A reportagem avaliou os planos de governo dos seis candidatos ao cargo de Chefe do Executivo do Pará para entender quais os compromissos relacionados às agendas de clima e meio ambiente.
Por Adison Ferreira
Além dos tradicionais debates sobre economia, saúde, educação e segurança pública, as eleições de 2026 no Brasil também serão marcadas pela ameaça dos efeitos do Super El Niño e pela intensificação dos eventos climáticos extremos. Na Amazônia, os impactos podem incluir secas severas, queda nos níveis dos rios, aumento da propagação de incêndios e maior vulnerabilidade de populações ribeirinhas.
Mas afinal, o que é um Super El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Esse aquecimento altera padrões de vento e chuvas em escala global, com efeitos distintos nas diferentes regiões do Brasil.
No Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste do país, esse fenômeno costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas, deixando essas regiões mais vulneráveis a secas prolongadas e queimadas. No Sul, o efeito pode ser inverso, com chuvas mais intensas e concentradas, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor podem se tornar mais frequentes, geralmente combinadas com baixa umidade do ar.
A intensidade do El Niño é medida a partir das anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Tropical. Episódios classificados como muito fortes ocorrem quando esse aquecimento supera 2°C em relação à média histórica.
Com o planeta mais quente, os efeitos do El Niño se somam às condições extremas provocadas pelo aquecimento global. O resultado é uma combinação que amplia a pressão sobre cidades, sistemas de saúde, infraestrutura, produção de alimentos, recursos hídricos e, sobretudo, sobre as populações em situação de maior vulnerabilidade social.
É nesse cenário que as eleições para o governo do Pará ganham uma dimensão particular. Esta será a primeira eleição estadual depois da COP30, realizada em Belém em 2025 e marcada pela centralidade da Amazônia no debate climático global. A conferência colocou o Pará no centro das discussões sobre financiamento climático, proteção das florestas, transição para uma economia de baixo carbono e adaptação aos efeitos das mudanças climáticas.
A pergunta, portanto, é inevitável: Depois da COP30, como a crise climática aparece nos projetos de governo apresentados aos eleitores paraenses?
A partir desse questionamento, a agência Carta Amazônia avaliou os planos de governo dos seis candidatos ao governo do Pará, com intuito de entender quais são os compromissos apresentados para a agenda socioambiental e se existem medidas concretas para enfrentar os efeitos da crise climática no estado, que devem permanecer como um dos grandes desafios das próximas décadas.
Falando em adaptação climática, de forma efetiva, no programa da candidata Hana Ghassan (MDB) aparecem propostas relacionadas tanto à mitigação das mudanças climáticas quanto à adaptação do território aos seus efeitos. Há previsão de recursos para prevenção de desastres climáticos e medidas voltadas à adaptação das cidades.
No programa de Daniel Santos (Podemos), principal adversário projetado nas pesquisas eleitorais recentes, também aparece a proposta de investimentos em ciência e tecnologia para enfrentar os desafios relacionados às mudanças climáticas.
Mas a análise dos documentos também revela diferenças importantes na forma como os candidatos relacionam a questão ambiental ao desenvolvimento econômico. Embora alguns programas apresentem uma reflexão mais nítida sobre políticas de mitigação e adaptação, nem todos avançam sobre uma mudança na forma de pensar a política econômica a partir da emergência climática, conforme decorreram alguns dos principais debates durante a COP30.
Essa discussão aparece de maneira mais explícita nos programas de perfil socialista, como os apresentados por Araceli Lemos (PSOL), Well Macedo (PSTU) e Gal Leite (UP), que relacionam a agenda socioambiental a questões como o modelo de desenvolvimento, a exploração dos recursos naturais, a distribuição da riqueza, demarcação de terras indígenas, reforma agrária e a reorganização da economia paraense, a partir de uma lógica de combate às emergências climáticas.
Vale lembrar que o mandato eleito em 2026 coincidirá com o prazo dos compromissos assumidos pelo Brasil de zerar o desmatamento e reduzir pela metade as emissões de gases de efeito estufa.
A comparação a seguir mostra como cada uma das seis candidaturas — Hana Ghassan (MDB), Daniel Santos (Podemos), Araceli Lemos (PSOL), Well Macedo (PSTU), Gal Leite (UP) e José Moita (Democrata) — incorpora a agenda ambiental e climática em seus respectivos projetos de governo.
O que diz o plano de governo da candidata Hana Ghassan (MDB)
As principais propostas e diretrizes sobre Clima e Meio Ambiente no plano de governo da candidata do MDB incluem ações relacionadas à bioeconomia, combate ao desmatamento e gestão climática. O plano apresenta uma visão que busca conciliar o desenvolvimento econômico com a proteção ambiental e fala em “posicionar o Pará como protagonista na agenda climática mundial, devido ao seu potencial de biodiversidade”

