Segundo o levantamento, 77% dos moradores da região Norte acreditam que a proteção ao meio ambiente é mais importante do que o crescimento da economia ou a geração de empregos.
Por Antônio Laranjeira
A realização da COP30 em Belém deixou um rastro de conscientização na Amazônia que os números agora ajudam a medir. A pesquisa “Mudanças Climáticas na Percepção dos Brasileiros“, das organizações ITS-Rio e Ipsos, revela que o Norte é a região com maior nível de informação sobre a conferência climática.
Enquanto 56% dos brasileiros ouviram falar do evento, no Norte esse índice chega a 73%. Esse dado reflete como a proximidade física do debate global alterou a percepção local, embora o acesso ao conhecimento ainda esbarre em barreiras sociais. O estudo mostra que 72% da classe AB conhece a COP30, contra 44% na classe DE.
A percepção do morador do Norte sobre o desenvolvimento econômico também desafia clichês.
Para 77% da população regional, proteger o meio ambiente é mais importante do que o crescimento da economia ou a geração de empregos. No total do país, o índice de quem prioriza a conservação é de 80%. Além disso, 49% dos brasileiros discordam que o desmatamento seja necessário para a economia e 74% entendem que a destruição da mata prejudica a qualidade de vida local.
O relatório expõe um abismo no entendimento técnico sobre o aquecimento global. Apenas 23% dos brasileiros afirmam saber muito sobre o assunto. Essa lacuna abre espaço para interpretações divergentes sobre a ciência.
Nas classes DE, 17% dos entrevistados acreditam que a maioria dos cientistas nega o aquecimento do planeta, uma percepção que cai para 4% na classe AB. A visão sobre os culpados pelas queimadas também varia. Se no plano nacional a responsabilidade recai sobre madeireiros (64%) e garimpeiros (55%), no Norte e no Centro-Oeste surge um olhar mais local: 34% dos moradores atribuem o fogo a pequenos agricultores, contra 23% no Sudeste.
Os canais de informação reforçam essas desigualdades. A juventude busca dados em redes sociais (91%), enquanto a população negra se informa majoritariamente pela TV aberta (59%). Em contraste, 33% da população branca acessa a TV paga para obter notícias ambientais. O sentimento de urgência, contudo, é coletivo. Sete em cada dez brasileiros acreditam que o clima prejudica a própria família e 87% temem danos para as gerações futuras.
O Norte agora ocupa o centro do debate, mas os dados indicam que a democratização da informação científica ainda é o maior desafio após o fim das luzes da COP30.
Metodologia da pesquisa
A quarta edição da pesquisa “Mudanças Climáticas na Percepção dos Brasileiros” foi contratada pelo Instituto de Tecnologia e Sociedade (ITS-Rio) e realizada pela Ipsos-Ipec.
O estudo, de abrangência nacional, utilizou uma abordagem quantitativa com a técnica de entrevistas telefônicas assistidas por computador (sistema CATI).
Para esta edição, foram realizadas 2.600 entrevistas entre os dias 10 de outubro e 11 de novembro de 2025. O público-alvo consistiu em brasileiros com 18 anos ou mais, selecionados aleatoriamente via números de telefones móveis.
Um diferencial importante desta edição foi a utilização de uma amostra desproporcional, desenhada especificamente para ampliar a representatividade das regiões Norte e Centro-Oeste, garantindo dados mais precisos sobre essas áreas de interesse ambiental estratégico.
Os resultados foram posteriormente ponderados para refletir a real proporção da população brasileira segundo dados atualizados do IBGE. A margem de erro estimada é de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com um nível de confiança de 95%.
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Foto de capa: Alex Ferro/ COP30
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