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Universidade Federal de Roraima lança programa inédito de formação para comunicadores indígenas

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Universidade Federal de Roraima lança programa inédito de formação para comunicadores indígenas

Iniciativa, promovida em parceria com a Hutukara Associação Yanomami (HAY), busca ampliar o diálogo entre os saberes científicos e os saberes tradicionais dos povos originários. Curso terá a duração de três anos.

Por Adison Ferreira

A Universidade Federal de Roraima (UFRR) inaugura, nesta quinta-feira (30/04), o primeiro programa de extensão destinado à formação de comunicadores indígenas da Amazônia. A iniciativa, chamada “A palavra que nasce na floresta”, é uma articulação da instituição em parceria com a Hutukara Associação Yanomami (HAY).

A proposta, promovida pelo curso de Jornalismo e o Programa de Pós-Graduação em Comunicação da UFRR, nasceu de uma demanda do movimento indígena de Roraima para reverberar a comunicação protagonizada pelos povos Yanomami e Ye’kwana. Além da Hutukara Associação Yanomami (HAY), o curso também conta com a parceria do Instituto Socioambiental.

“Existe uma percepção muito forte de que não basta apenas responder às perguntas feitas por não indígenas, mas é fundamental construir narrativas próprias, a partir das línguas, dos tempos e de outras formas de ver o mundo. A partir disso, a universidade entra como parceira, somando esforços para construir uma formação que não é imposta, mas construída em conjunto”, afirma Lisiane Aguiar, professora do curso de Jornalismo e do PPGCOM.

Ao longo de três anos, o programa pretende formar seis comunicadores indígenas vindos de diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami, em Roraima e no Amazonas.

Segundo Lisiane, o projeto será dividido em módulos que alternam o tempo da cidade e o tempo da floresta – um modelo que rompe com a lógica acadêmica tradicional e reconhece que o conhecimento também se constrói fora da sala de aula.

“A metodologia foi pensada para respeitar os modos de vida e os tempos dos povos indígenas. Não é um curso tradicional, mas uma formação construída de forma coletiva, baseada na escuta, na prática e na troca de saberes”, explica a professora.

O programa inclui aulas sobre produção de vídeo, áudio, escrita e uso de tecnologias e formação política, que abordará temas como história, direitos indígenas e estratégias de comunicação.

Diálogo entre o conhecimento científico e o conhecimento tradicional indígena

Para Dario Kopenawa, vice-presidente da Hutukara Associação Yanomami, o programa fortalece o protagonismo dos povos indígenas, ao permitir que a formação também seja um espaço de trocas de experiencias entre os saberes científicos produzidos na universidade e os saberes tradicionais dos povos originários.

“Formar comunicadores para a nossa comunidade é muito importante. Ao mesmo tempo que eles aprenderão a fazer filmes, podcasts e documentários da nossa cultura, eles também usarão esses conhecimentos como instrumentos de luta e resistência. Ao mesmo tempo que mostrarão a cultura do nosso território, eles também vão mostrar os nossos problemas sociais, como os invasores e os nossos rios, que estão sendo poluídos e contaminados por mercúrio,” destaca o líder indígena.

Além das atividades na universidade, em Boa Vista, o curso também acontecerá na sede da Hutukara e nas próprias comunidades, onde os participantes colocarão em prática o que aprenderam durante as aulas.

Programa contará com formação na sede da UFRR e no Território Indígena Yanomami (Foto: UFRR/Arquivo)

Para o professor Felipe Collar Berni, coordenador do curso de jornalismo da UFRR, o diálogo entre a universidade e as comunidades indígenas é fundamental para o programa. “A gente parte do princípio de que não existe hierarquia entre os saberes. O conhecimento produzido na universidade pode contribuir com ferramentas e técnicas, mas ele só faz sentido quando dialoga com os conhecimentos tradicionais, com a oralidade, com a memória e com a experiência vivida no território”, afirma.

“O impacto disso é muito significativo, porque fortalece a autonomia dos povos indígenas na produção da própria comunicação. Permite que eles produzam conteúdos em suas próprias línguas, que registrem suas histórias a partir do seu próprio ponto de vista e que atuem politicamente com mais força. Além disso, esse encontro cria pontes entre mundos diferentes, sem impor um sobre o outro. É uma construção conjunta, que valoriza tanto a tecnologia quanto a tradição, e que entende a comunicação como uma ferramenta de luta, de afirmação cultural e de defesa do território”, destaca Lisiane. 

Aula inaugural

O evento de lançamento do programa de extensão “A palavra que nasce na floresta” contará com a presença do Xamã Davi Kopenawa, uma das principais lideranças indígenas do país. A aula inaugural será realizada nesta quinta-feira, dia 30 de abril, às 18h, no Salão Nobre da Reitoria da Universidade Federal de Roraima (UFRR), em Boa Vista.


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Foto de capa: Victor Moriyama/ISA

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