Investigação produzida pelo projeto de jornalismo investigativo Subsolo, e publicada pela agência Carta Amazônia, revela como grileiros de terras têm lucrado com a invasão de florestas públicas na região amazônica

Da Redação

A grilagem de terras é uma das principais causas do desmatamento na Amazônia Brasileira. Além dos danos ambientais, as consequências da apropriação privada de terras públicas na região resultam em impactos sociais, econômicos e aumento expressivo da violência no campo.  Foi a partir desse cenário, que o jornalista Ruan Martins, do Subsolo, projeto de jornalismo investigativo independente, produziu a série de reportagens “Grilagem.com”,

 O conteúdo publicado na íntegra pela agência Carta Amazônia revela como grileiros de terras têm lucrado com a invasão de florestas públicas na Amazônia Legal. Por meio de anúncios de imóveis rurais publicados em redes sociais e marketplaces, a reportagem descobriu como a usurpação de áreas públicas antecede e impulsiona o desmatamento na floresta, além de agravar o quadro de violações de direitos humanos na região.

Ao longo de dois anos de investigação, o projeto Subsolo coletou dezenas de anúncios suspeitos de grilagem, conversou com mais de uma centena de corretores imobiliários, analisou dezenas de milhares de registros de compras de ouro e rastreou as conexões entre as terras à venda na internet, garimpos de ouro ilegais e projetos de créditos de carbono, em um trabalho que resultou na produção de cinco grandes reportagens que cobrem as diferentes formas pelas quais uma terra pública usurpada pode gerar lucro aos seus invasores.

Cinco capítulos

Os anúncios de imóveis rurais ofertados na internet serviram como um fio que construiu os cinco capítulos da série.

No primeiro, chamado “Amazônia à venda na internet”, a reportagem mostra que cinco milhões de hectares de florestas públicas na Amazônia foram encontrados à venda em marketplaces e redes sociais. O Facebook concentra o maior número de casos. Em 2021, a Meta havia prometido coibir esse tipo de comércio. A investigação mostra que essa promessa não foi cumprida.

 Em “O Sistema”, a reportagem revela como engenheiros e agrimensores estão usando um cadastro ambiental federal para ajudar grileiros de terras a validar suas invasões. A reportagem também mostra que, embora o Conselho Monetário Nacional tenha proibido a concessão de crédito a imóveis que apresentam algum tipo de sobreposição a territórios indígenas, o Itaú Unibanco concedeu, em junho de 2025, um empréstimo de cinco milhões de reais a um empreendimento em propriedade ligada ao senador Jaime Bagattoli (PL/RO), a qual está parcialmente sobreposta à Terra Indígena Rio Omerê, em Rondônia.

O capítulo “Fogo e Sangue” investiga o quadro de violações de direitos humanos e destruição ambiental em um assentamento de reforma agrária no estado do Pará, onde uma mineradora inglesa opera sem a autorização da autarquia de terras federal em um empreendimento localizado nas proximidades da Terra Indígena Kayapó.

Em “O Morto-Vivo”, um homem que forjou a própria morte para escapar da Justiça e que já foi escrito como sendo o “braço direito” do narcotraficante Fernandinho Beira-Mar, colocou à venda no Facebook uma fazenda em Itaituba. Por meio desse anúncio, Subsolo descobriu como o ouro de origem irregular pode estar contaminando as cadeias de suprimentos das maiores empresas de capital aberto do mundo, como Tesla, Sony, Ford e Cisco. O mesmo classificado levou a reportagem a identificar um padrão contábil nas declarações de minério de ouro da F.d’Gold, uma das maiores compradoras do metal extraído de garimpos do país. Nesse padrão, as sete maiores aquisições do minério feitas pela empresa correspondem ao número de identificação do garimpo de origem com a adição de “20” no final.

O último capítulo, chamado “Milagre Verde,  revela que um imóvel sobreposto a um assentamento de reforma agrária localizado em Apuí, no estado do Amazonas, registrou a geração de três tipos de ativos ambientais sobre sua área de mata, parte dos quais foi usada para lastrear fundos geridos pela Reag Investimentos e controlados por empresas identificadas na teia de parceiros do Banco Master. Um dos projetos tem participação direta da família Vorcaro.

Cada capítulo da série é guiado por dados e apresenta os achados a partir de uma perspectiva humana.

Para confirmar parte dos achados, a reportagem contou com o apoio da ONG Center for Climate Crime Analysis (CCCA), especializada em investigações de crimes ambientais a partir de informações geoespaciais. A metodologia completa do trabalho pode ser encontrada aqui.

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A investigação foi financiada por: The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.

Agradecimentos: Josh Mailman, Rebecca Reichmann Tavares, Maureen Nandini Mitra, Zoe Loftus-Farren, Olivia Rempel, Neal Rosenstein, Norman Gall, Bryan Araujo, Cesar Munoz, Paulo Zero, Sônia Bridi, Maria José Gontijo.

Foto de capa: Daniel Beltra/Greenpeace

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