Manifestantes denunciam o projeto de dragagem e privatização da hidrovia do Rio Tapajós. Segundo as lideranças, a alteração do leito do rio pode provocar mudanças no curso das águas, afetar a pesca, comprometer a segurança alimentar das comunidades tradicionais da região

Por Cecília Amorim

Povos indígenas do Baixo Tapajós iniciaram, nesta quinta-feira (22), a ocupação do terminal da empresa Cargill, localizado na orla de Santarém, no oeste do Pará. A mobilização é uma reação direta ao projeto de dragagem e privatização da hidrovia do Rio Tapajós, anunciado pelo Governo Federal no início de janeiro, sem a realização de consulta às comunidades indígenas e tradicionais da região.

A licitação prevê a dragagem de um trecho estratégico do rio entre os municípios de Santarém e Itaituba, com valor estimado em R$ 74,8 milhões e contrato de até 42 meses. Para os povos indígenas, a iniciativa representa mais um avanço do modelo de desenvolvimento voltado à exportação de commodities, que transforma rios amazônicos em corredores logísticos a serviço do agronegócio e ignora os impactos sociais, culturais e ambientais sobre quem vive no território.

Segundo Auricelia Arapirun, ao menos 13 povos indígenas do Baixo Tapajós participam do ato. “Hoje, 22 de janeiro de 2026, nós, povos indígenas do Baixo Tapajós, iniciamos essa ocupação em defesa do nosso rio. O Tapajós é vida, é território, é história. Ele não é mercadoria”, afirmou a liderança. 

Os manifestantes também denunciam o avanço da especulação imobiliária e de grandes empreendimentos sobre áreas tradicionalmente ocupadas pelas comunidades.

Ameaça aos territórios sagrados

As organizações indígenas alertam que a dragagem não se resume a uma intervenção técnica para melhorar a navegação. De acordo com as lideranças, a alteração do leito do rio pode provocar mudanças no curso das águas, afetar a pesca, comprometer a segurança alimentar e ameaçar áreas sagradas e territórios tradicionalmente utilizados pelas comunidades. “A dragagem interfere diretamente no modo de vida que existe há gerações. Não é apenas uma obra, é uma ruptura”, afirmam em nota pública divulgada pelo Conselho Indígena Tapajós e Arapiuns (CITA).

Outro ponto central da mobilização é a violação do direito à consulta livre, prévia e informada, garantido pela Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT). 

Segundo os povos do Baixo Tapajós, o Ministério dos Portos e Aeroportos, responsável pelo projeto, lançou a licitação sem dialogar com as comunidades que serão diretamente impactadas. “Nada sobre nós, sem nós. Sem consulta, sem estudos ambientais adequados e sem respeito, não há legitimidade”, reforça o comunicado divulgado pelo CITA. 

Para as lideranças, o conflito em torno da dragagem do Tapajós não é isolado, mas parte de um histórico de pressões sobre o território, intensificadas nas últimas décadas pela expansão do agronegócio, da mineração e de grandes obras de infraestrutura. O terminal da Cargill, ocupado nesta quinta-feira, simboliza esse modelo de desenvolvimento que, segundo os indígenas, concentra riqueza e aprofunda desigualdades, ao mesmo tempo em que impõe riscos ambientais e sociais à região.

Em convocação pública, os povos do Baixo Tapajós chamaram lideranças, parentes e aliados a se unirem à manifestação. “O Tapajós não está à venda. Seguiremos em luta pela defesa do rio, do território e pelo bem viver dos nossos povos”, afirmam. 

Terminal Fluvial da Cargill, em Santarém. (Foto: Markus Mauthe / Greenpeace)

A mobilização no Tapajós ocorre apesar do compromisso assumido pelo governo federal durante a COP30. A promessa foi uma das  respostas às várias manifestações de indígenas na conferência, incluindo a ocupação da zona azul, feita pelo então recém-empossado ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, com a missão de aproximar o Palácio do Planalto de movimentos populares.

Contudo, em dezembro de 2025, o governo publicou um edital do DNIT para contratação da dragagem de manutenção do rio Tapajós por até cinco anos, com valor estimado superior a R$ 74 milhões, indicando ampliação das intervenções no leito do rio mesmo com estudos ambientais ainda pendentes. Apesar disso, a Justiça Federal de Santarém negou o pedido do MPF para suspender a licitação, entendendo não haver provas de execução sem autorização, embora as organizações afirmem que existe apenas uma autorização emergencial temporária, emitida pela Semas em 2025.

Para indígenas e organizações populares, a dragagem atende sobretudo aos interesses do agronegócio exportador e evidencia contradições entre o discurso ambiental do governo federal e suas práticas no território amazônico.

O Outro lado

A Carta Amazônia entrou em contato com a assessoria de comunicação da empresa Cargill e aguarda um posicionamento sobre as reivindicações apresentadas na ocupação.

Terminal Fluvial da Cargill

Situado na margem direita do rio Tapajós, próximo à foz no rio Amazonas, o Terminal Fluvial de Granéis Sólidos de Santarém é um dos principais pólos logísticos de soja e milho do país. Operado pela Cargill desde 2003, o empreendimento possui capacidade atual para embarque de 4,9 milhões de toneladas de grãos ao ano e armazenagem de 114 mil toneladas. O terminal recebe grãos via BR-163 (Cuiabá-Santarém) e via comboios fluviais que partem de Miritituba (Itaituba).

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Foto de capa:  Reprodução / CITA

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