Liderança do Quilombo do Abacatal, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém, Vanuza leva para a campanha uma trajetória marcada pela defesa do território, pela ancestralidade e pela luta por políticas públicas.
Por Cecília Amorim
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Aos oito anos de idade, Vanuza Cardoso viu a própria casa ser derrubada por pessoas que exploravam a comunidade. A residência simples, feita de barro e coberta de telhas, ficava no Quilombo do Abacatal, em Ananindeua, na Região Metropolitana de Belém. Dentro dela, Vanuza dividia com as irmãs uma cama, uma rede e o pouco que a família tinha. Quando a casa veio abaixo, não foi apenas um lugar de moradia que desapareceu.
“Essa é uma parte da minha vida de que eu não gosto de lembrar. Há cicatrizes que a gente prefere que fiquem guardadas”, conta.
Décadas depois, aquela menina que precisou viver provisoriamente em um barracão coberto de lona, sem privacidade e com a família ameaçada, transformou a experiência da violação do território em uma trajetória de militância e defesa dos direitos quilombolas. Hoje, Vanuza é liderança comunitária e espiritual do Abacatal e disputa uma vaga na Assembleia Legislativa do Pará (Alepa).
Da cada derrubada na infância à disputa por uma vaga na Alepa
Aos 49 anos, Vanuza do Abacatal, como é conhecida, é a única candidata quilombola do Pará na disputa por uma cadeira de deputada estadual nas eleições de 2026, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). No conjunto do país, são 212 candidaturas de pessoas autodeclaradas quilombolas entre os 20.575 concorrentes registrados no pleito, o equivalente a 1% do total.
No banco oficial de dados das eleições, o TSE disponibiliza informações sobre candidaturas, partidos, bens, propostas e prestação de contas no Portal de Dados Abertos.
Vanuza se apresenta como filha, mãe, avó, esposa, amiga, mulher negra, ativista quilombola e liderança afro-religiosa. É cientista social formada pela Universidade Federal do Pará (UFPA), onde também concluiu o mestrado por meio das políticas de ações afirmativas.
“Eu sou neta da Rosa da Matilde, sou filha da Raimunda, sou mãe do Felipe, da Tamires, do Talison, sou avó da Ana Luiza e da Aila”, afirma. A lista de vínculos familiares não é apenas uma forma de se definir; na sua trajetória, família, território e ancestralidade estão profundamente ligados.
Uma infância marcada pela disputa de terra
Vanuza é a quinta de nove irmãos. Nasceu e cresceu na comunidade quilombola do Abacatal, situada na área rural de Ananindeua, na Grande Belém. Ela conta que a organização familiar na comunidade é marcada pela presença e pelo protagonismo das mulheres.
A líder quilombola lembra que, durante sua infância, a comunidade era explorada por pessoas de fora e os moradores do território eram obrigados a pagar uma taxa para trabalhar nas próprias terras. Essa mesma regra também valia para a construção de casas. Por não obedecer e se revoltar contra essa exploração, sua família teve a casa derrubada e teve que fugir do quilombo sob ameaça de morte. Para a menina de oito anos, a experiência significou perder o pouco que possuía. “O quase nada que tínhamos, a gente perdeu tudo”, lembra.
A família passou a viver em um barracão coberto por lona, onde homens, mulheres e crianças compartilhavam o mesmo espaço. Vanuza conta que não havia privacidade nem mesmo para trocar de roupa. A lembrança continua dolorosa. Mas também se tornou parte da explicação que ela dá para a mulher em que se transformou. “Eu sei de onde eu vim, porque sei onde estou e sei onde quero chegar. Tudo isso fez você ser a mulher que é hoje”, afirma.
Do trabalho na adolescência à liderança
Aos 12 anos, Vanuza deixou temporariamente o Abacatal para trabalhar em casa de família em Belém. A ideia era estudar, mas o trabalho doméstico e o cuidado de uma criança acabaram ocupando boa parte da rotina. Ela voltou para a comunidade cerca de um ano depois.
Para continuar estudando, enfrentava outra dificuldade: até a terceira série, havia escola na própria comunidade; depois, era necessário ir até Ananindeua. Vanuza e as irmãs percorriam cerca de 12 quilômetros a pé.
A rotina começava cedo: elas saíam por volta das 5h da manhã para chegar às aulas às 7h30. Uma conhecida do pai permitia que as meninas trocassem de roupa em sua casa: saíam do Abacatal com roupas comuns, vestiam o uniforme para ir à escola e, depois da aula, trocavam novamente de roupa antes de voltar para casa.
