Em 2025 o Brasil registrou 1.518 casos de feminicídios. O maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015.

Por Cecília Amorim

O casal na fila do supermercado não parecia tão jovem, talvez na casa dos 40. Ela, baixinha, cabelos ondulados presos num rabo de cavalo, bermuda jeans, camisa verde. No rosto, ainda havia traços da beleza da juventude. Sem cílios postiços, sem unhas longas, sem sobrancelhas milimetricamente desenhadas, sem megahair. Havia beleza na simplicidade. Ele era uns dez centímetros mais alto, o que não era grande coisa, porque ela era mesmo pequena. Cabelo na régua, como dizem por aí. Degradê bem feito, havaianas brancas impecáveis, camisa do Paysandu, bermuda jeans e um jeito de falar de meninão, apesar da idade.

Ela tentava convencê-lo a comprar um mop, essas ferramentas que facilitam a limpeza da casa e eliminam o esforço de torcer o pano à mão. Ele, indignado: não fazia sentido gastar 80 reais em algo que um rodo e um pano de chão resolvem. Ela explicava que a casa era grande, que limpar tudo no braço estava acabando com suas costas. Ele retrucava: besteira. Antigamente não existia nada disso. As mulheres limpavam a casa, cuidavam de dez crianças, sem fralda descartável, sem mop, sem desengordurante. Era sabão, palha de aço e pano de chão. E pronto.

Um homem ao lado sorriu e concordou. As mulheres ao redor permaneceram em silêncio. 

Quando minha segunda filha nasceu, depois de dois episódios de eclâmpsia, o médico foi direto: uma terceira gravidez poderia colocar minha vida em risco. Diante disso, meu companheiro decidiu fazer uma vasectomia. Quando contou aos amigos, ouviu conselhos que diziam mais sobre o mundo em que vivemos do que sobre cuidado: diziam que ele não deveria fazer isso, afinal, quem corria risco se engravidasse era eu. Portanto, segundo eles, eu é que deveria “dar meu jeito”. 

Ano passado, na rua da minha casa registrei quatro mulheres que sofreram algum tipo de violência. A primeira foi apertada no ombro até as unhas perfurarem e deixarem hematomas enquanto dançava, outra teve o ex invadindo seu trabalho e lhe agredindo, o que gerou sua demissão. A terceira levou um tapa enquanto o marido bebia com os amigos e a quarta foi jogada ao chão em uma festa de aniversário com o filho no colo. 

Essa violência cotidiana também aparece nos números e eles contam uma história trágica. O Mapa da Segurança Pública de  2025, mostra que o Brasil registrou 1.518 feminicídios, o maior número desde que o crime passou a ser tipificado, em 2015. Na prática, isso significa que cerca de quatro mulheres são assassinadas todos os dias no país apenas por serem mulheres. O país apresenta uma taxa de 1,34 feminicídios para cada 100 mil mulheres.

O estudo Cartografias da Violência na Amazônia mostra que na Amazônia Legal, a taxa de é de 1,6. Os registros revelam uma realidade ainda mais cruel para quem vive na região, onde os números de ocorrência é 19,3% maior que a média nacional. Todos os dias uma nova ausência é acrescentada à mesa de alguma família. O Pará lidera em números de casos na região, só em 2025 foram 319 ocorrências. Mas se contarmos de forma proporcional ao número de habitantes o Acre lidera em casos em todo o país. 

Este ano, a realidade parece ainda mais dura. Todos os dias chegam notícias de mulheres que perderam a vida ou que foram vítimas de ataques violentos. Na maioria das vezes, o agressor não é um desconhecido, mas alguém que fez ou ainda fazia parte da vida da vítima: um companheiro, marido ou ex-companheiro. Homens que não aceitam o fim de um relacionamento e que continuam enxergando a mulher como uma extensão de si mesmos, como se ela fosse uma propriedade sobre a qual acreditam ter direito de decidir, controlar e, em muitos casos, destruir. 

Outra face da violência contra mulheres

Quando eu tinha oito ou nove anos, estudava em um bairro distante de casa, numa área ainda em formação na cidade de Palmas, capital do recém criado Tocantins. A cidade era jovem, cheia de ruas abertas na terra vermelha, terrenos vazios e muito mato entre uma construção e outra. Naquele dia, desci do ônibus como fazia todas as tardes e comecei a caminhar em direção à escola. Foi quando percebi que um homem vinha atrás de mim.

No começo era só a sensação de estar sendo seguida. Depois, ao olhar para trás, vi algo que eu ainda não tinha idade para compreender completamente: ele caminhava se masturbando. O caminho até a escola tinha um trecho onde não havia casas, apenas mato alto. Eu tinha nove anos, mas entendi, com a clareza instintiva que o medo dá às crianças, que precisava correr. Corri como se minha vida dependesse daquela corrida. Quando finalmente atravessei um buraco que havia cerca da escola, olhei para trás e ele não estava mais lá. Foi só então que meu corpo permitiu que o medo viesse inteiro e eu desmaiei. Acordei na secretaria.

Essa não foi uma situação isolada. Ao longo da minha vida tive que atravessar diversas formas de violência sexual. A primeira lembrança que tenho aconteceu quando eu tinha apenas seis anos.

Infelizmente, histórias como essa não são exceção no Brasil. Elas aparecem todos os anos nos números que tentam medir aquilo que muitas vezes permanece escondido. Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2024 foram registrados 87.545 casos de estupro e estupro de vulnerável no país, o maior número da série histórica do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Isso significa que uma pessoa é estuprada a cada seis minutos no Brasil. A maioria das vítimas são meninas: 76,8% dos casos são classificados como estupro de vulnerável, quando a vítima tem menos de 14 anos.

Na Amazônia brasileira, os índices são ainda mais preocupantes. Um estudo do UNICEF mostra que a taxa de violência sexual contra crianças e adolescentes na Amazônia Legal é 21,4% maior que a média nacional, chegando a 141,3 casos por 100 mil crianças e adolescentes. Segundo o relatório,  entre 2021 e 2023, mais de 38 mil casos foram registrados envolvendo crianças e adolescentes na Amazônia.

Os números ajudam a dimensionar o problema, mas eles nunca contam a história inteira. Porque por trás de cada estatística existe uma menina correndo para escapar de um homem numa rua vazia, uma criança tentando entender o que aconteceu, uma mulher carregando memórias que o tempo não apaga.

Talvez por isso o debate sobre violência contra mulheres e meninas não possa se limitar a números. Ele precisa começar pelas histórias, pelas nossas histórias. Porque enquanto houver meninas correndo para salvar a própria vida no caminho da escola, ainda estaremos muito longe de chamar este país de seguro para as mulheres.

E ainda assim seguimos. Crescemos, estudamos, trabalhamos, cuidamos umas das outras, criamos filhos e filhas, construímos comunidades e resistimos todos os dias a uma estrutura que muitas vezes tenta nos silenciar .

Que possamos falar mais. Ouvir mais. Acreditar mais nas meninas que contam suas histórias. Que possamos construir redes de cuidado onde nenhuma mulher precise enfrentar o medo sozinha.

Porque cada vez que uma mulher é protegida, cada vez que uma menina é escutada, cada vez que a violência é interrompida, um pedaço desse futuro começa a nascer. E este é o futuro que precisamos, onde mulheres possam encerrar um relacionamento e continuarem vivas, onde uma jovem possa decidir que não quer namorar ir para a academia e voltar para apenas dolorida do treino, onde meninas possam simplesmente caminhar para a escola sem precisar correr para sobreviver.

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Foto de capa: Reprodução gerada por IA via Google Gemini

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