Confira as principais propostas:
Bioeconomia: Fortalecimento do Plano Estadual de Bioeconomia (PlanBio) e estímulo à economia de baixo carbono, com foco em agregar valor a produtos regionais como açaí, cacau e castanha.
Combate ao Desmatamento: Ênfase na fiscalização inteligente para combater o desmatamento ilegal e queimadas, utilizando bases fixas e brigadas treinadas.
Regularização: Continuidade de programas de regularização fundiária e ambiental, com foco no Cadastro Ambiental Rural (CAR) e modernização do licenciamento ambiental digital.
Resíduos Sólidos: Apoio a polos regionais de aterros sanitários em parceria com o setor privado.
Gestão Climática: Instituição do Plano Estadual de Adaptação Climática para proteger populações vulneráveis contra efeitos de secas e cheias, além da implementação do mercado de carbono e destinação de recursos do REDD+ para quem conserva a floresta.
O que diz o plano de governo do candidato Daniel Santos (PODEMOS)
Os compromissos do candidato do Podemos adotam a premissa de que a preservação ambiental não deve ser tratada como um obstáculo ao desenvolvimento. O documento destaca que as políticas públicas de Clima e Meio Ambiente devem funcionar como uma espécie de “vantagem competitiva para posicionar o estado globalmente”.

Os principais pontos da agenda climática e ambiental abordados por Daniel Santos incluem:
- Bioeconomia como Política de Estado: O plano propõe elevar a bioeconomia e a economia de baixo carbono a eixos estratégicos, valorizando produtos da sociobiodiversidade (como açaí, cacau e castanha) e estimulando centros tecnológicos e o uso sustentável da biodiversidade.
- Ciência e Pesquisa: O documento prevê parcerias com universidades e institutos para fomentar pesquisas voltadas à biodiversidade, biotecnologia e mudanças climáticas.
- Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE): Há o compromisso de atualizar o ZEE do estado para orientar investimentos públicos e privados, reduzir conflitos de uso do solo e dar previsibilidade e segurança jurídica.
- Mercado de Carbono e Serviços Ambientais: O texto apoia a estruturação de mercados regulados e voluntários de carbono, além de mecanismos de pagamento por serviços ambientais para comunidades tradicionais, povos indígenas e produtores rurais que conservam os ecossistemas.
- Justiça Federativa Ambiental: Defende um novo pacto nacional para a Amazônia, pleiteando que os estados amazônicos recebam compensações financeiras e fundos climáticos pelos serviços ambientais prestados ao país e ao mundo.
O que diz o plano de governo da candidata Gal Leite (UP)
Candidata do partido Unidade Popular, Gal Leite apresenta uma visão crítica sobre a relação entre o modelo de exploração capitalista, a desigualdade social e a questão ambiental.

O documento apresentado pela candidata defende que a preservação da natureza é essencial para a manutenção da vida e que a pauta ambiental não pode ser dissociada da questão social. Gal se posiciona contrária à transformação de recursos naturais (como carbono e florestas) em mercadorias financeiras, criticando a centralidade dos mercados de carbono e a financeirização da natureza.
Entre as principais propostas do programa, destacam-se:
- Combate ao desmatamento e crimes ambientais: Estabelece o objetivo de “desmatamento ilegal zero”, com foco na fiscalização e responsabilização de grandes desmatadores e empreendimentos econômicos.
- Gestão pública: Defende que o licenciamento ambiental deve estar sob controle público e popular, assegurando a consulta prévia a povos indígenas, quilombolas e comunidades tradicionais.
- Adaptação climática: O plano propõe elaborar planos regionais de adaptação para eventos extremos (secas, enchentes, ondas de calor), priorizando periferias e populações vulneráveis.
- Desenvolvimento sustentável: Propõe a criação de programas estaduais para a recuperação de áreas degradadas, fortalecimento da agricultura familiar e agroecologia, e uma transição ecológica baseada em investimento público em saneamento, reciclagem e ciência.
O que diz o plano de governo da candidata Araceli Lemos (PSol)
O plano de governo da candidata do PSOL aborda o tema sob uma perspectiva de preservação ambiental atrelada à justiça social e ao combate a atividades predatórias.

