza nasceu valorizando a comida feita por produtores locais – o cachorro-quente, o hambúrguer e as comidas de rua. Hoje, ele ocupa um lugar que discute direito à alimentação, soberania alimentar e cultura alimentar”, explica Amanda Rahra, fundadora e diretora de operações da Énois.

Açai com farinha e camarão é uma das comidas mais tradicionais do Pará (Foto: Leonardo Santos/Énois)

Segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG), 75% das emissões brasileiras vêm de sistemas alimentares predatórios. Em contrapartida, o guia evidencia que povos indígenas, comunidades quilombolas, ribeirinhas e empreendedores periféricos já praticam, há séculos, modelos sustentáveis, regenerativos e culturalmente enraizados que preservam a floresta e mantêm viva a diversidade alimentar da Amazônia.

Técnicas tradicionais de plantio, pesca artesanal, manejo sustentável e culinária ancestral, reconhecidas pela da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) como sistemas resilientes, despontam como caminhos concretos para enfrentar a crise climática.

“E é nesse contexto que a Amazônia tem a chance de saltar do estereótipo do exótico, do folclórico, da ‘comida diferente’, para uma posição de protagonismo global. Afinal, enquanto o mundo discute como alimentar populações de forma sustentável e regenerativa, a resposta já vem sendo praticada há séculos pelos povos indígenas e pelas comunidades tradicionais da Amazônia”, afirma Thiago Castanho, Chef, cozinheiro paraense e pesquisador da culinária amazônica.

Histórias da Amazônia que resistem à crise climática

O livro reúne histórias que mostram os impactos da crise climática e a resistência de comunidades locais.

Em Belém, o restaurante Calmaria da Amélia, localizado na Vila da Barca, enfrenta o aumento de preços dos insumos e as dificuldades da vida ribeirinha. O As Negonas usa a comida como instrumento de combate ao racismo e afirmação de identidade.

Em Manaus, a tradicional Peixaria do Jokka Loureiro, às margens do Rio Negro, sofre com a seca e a escassez de peixes — reflexos diretos da mudança climática. Também na capital amazonense, o ritual do caxiri, relatado por Carla Wisu, mostra como o alimento é memória coletiva e resistência cultural.

Caldeira de peixe é uma das refeições mais tradicionais do Amazonas (Foto: Margem do Rio/Énois)

Lideranças indígenas como Orleidiane Tupaiú, da aldeia Aminã (PA), e Clarinda Sateré-Mawé, da Casa Biatuwi (AM), reforçam que cozinhar é também cuidar da terra, da saúde e do coletivo.

Da periferia de São Paulo à Amazônia

Criado em 2016, o Prato Firmeza nasceu como um guia gastronômico das periferias de São Paulo, com foco em comida de rua e empreendedores locais. Desde então, se transformou em uma plataforma de comunicação e cultura alimentar que já impactou cerca de 2 milhões de pessoas com livros, podcasts, webséries e conteúdos audiovisuais.

Com a edição amazônica, o projeto amplia seu alcance e reafirma o compromisso da Énois com a comunicação comunitária e o fortalecimento de territórios sustentáveis.

Parcerias e realização

O Prato Firmeza Amazônia é uma realização da Énois e do Ministério da Cultura, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, com patrocínio do Assaí e da RD Saúde. A iniciativa conta com apoio da WWF, Instituto Clima e Sociedade e Instituto Ibirapitanga, além de tradução indígena feita pela Coordenação de Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e acessibilidade por Amanda LeLibras.

O projeto também tem parcerias com o Pavulagem, o Puxirum do Bem Viver e o Tapajós de Fato.

O projeto também conta com um podcast. Os episódios estão disponíveis no YouTube e Spotify: Comida que cura, território que fala e Saudando a mandioca.

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Foto de capa: Reprodução Énois / Leonardo Santos

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