A maternidade na adolescência também motivou sua participação na vida política da comunidade. Vanuza teve o primeiro filho aos 16 anos. Segundo ela, ouvir o choro de Felipe provocou uma mudança na forma como enxergava a própria responsabilidade e no desejo de um cenário diferente para seu filho crescer. Nesse período, passou a trabalhar na comunidade, acompanhando a mãe na roça, carregando madeira e fazendo o que fosse necessário para contribuir com a família.
Foi também nessa época que começou a participar de grupos de mulheres do Abacatal. E foi entre as mulheres mais velhas que ela se reconheceu como liderança.
“Eu não me fiz liderança, mas as pessoas me tinham como liderança”, afirma.
A participação nos grupos abriu caminho para outros espaços. Vanuza começou a participar de movimentos sociais e, ainda jovem, viajou para Brasília a fim de integrar a Marcha das Margaridas. Aos 18 anos, entrou para a associação da comunidade. A liderança foi sendo construída pela experiência, junto com seu amadurecimento e movida pela necessidade de enfrentar os problemas do território.

Tudo o que eu sou vem do território
Para Vanuza, falar sobre si é quase impossível sem falar do quilombo. “Eu não me vejo fora do Abacatal. Eu não me vejo longe do Abacatal”, afirma. Ela conta que já recusou trabalhos fora da comunidade porque não consegue imaginar sua vida distante do território.
Existe ainda uma imagem que traduz esse vínculo: a do umbigo enterrado. Segundo uma tradição contada na comunidade, quem tem o umbigo enterrado em determinado lugar mantém uma ligação permanente com aquela terra.
“Eu sou nascida e criada de um umbigo enterrado. É aqui que está minha força, minha identidade e minhas raízes”, diz.
Para ela, ser mulher quilombola significa reconhecer as mulheres que vieram antes e tudo o que elas suportaram para que as gerações seguintes pudessem ocupar espaços de estudo, decisão e representação. “Ser mulher quilombola é honrar as que vieram antes de mim e que não tiveram as mesmas oportunidades que eu”, resume.
Um quilombo cercado pela cidade
Surgido às margens do rio Uriboquinha, afluente do rio Guamá, o Quilombo do Abacatal abriga 160 famílias que vivem no território desde 1710. De acordo com os moradores, a comunidade tem origem nos antigos engenhos de cana-de-açúcar instalados próximos a Belém, ao longo dos rios Guamá, Bujaru, Acará e Moju, no nordeste do Pará.
A comunidade, que durante muito tempo teve características rurais, hoje vive outra realidade. O crescimento urbano chegou às proximidades do território e, na avaliação de Vanuza, trouxe novas pressões. Ela define a comunidade como uma “zona de sacrifício”, cercada por empreendimentos que pressionam o território não apenas ambientalmente, mas também nos campos econômico, social e cultural.

“O Abacatal está numa zona de sacrifício porque está rodeado de empreendimentos. E esses empreendimentos vão estrangulando o território”, afirma.
A preocupação é que o avanço da urbanização modifique progressivamente o modo de vida da comunidade. Segundo Vanuza, o Abacatal passou de uma realidade rural para uma condição periurbana. No futuro, teme que possa ser classificado como quilombo urbano — não porque a comunidade tenha se deslocado para a cidade, mas porque a cidade avançou sobre o território.
Ela aponta ainda o aumento da violência e os riscos para crianças e jovens como parte das transformações que preocupam a comunidade. Mas os problemas não são exclusivos do Abacatal, avalia. Em sua experiência de circulação por outros territórios quilombolas, Vanuza identifica dificuldades semelhantes: acesso limitado à saúde, educação, infraestrutura, internet, energia e outras políticas públicas.
Entre as experiências que marcaram sua atuação comunitária, uma das mais importantes foi a conquista de moradias. Quando trabalhava na Prefeitura de Ananindeua, Vanuza procurou a administração municipal para tentar conseguir uma habitação para a filha. Em vez de um apartamento, pediu a possibilidade de construir uma casa dentro do território, onde a família já possuía terra.
A partir daí, foi feito um levantamento das necessidades habitacionais do quilombo. Segundo Vanuza, o projeto resultou na conquista de 104 habitações, entre novas construções, reparos e reformas. A lembrança continua sendo uma das mais marcantes de sua trajetória.
