Análise dos resultados das eleições aponta a expansão da extrema direita nos nove estados amazônicos. Apesar do número recorde de candidaturas indígenas registradas na região em 2026, nenhum indigena foi eleito no território.
Por Adison Ferreira
A partir de 2027, a bancada da Amazônia Legal na Câmara dos Deputados será marcada pela hegemonia de partidos de centro-direita e direita. Dos 91 parlamentares eleitos pelos nove estados da região, apenas 11 (o equivalente a 12%) pertencem a legendas do campo progressista. Os outros 80 deputados (87,91%) estão distribuídos entre siglas conservadoras e de centro.
O recorte abrange os estados do Acre, Amapá, Amazonas, Pará, Rondônia, Roraima, Tocantins, Maranhão e Mato Grosso, que juntos respondem por 91 das 513 cadeiras da Câmara Federal.
Impulsionado pelo cenário nacional, onde elegeu a maior bancada do país, o Partido Liberal (PL) se destacou com a legenda com o maior número de representantes na região. Ao todo, foram 17 deputados federais eleitos pelo partido em quase toda a Amazônia Legal, garantindo presença expressiva em estados como Amazonas, Pará, Rondônia, Mato Grosso e Maranhão.
Para o cientista político Fernando Carneiro, o crescimento da extrema-direita na Amazônia Legal não é um fenômeno isolado e reflete a expansão da extrema-direita no mundo.
“Assim como tem acontecido em outros países da América Latina como Chile, Argentina, El Salvador e Colômbia, por exemplo, o crescimento da extrema-direita em nível nacional no Brasil já é um fato. Além disso, existe a interferência do imperialismo estadunidense no Brasil e na América Latina como um todo. Então, é importante observar que esse não é um fenômeno local da Amazônia Legal ou do Brasil, ele é um fenômeno mundial”, afirma Carneiro.
A média de parlamentares de direita e centro-direita na bancada da Amazônia Legal na Câmara dos Deputados em 2027 será acima da média nacional, que é de 53,8% na Câmara dos Deputados (calculado sobre o total de 513 cadeiras).
“Mas mesmo nesse cenário de destaque para o campo da direita é importante lembrar que houve até um certo crescimento para a esquerda na região, se a gente considerar aí como esquerda partidos como PT, PDT, PCdoB e PSOL. Houve um aumento no número de deputados na Amazônia Legal de 8 para 11, considerando a eleição de 2022 e 2026”, ressalta o analista.
Fernando destaca que nesse processo de expansão da extrema direita no Congresso quem mais perdeu espaço foi o chamado Centrão. Os resultados das eleições de 2026 mostraram que os partidos do centro foram os que tiveram seus quadros mais reduzidos tanto na Câmara como no Senado e essas mudanças também refletiram na bancada da Amazônia Legal.
“É importante compreender que esse fenômeno não ocorreu por uma única razão. São várias as razões que nos fizeram chegar nesse cenário. Existe uma certa desesperança causada pela crise do capitalismo e que a direita conseguiu mobilizar afetos e se apresentar como anti-sistêmica, o que ela não é. Existe um certo cansaço com o governo do PT, um antipetismo crescente e a expansão das igrejas evangélicas na região. O Norte do Brasil é a região que concentra o maior número de denominações evangélicas neopentecostais, que são elementos que geram votos na direita e na extrema-direita. Além disso, existe uma dificuldade do governo em materializar em apoio às conquistas de políticas sociais”, explica Carneiro.
Para o cientista político, outro ponto importante que ajuda a entender esse cenário é o comportamento de uma juventude que já nasceu, à exceção dos governos de Temer e de Jair Bolsonaro, sob a égide do governo do PT, e que compreende o governo petista como um poder burocrático e institucional, apontada como o próprio sistema que precisa ser combatido.
O mapa da esquerda na região
As 11 cadeiras ocupadas pelo campo progressista ficaram distribuídas entre PT, PDT, PCdoB e PSB. Os parlamentares eleitos por estado foram:
- Amapá: Josenildo (PDT), Dorinaldo Malafaia (PDT) e Professora Marcivânia (PCdoB)
- Maranhão: Erlanio Xavier (PDT), Rubens Pereira Jr. (PT) e Márcio Jerry (PCdoB)
- Pará: Dilvanda Faro (PT), Andréia Siqueira (PSB) e Airton Faleiro (PT)
- Mato Grosso: Professora Rosa Neide (PT)
- Acre: Perpétua Almeida (PCdoB)
Desafios para a agenda amazônica
A nova configuração do Congresso traz reflexos diretos para debates cruciais relacionados à Amazônia, como desmatamento, transição energética, demarcação de terras indígenas, regularização fundiária e expansão de infraestrutura. A região abrange cerca de 58% do território brasileiro, onde vivem aproximadamente 28 milhões de pessoas.
Especialistas apontam que a construção de consensos em torno de pautas ambientais e de desenvolvimento econômico exigirá articulação política ampla, uma vez que a maioria conservadora na região reflete visões distintas sobre o equilíbrio entre preservação ambiental e fomento produtivo.

Nenhum candidato indigena eleito
A expansão da direita também afetou as candidaturas indígenas. Apesar do número recorde de candidatos indígenas registrados na região em 2026, esses números não se converteram em nenhuma vitória nas urnas.
Mesmo com uma concentração de 80 das 191 candidaturas registradas pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a Amazônia Legal não conseguiu eleger nenhum candidato indigena para a Câmara dos Deputados ou para as Assembleias Legislativas dos nove estados que compõem o território.
Sobre esses resultados, Carneiro avalia que existe uma distância muito grande entre a representatividade de uma liderança e a sua eleição como deputado, principalmente se considerarmos o papel decisivo do poder econômico numa campanha eleitoral.
“61% dos parlamentares eleitos tem patrimônio declarado acima de R$ 1 milhão de reais, ou seja, são milionários. Isso mostra que a força do poder econômico para os cargos proporcionais é determinante. E isso é um elemento que não pode ser desconsiderado nesse processo da não eleição de candidaturas indígenas. O outro processo que precisa ser analisado também é que nem sempre os representantes legítimos dos seus segmentos e de suas classes conseguem transferir essa representatividade para as urnas”, afirma o cientista político.
Mesmo com votações expressivas em alguns estados, como o caso da candidata à deputada federal Vanda Witoto (REDE), no Amazonas, que registrou 43.891 votos; a candidata a deputada federal, Alessandra Munduruku (PT), no Pará, com 29.624 votos; e a candidata a deputada estadual, Auricelia Arapiun (PSOL), no Pará, que registrou 10.601 votos, o resultado não foi suficiente para garantir uma representação indígena eleita diretamente no Congresso Nacional ou nas Assembléias Legislativas.

Para Fernando Carneiro, esse cenário também ajuda a compreender que o parlamento não é o único espaço de luta e construção política dos movimentos sociais organizados.
“O Congresso ou as Assembleias Legislativas são representações da institucionalidade burguesa, não são o campo legítimo e nem prioritário dos movimentos sociais organizados. Muitos movimentos constroem a luta concreta em outros terrenos, além desses espaços institucionais. O movimento indigena no Pará, por exemplo, teve duas vitórias recentes importantíssimas como a revogação da Lei 10.820, que acabava com a educação indígena no estado, conquistada após o processo de ocupação da Seduc, em Belém; e a ocupação da Cargill, em Santarém, que impediu a dragagem do Rio Tapajós”, ressalta.
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Foto de capa: Jefferson Rudy/Agência Senado
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