Evento com patrocínio master da Hydro e Vale contará com mais de 50 atividades abertas à participação de empresas, instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil para discutir sustentabilidade, justiça climática e proteção ao meio ambiente
Por Adison Ferreira
A capital do Pará receberá, entre os dias 29 de junho e 4 de julho de 2026, a 2ª edição da Semana do Clima da Amazônia. O evento, destinado a debates sobre bioeconomia, proteção ao meio ambiente, justiça climática e transição energética, tem o patrocínio master de duas mineradoras condenadas por crimes contra o meio ambiente e com históricos de impactos socioambientais no Pará: a norueguesa Hydro e a brasileira Vale.
Em 2024, a Hydro-Alunorte foi condenada pela Justiça Federal a pagar R$ 100 milhões por contaminação de uma área em Barcarena, município da região metropolitana de Belém. O caso é de 2009. O valor foi revertido a entidades ambientais e culturais.
A denúncia destacou que o transbordamento da bacia de depósito de rejeitos sólidos (DRS), ocorrido em 27 de abril de 2009, no interior das dependências da Alunorte, contaminou o meio ambiente e poluiu o Rio Murucupi.
Na decisão, o juiz responsável pelo caso, avaliou que a Hydro-Alunorte não tomou medidas para socorrer os ribeirinhos e compensar a ausência de água potável e minimizar os danos causados. O magistrado também ressaltou que a companhia foi a responsável pelo transbordamento de lama tóxica suficiente para contaminar os rios.

De acordo com a sentença, a empresa impediu a entrada dos fiscais do Ibama em sua sede, no dia do evento, e negou a ocorrência do dano aos fiscais, embora já tivesse ciência do transbordamento.
Neste mesmo ano, a Justiça Federal condenou a corporação norueguesa a pagar R$ 50 milhões por danos causados à saúde e ao bem-estar de comunidades locais de Barcarena afetadas pela emissão de gases poluentes e névoa tóxica na região A decisão foi baseada em laudos técnicos e denúncias feitas ao longo de anos, comprovando a responsabilidade da Hydro pelos danos ambientais. A justiça reconheceu que a empresa falhou em adotar medidas eficazes para evitar a poluição, além de não cumprir com normas ambientais estabelecidas por legislações brasileiras.
Violações de direitos humanos
Em 2019, a Vale foi condenada a reparar os danos da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais, que resultou na morte de pelo menos 272 trabalhadores. A empresa ainda foi condenada na primeira instância a pagar indenização por danos morais para a família dos 131 trabalhadores mortos por conta da tragédia. De acordo com um levantamento do Repórter Brasil, a justiça cortou em 80% o valor da indenização dos atingidos na segunda instância.
Em 2025, o Ministério Público Federal (MPF) entrou com ação contra a Vale, a União e o Estado do Pará devido à contaminação por metais pesados em indígenas Xikrin do Cateté, no sudeste do Pará, causada pelas atividades da mineradora, licenciada pelo Governo do Pará. A ação, que segue na justiça, busca garantir o acesso imediato e integral ao tratamento médico para descontaminação, incluindo consultas, exames e medicamentos, custeado pela Vale.

O processo foi aberto após um estudo realizado pela Universidade Federal do Pará constatar a contaminação da população da Terra Indígena, concluindo que a origem dos contaminantes é da operação de níquel pela subsidiária da empresa, a Onça Puma, na região da Serra dos Carajás, no município de Ourilândia do Norte.
Segundo o procurador da República Rafael Martins da Silva, o episódio é semelhante à crise enfrentada pelos Yanomami, em Roraima, que levou a Corte Interamericana de Direitos Humanos a determinar medidas urgentes em 2023 contra a contaminação por mercúrio. O membro do MPF também destacou a responsabilidade objetiva da Vale, conforme a legislação ambiental brasileira.
Discurso é de sustentabilidade
O financiamento do primeiro grande encontro climático internacional em Belém depois da COP30, segue o padrão realizado pelo setor de mineração durante a Conferência Mundial do Clima, em novembro de 2025. As empresas de mineração têm aproveitado esses eventos para promover suas operações não só como “sustentáveis”, mas “essenciais” para a transição energética.

