Natural do território Arara do Igarapé Humaitá, no extremo oeste do Acre, Samuel se tornou uma das principais vozes da juventude indígena em defesa da justiça climática e dos povos originários da Amazônia

Da Redação

Da Terra Indígena Arara do Igarapé Humaitá, no Acre, para a sede da Organização das Nações Unidas, em Genebra. A trajetória do jovem indígena Samuel Arara, 25 anos, do povo Shawãdawa/Arara, alcançou, em junho deste ano, mais um importante passo na luta por direitos humanos e defesa dos povos e territórios tradicionais da Amazônia.

Samuel é um dos nove indígenas brasileiros selecionados para participar do Programa de Bolsas para Povos Indígenas do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH), realizado em Genebra, na Suíça. A formação reúne lideranças indígenas de diferentes regiões do Brasil e do mundo para aprofundar conhecimentos sobre os mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos e fortalecer a incidência política dos povos indígenas nos espaços globais de decisão.

A participação no programa de formação da ONU se soma a outras diversas ações do jovem Shawãdawa/Arara na construção das agendas internacionais sobre direitos humanos, mudanças climáticas e justiça socioambiental. Além de sua atuação em diferentes edições do Acampamento Terra Livre (ATL), em Brasília, Samuel participou ativamente da Cúpula da Amazônia e das últimas duas conferências mundiais do clima: em Baku, no Azerbaijão, em 2024; e em Belém do Pará, na COP30, em 2025.

Uma trajetória forjada nos territórios tradicionais

Nascido no território Arara do Igarapé Humaitá, no município de Porto Walter, no extremo oeste do Acre, Samuel construiu sua atuação pública a partir da realidade vivida pelos povos indígenas da região. Sua trajetória é marcada pela defesa dos direitos indígenas, da educação, da comunicação como instrumento de fortalecimento cultural, da justiça climática e da participação da juventude nos espaços de tomada de decisão.

Além de sua atuação política em defesa dos povos originários, Samuel é estudante de Engenharia Florestal da Universidade Federal do Acre (UFAC), presidente do Coletivo de Estudantes Indígenas da UFAC (CEI-UFAC) e coordenador Regional do Tetepawacomunica – Coletivo de Comunicação Indígena do Acre.

Ao longo dos últimos anos, ele se tornou uma das principais vozes da juventude indígena da Amazônia presentes em espaços nacionais e internacionais de debate, defendendo que os povos indígenas sejam protagonistas na formulação das políticas que impactam seus territórios e seus modos de vida. Sua atuação também se estende à comunicação indígena, utilizando as redes sociais e os meios digitais para aproximar a sociedade das realidades vividas na Amazônia, combater estereótipos e fortalecer a valorização das identidades indígenas.

Da Amazônia para o mundo

Antes de chegar à Suíça, ele participou da etapa preparatória do programa em Brasília, realizada entre os dias 8 e 19 de junho, na Universidade de Brasília (UnB), no Instituto de Relações Internacionais.

Durante duas semanas de formação intensiva, os participantes aprofundaram conhecimentos sobre relações internacionais, direito internacional dos direitos humanos, funcionamento do Sistema ONU, mecanismos de proteção internacional e instrumentos específicos voltados aos direitos dos povos indígenas.

A programação incluiu encontros institucionais coordenados pelo ACNUDH com representantes da Funai, APIB, CIMI, Procuradoria-Geral da República (PGR), UNESCO e Defensoria Pública da União (DPU), permitindo um diálogo direto entre lideranças indígenas, organismos internacionais e instituições brasileiras.

Segundo o jovem Shawãdawa/Arara, essa preparação fortaleceu a compreensão sobre como transformar as demandas dos territórios em incidência política internacional.

Formação na sede das Nações Unidas

Em Genebra, Samuel integra a delegação brasileira composta por nove representantes indígenas provenientes de diferentes povos e estados brasileiros.

O grupo participa de uma formação voltada ao funcionamento dos mecanismos das Nações Unidas para os direitos humanos, aprendendo como acessar esses instrumentos, elaborar comunicações internacionais, acompanhar recomendações aos Estados, compreender os órgãos de tratados e ampliar a defesa dos direitos dos povos indígenas em âmbito internacional.

Delegação indígena brasileira na sede da ONU, em Genebra. (Foto: Arquivo/ Cedida)

A programação reúne ainda outros 37 representantes indígenas oriundos das sete regiões socioculturais indígenas do mundo: América do Norte, Mesoamérica, América do Sul, África Subsaariana, Europa, Ártico, Ásia e Oceania.

Para Samuel, estar em Genebra significa levar à comunidade internacional as vozes dos povos indígenas amazônicos, especialmente da juventude.

“Chegar à sede das Nações Unidas pela porta da frente é um marco na minha trajetória, mas, acima de tudo, é uma responsabilidade. Não represento apenas a mim mesmo. Trago comigo meu povo, o Acre, a Amazônia, a juventude indígena e todas as comunidades que seguem resistindo na defesa de seus territórios, de suas culturas e de seus direitos”, afirma.

Segundo ele, compreender os mecanismos internacionais fortalece a capacidade de incidência das organizações indígenas.

“Os mecanismos da ONU são instrumentos fundamentais para fortalecer a proteção dos direitos humanos. Nosso compromisso é aprender como utilizá-los de forma estratégica para ampliar a defesa dos povos indígenas e contribuir para que as decisões internacionais estejam cada vez mais conectadas às realidades vividas em nossos territórios.”

Direitos dos Povos Indígenas

Um dos momentos mais importantes da programação será a participação na 19ª Sessão do Mecanismo de Peritos sobre os Direitos dos Povos Indígenas (EMRIP), realizada no Palais des Nations, sede europeia das Nações Unidas.

Durante a sessão, Samuel acompanhará debates sobre temas relacionados aos direitos territoriais, participação política, consulta livre, prévia e informada, preservação cultural e implementação da Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas.

A experiência permitirá dialogar diretamente com especialistas internacionais, representantes de Estados, organismos multilaterais e lideranças indígenas de diferentes continentes.

Compromisso que retorna aos territórios

Ao concluir a formação em Genebra, Samuel retornará ao Brasil com a missão de compartilhar os conhecimentos adquiridos com organizações, lideranças, estudantes e comunidades indígenas.

A participação de Samuel Arara no programa de formação da ONU se soma a outras diversas ações na construção das agendas internacionais sobre direitos humanos, mudanças climáticas e justiça socioambiental. (Foto: Arquivo/ Cedida)

Para ele, a formação não termina na ONU. Ela continua nos territórios, fortalecendo organizações indígenas, qualificando a incidência política e ampliando o acesso aos mecanismos internacionais de direitos humanos.

“Aprender na ONU só faz sentido se esse conhecimento voltar para nossas comunidades. Nosso maior compromisso é transformar essa experiência em ferramentas concretas para fortalecer a luta dos povos indígenas, proteger nossos direitos e garantir que nossas futuras gerações encontrem territórios vivos, culturas fortalecidas e direitos respeitados.”

Da Amazônia ao cenário internacional, Samuel Arara reafirma que os povos indígenas não querem apenas ocupar espaços: querem participar da construção das decisões que moldam o presente e o futuro do planeta. Sua presença em Genebra simboliza o avanço de uma geração de lideranças indígenas que une ancestralidade, formação técnica e incidência política para fortalecer a democracia, os direitos humanos e a justiça climática no Brasil e no mundo.


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Foto de capa: Arquivo/ Cedida

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