As principais de Araceli propostas focam em:
- Desmatamento e Conservação: O documento estabelece como meta o “desmatamento zero” e um “combate implacável” a atividades ilegais que ameacem os territórios, com especial atenção à proteção de terras indígenas, quilombolas e ribeirinhas.
- Combate ao Garimpo e Contaminação: Há um foco explícito no combate ao garimpo ilegal e a outras atividades predatórias que contaminam rios e cursos d’água, destacando os riscos à saúde das populações tradicionais.
- Bioeconomia e Economia Sustentável: A proposta inclui o apoio à bioeconomia e ao turismo de base comunitária, enfatizando a gestão dessas atividades pelas populações tradicionais.
- Regulação Mineral: O programa propõe condicionar o licenciamento ou a renovação de atividades minerais à verticalização da produção no estado e à utilização de mão de obra local, além de condicionar incentivos fiscais a projetos que apresentem riscos de impactos ambientais relevantes.
O que diz o plano de governo do candidato José Moita (Democrata)
O plano de governo de Moita associa as ações de Clima e Meio Ambiente com ações de desenvolvimento rural sustentável. A proposta busca conciliar o crescimento da agropecuária e o avanço da bioeconomia com a preservação dos recursos naturais.

As principais diretrizes citadas pelo candidato são:
- Combate ao desmatamento: A meta estabelecida é a redução de 100% do desmatamento ilegal, utilizando monitoramento por satélite de alta resolução e integração de forças policiais.
- Regularização: Foco na aceleração da regularização ambiental e fundiária (CAR/ITERPA), com uso de inteligência artificial para validação do Cadastro Ambiental Rural.
- Mercado de Carbono e PSA: Consolidação do Fundo Estadual de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA Pará) e do mercado de carbono jurisdicional para remunerar a preservação da floresta.
- Agropecuária de baixo carbono: Incentivo ao Plano ABC+ para recuperação de 1,5 milhão de hectares de pastagens degradadas.
O que diz o plano de governo da candidata Well Macedo (PSTU)
As propostas relacionadas às políticas de Clima e Meio Ambiente do Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU) adotam uma postura crítica ao modelo econômico atual no Pará. O documento associa a degradação ambiental diretamente ao sistema capitalista, ao agronegócio, à mineração e a grandes obras de infraestrutura.

Os principais pontos sobre o tema no documento incluem:
- Crítica aos Megaempreendimentos: O documento defende a suspensão de sete grandes projetos de infraestrutura no estado (como a Ferrogrão, dragagens de rios e mineração na Volta Grande do Xingu), exigindo estudos independentes sobre seus impactos socioambientais e climáticos.
- Posicionamento sobre a Amazônia: O plano argumenta que a defesa da floresta depende do enfrentamento aos interesses de grandes empresas e que a “vida deve estar acima do lucro”. Critica o sistema de crédito de carbono (REDD+) do governo estadual, classificando-o como uma mercantilização da floresta.
- Conexão com a Crise Climática: O texto menciona a existência de um “colapso ambiental” e uma “crise climática” em curso, atribuindo a responsabilidade por esse cenário a governos que financiam o agronegócio causador de desmatamento.
- Propostas Ambientais: Entre as medidas citadas, destacam-se a reforma agrária sob controle dos trabalhadores, o combate ao garimpo ilegal, a demarcação de terras indígenas/quilombolas e a criação de um plano público de recuperação de áreas degradadas, nascentes e matas ciliares.
Propostas para a Política Ambiental Brasileira
Para reforçar a inclusão da pauta climática e ambiental na disputa política de 2026, o Observatório do Clima (OC) entregou a 326 políticos brasileiros um guia com propostas para amenizar os efeitos das mudanças climáticas. Representantes de todos os partidos com representação no Congresso Nacional, 190 deputados federais e 50 senadores receberam o documento “Propostas para a Política Ambiental Brasileira”
A publicação foca em reverter os retrocessos promovidos pelo Congresso nos últimos anos e em garantir que o Brasil cumpra suas metas climáticas e ambientais, com distribuição justa de recursos, direitos e oportunidades.
Suely Araújo, coordenadora de Políticas Públicas do Observatório do Clima, explica que o documento é resultado de um longo processo de construção coletiva entre as organizações que integram a rede. “O objetivo é apoiar candidatos e partidos na formulação de propostas e iniciativas, no âmbito do Executivo e Legislativo, de forma a evitar mais destruição e a garantir que o Brasil cumpra o que prometeu aos seus cidadãos e nos fóruns internacionais”, afirma
Segundo ela, a atuação de governantes e parlamentares nas agendas de clima e meio ambiente será fundamental nos próximos anos. O mandato dos eleitos em outubro vai coincidir com o compromisso assumido pelo Brasil no Acordo de Paris de zerar o desmatamento ilegal em 2030 e e reduzir em 50% as emissões de gases de efeito estufa.
“Mais do que metas internacionais, essas ações também são fundamentais para evitar mais perda de vidas, destruição de cidades e aumento de gastos públicos com socorro a locais atingidos por eventos extremos”, ressalta.
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Foto de capa: Reprodução/ Redes Sociais
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