Segundo os organizadores do encontro, a 2ª Semana do Clima na Amazônia contará com mais de 50 atividades abertas à participação de empresas, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil e coletivos da região. Na programação estão previstas conferências e eventos autogestionados.
Entre os objetivos do encontro estão o monitoramento dos compromissos firmados durante a COP30, a conexão entre lideranças globais e amazônicas, a atração de novos investimentos regenerativos e o fortalecimento da participação de juventudes, mulheres e povos originários no centro das discussões sobre o clima.
De acordo com Lucimar Souza, diretora de Desenvolvimento Territorial do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), uma das organizações realizadoras, o evento foi idealizado como um espaço fundamental para ampliar a participação da população amazônica nas discussões globais sobre mudanças climáticas.
“O principal legado da primeira edição foi trazer de forma estruturada para a Amazônia o debate sobre clima e a busca por soluções para os desafios da região. Durante muito tempo, as pessoas ouviam falar das Semanas do Clima acontecendo em outros países, e realizar esse encontro em Belém permitiu ampliar a participação da população amazônica nesse debate”, destacou
A primeira edição, realizada em 2025, reuniu mais de 4 mil participantes, somou mais de 100 horas de programação e contou com mais de 35 eventos em Belém.
Além do patrocínio das empresas Vale e Hydro, o encontro também reúne uma ampla rede de correalizadores como a Secretaria do Meio Ambiente do Pará, Governo do Pará, Prefeitura de Belém, Instituto Clima e Sociedade (ICS), Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS), Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, Instituto Peabiru, IPAM Amazônia, Instituto Sincronicidade (ISPIS), Instituto Tecnológico Vale (ITV), Museu Emílio Goeldi, Natura, Parque de Bioeconomia e Inovação da Amazônia, Plataforma Parceiros pela Amazônia (PPA), Projeto Guardiãs da Floresta, Projeto Saúde & Alegria (PSA), Rede de Trabalho Amazônico – GTA, Saint-Gobain, Afya, ASSOBIO, BRC Biodiversity Research Consortium, Certi, CESUPA, Cojovem, Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), Consórcio Interestadual de Desenvolvimento Sustentável da Amazônia Legal, CONTAG, Embrapa, Emergent, FIEPA e Uma Concertação pela Amazônia.
O que dizem as mineradoras
Em nota, a Hydro afirmou que a Semana do Clima da Amazônia representa uma oportunidade de diálogo sobre o futuro do clima e o papel da Amazônia e ressaltou que o evento recebe o apoio da empresa desde a sua primeira edição, em 2025.
Na edição de 2026, a companhia destacou que promoverá dois eventos autogestionados e participará de painéis de discussão, contribuindo com debates qualificados sobre transição energética, descarbonização e desenvolvimento sustentável da Amazônia, temas diretamente relacionados ao seu propósito e aos desafios climáticos.
Em relação à transição da matriz energética, a Hydro afirmou que tem investido na ordem de R$ 12,6 bilhões em projetos de reflorestamento, economia circular, energias renováveis e tecnologias que reduzem emissões.
Como resultado desses investimentos, a companhia ressaltou que a “Alunorte tem uma das menores pegadas de carbono do mercado, tendo reduzido suas emissões de CO2 em 33% em comparação aos níveis de 2017”.
A empresa também reforçou que a Alunorte forneceu provas técnicas, feitas por instituições independentes, à Justiça demonstrando que não houve danos causados ao rio Pará pelo evento de chuva. A empresa recorreu da decisão proferida pela 9ª Vara Federal de Justiça do Pará.
“A Hydro tem o compromisso de ser uma boa vizinha e contribuir para o desenvolvimento social e a preservação ambiental dos territórios onde atua. As operações possuem as licenças e autorizações aplicáveis, atendem às normas de referência e são reportadas e supervisionadas pelas autoridades competentes”, finaliza a nota.
A reportagem também entrou em contato com a Vale para obter um posicionamento, mas não teve retorno até o fechamento desta edição.
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Foto de capa: Ignacio Palacios/Getty Images
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