Empreendimento anunciado pela Axia Energia e a Elea Data Centers será instalado em Belém e terá capacidade inicial de 7,5 MW, com potencial de expansão para até 100 MW nas próximas fases. Especialistas alertam sobre os impactos ambientais desses projetos na região.

Por Adison Ferreira

As empresas Axia Energia e a Elea Data Centers, anunciaram, nesta sexta-feira (26), a instalação do primeiro data center de Inteligência Artificial (IA) na região amazônica. Com início de operação previsto para o segundo trimestre de 2027, o empreendimento batizado de BEL1, terá capacidade inicial de 7,5 MW, com potencial de expansão para até 100 MW nas próximas fases. 

Segundo as primeiras informações, o data center será construído próximo à subestação de alta tensão Miramar, operada pela Axia Energia, no bairro do Barreiro, em Belém. A Elea ficará responsável pela operação do equipamento, enquanto caberá à Axia o fornecimento de energia 100% renovável ao projeto.

Especialistas ouvidos pela Carta Amazônia apontam que, ao atingir sua capacidade máxima planejada de 100 MW, o BEL1 consumirá o equivalente à energia de cerca de 500 mil casas. O investimento inicial previsto para o empreendimento é de R$ 250 milhões.

Alessandro Lombardi, CEO e fundador da Elea Data Centers, afirma que o projeto começou a ser concebido em 2024, quando a capital do Pará foi confirmada como sede da COP30. “Expandir para Belém é um movimento estratégico para ampliar a distribuição geográfica da nossa plataforma e fortalecer a infraestrutura digital do Brasil. Essa região terá papel fundamental no ecossistema digital brasileiro ao representar uma alternativa de rota a Fortaleza, além de contribuir para reduzir a desigualdade digital e impulsionar a competitividade regional”, destaca. 

Anúncio oficial do primeiro data center para IA na Amazônia. (Fonte: Elea Data Centers/ Divulgação)

Lombardi explica que do ponto de vista de conectividade, Belém ocupa uma posição estratégica como rota complementar ao hub de Fortaleza, principal porta de entrada de cabos submarinos do país. A cidade integra a malha de conectividade da região Norte por meio das infovias do programa Norte Conectado e ganha relevância adicional com a expansão de rotas costeiras de fibra conectadas a sistemas internacionais, como o cabo submarino que liga a América Latina à Europa.

De acordo com eles, essa combinação fortalece a diversidade de rotas, amplia a resiliência da infraestrutura digital brasileira e posiciona a capital do Pará como um novo polo estratégico para o desenvolvimento da economia digital na Amazônia.

 O que são e quais os impactos dos data centers

Os data centers são empreendimentos tecnológicos responsáveis por armazenar, processar e distribuir dados digitais, sustentando desde redes sociais e sistemas bancários até plataformas de inteligência artificial e computação em nuvem. Para a operação, seus milhares de servidores eletrônicos precisam funcionar de forma contínua e gerar uma quantidade intensa de calor.

Por esse motivo, esses sistemas exigem métodos constantes de resfriamento, sendo o mais comum o uso de água em torres de refrigeração. Em muitos casos, o consumo hídrico de um único data center pode chegar a milhões de litros por dia, dependendo da tecnologia, do clima local e da eficiência energética das instalações.

Além da água, os data centers consomem muita energia para operar os servidores e os sistemas auxiliares. Segundo o pesquisador Lourenço Galvão Diniz Faria, economista da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), que atua como consultor em transições e regulação energética, economia circular, inovação e sustentabilidade, um data center de tamanho médio consome o mesmo que mil casas e os maiores podem gastar o equivalente a 10 mil a 50 mil casas, ou seja, o mesmo que uma pequena cidade. 

“Hoje existem tecnologias que prometem reduzir esse consumo e aumentar a eficiência desses sistemas, mas sempre haverá um consumo significativo à medida que os servidores aumentam de tamanho e capacidade de processamento”, adverte.  

 O data center de Belém será construído próximo à subestação de alta tensão Miramar. (Fonte: Google Maps)

Em artigo publicado no site da UFU, o economista acrescenta outros impactos menos discutidos como a poluição sonora e o lixo eletrônico, já que os equipamentos são substituídos periodicamente em busca de maior eficiência de processamento.

 “O zumbido constante de servidores e sistemas auxiliares cria níveis de ruído significativos e persistentes que podem chegar a 80 dBA [decibéis ponderados], comparáveis ​​aos de um soprador de folhas no entorno desses empreendimentos. Isso pode afetar comunidades próximas e animais silvestres”, explica. 

Riscos climáticos 

De acordo com um levantamento da empresa de análise de risco climático First Street, quase 80% dos data centers no mundo estão expostos a riscos climáticos extremos, como enchentes, ondas de calor, ventos intensos e incêndios florestais. A pesquisa, que avaliou 97 mercados globais de data centers, sugere que a expansão dessa infraestrutura crítica da economia digital ocorre, em muitos casos, em regiões já consideradas vulneráveis a eventos climáticos intensos.

O relatório destaca ainda que a exposição a eventos extremos pode levar a interrupções de operação, aumento do tempo fora do ar e elevação dos custos de seguro e manutenção. Esse cenário afeta diretamente o funcionamento dos sistemas de resfriamento, elevando ainda mais o consumo de energia e água. 

Em artigo publicado na Revista Latino-Americana de Ciências da Comunicação, os pesquisadores David Cândido dos Santos, Mateus Alexandre e Paulo Pessoa, analisaram os impactos ambientais dos data centers na região Pan-Amazônica. Entre os principais riscos identificados estão o consumo massivo de água, ameaça à mata ciliar (vegetação nativa localizada nas margens de rios, lagos, córregos e nascentes) e alteração do ciclo hidrológico na região. 

“Como a Amazônia funciona como uma “máquina de chuva” que exporta água para outras regiões, atividades predatórias que degradam o bioma, como a instalação desordenada de data centers, podem reduzir a capacidade produtiva dessa reciclagem de água”, alertam os pesquisadores.

Segundo eles, existe uma percepção social equivocada de que o “virtual” (IA, redes sociais, nuvens) está dissociado do mundo físico. No entanto, a infraestrutura que sustenta esses serviços é altamente material e consome recursos reais, gerando um custo socioambiental que, a longo prazo, pode causar danos irreversíveis ao ecossistema Pan-Amazônico.


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Foto de capa: Elea Data Centers/ Divulgação

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