Outra conquista citada por ela foi o transporte escolar. Antes do ônibus, seus filhos precisavam ir de bicicleta para a escola, enfrentando chuva, sol e lama. Para Vanuza, são exemplos de políticas públicas que deveriam chegar às comunidades sem que os moradores precisassem travar longas disputas para acessá-las.
A entrada na política institucional
A candidatura à Alepa não começou como um projeto político pessoal. Vanuza diz que nunca teve como objetivo entrar na política partidária; a decisão surgiu a partir de conversas com outras lideranças e da percepção de que havia uma demanda por representação quilombola nos espaços de decisão.
“Eu sempre falo que não tenho dinheiro, mas tenho coragem”, afirma. Ela conta que recebeu convites de partidos maiores, mas decidiu não aceitar propostas nas quais, segundo seu relato, sua trajetória seria utilizada apenas para conquistar uma cadeira.
Antes de decidir, conversou com as irmãs, os filhos e a família. A resistência inicial veio justamente das pessoas próximas, preocupadas com a violência e as pressões do ambiente político.
“Esse ambiente não nos quer, não foi feito para que pessoas como eu estejam nele. Os políticos eleitos estão lá para defender seus interesses e os interesses de quem os colocou lá. Precisamos de pessoas que defendam e lutem por nós também”, desabafa.
Vanuza também reconhece suas próprias contradições. Diz que costuma agir mais pela emoção do que pela razão e que isso pode ser um desafio na política institucional. Mas a experiência de anos de militância também a ensinou a negociar.
“Recusar não significa desistir, não significa ter medo. Significa avaliar estrategicamente”, afirma.
Para Vanuza, ocupar uma cadeira na Assembleia significa entrar em um espaço que considera historicamente distante das comunidades que pretende representar. Ela diz ter consciência de que chegar ao espaço institucional pode ser difícil, mas permanecer nele seria um desafio ainda maior.
Uma candidatura sem dinheiro
A campanha, segundo Vanuza, também expõe uma das dificuldades que ela identifica como razões para a baixa presença de quilombolas nas disputas eleitorais: dinheiro. Ela afirma não ter recebido recursos do partido até o momento da entrevista e relata que a campanha vem sendo construída com apoio de familiares, companheiros, militantes e pessoas que confiam em sua trajetória.
“Não é fácil construir política sem dinheiro”, afirma.
A falta de recursos, segundo ela, pesa especialmente porque os candidatos são cobrados por estrutura e apoio financeiro durante a campanha. Ao mesmo tempo, Vanuza diz contar com outro tipo de capital: a articulação construída ao longo dos anos. “Eu não tenho dinheiro, mas tenho articulação, e é essa rede que permite construir apoios e fazer a campanha avançar”, afirma.
A disputa pelo território
Se eleita, Vanuza afirma que sua principal pauta será a titulação e a certificação dos territórios quilombolas. A escolha está diretamente relacionada à experiência do próprio Abacatal. Para ela, sem a segurança jurídica sobre a terra, outras políticas públicas ficam comprometidas.
“A pauta principal é a independência territorial. É a titulação e a certificação das nossas terras”, afirma.
A candidata entende que os territórios estão em disputa com diferentes interesses econômicos e que garantir a documentação e o domínio da terra é uma condição para que as comunidades tenham maior autonomia.
A proposta, segundo ela, foi construída a partir da escuta de outros territórios. Vanuza também evita prometer que resolverá todos os problemas das comunidades quilombolas caso seja eleita. “Eu sei que não vou resolver tudo, mas quero ser a pessoa para começar”, afirma.
Para ela, a presença de uma liderança quilombola no Legislativo deve possibilitar que diferentes grupos se reconheçam naquele espaço: quilombolas, afro-religiosos, afro-indígenas e ribeirinhos.
Enquanto fala sobre a campanha, Vanuza também carrega as responsabilidades da vida cotidiana. Durante a entrevista, contou que uma das filhas estava no período de resguardo, após uma complicação de saúde no pós-parto. A rotina familiar, a maternidade, a liderança comunitária e a campanha se misturam.
“Eu sou mãe, sou política, sou liderança, sou avó, porque sou muitas outras coisas”, diz. A candidatura, para ela, não é uma trajetória individual. É sustentada pela família e pelas relações construídas ao longo de décadas. É também uma forma de abrir caminhos para as mulheres mais jovens do Abacatal e de outros territórios.
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Foto de capa: Vanuza Cardoso /Arquivo cedido
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