Quando sobe ao palco para apresentar Ideias para Adiar o Fim do Mundo, Yumo não interpreta apenas um personagem. Ele leva consigo histórias da infância, memórias familiares, os ensinamentos do povo Apurinã e reflexões que atravessam sua própria trajetória de vida.
Por Cecília Amorim
Natural de Cacoal, em Rondônia, Yumo cresceu entre diferentes mundos. Filho do povo Apurinã, iniciou sua trajetória artística ainda na adolescência, em Espigão D’Oeste, onde participou de montagens teatrais estudantis e escreveu seus primeiros textos. Aos 19 anos, deixou sua terra natal para estudar teatro no Rio de Janeiro, uma mudança que ampliou horizontes, mas também intensificou questionamentos sobre pertencimento, identidade e ancestralidade.
Foi durante a graduação em Artes Cênicas que teve contato pela primeira vez com a obra do escritor e líder indígena Ailton Krenak. A leitura de Ideias para Adiar o Fim do Mundo provocou reflexões que o acompanham até hoje e que acabariam se transformando em matéria-prima para o espetáculo homônimo.
A peça, criada em parceria com o diretor João Bernardo Caldeira, mistura trechos inspirados nos escritos de Krenak com experiências pessoais do ator. Em cena, Yumo compartilha lembranças da infância, histórias contadas pelo pai e reflexões sobre os deslocamentos vividos por quem transita entre a aldeia e a cidade.
Uma das memórias que mais o acompanham é a de uma aroeira que plantou ainda criança. A árvore cresceu torta, tombada para um lado, contrariando as expectativas de seu pai. Hoje, ele enxerga naquela imagem uma metáfora de sua própria caminhada.
Em Ideias para Adiar o Fim do Mundo, memórias pessoais se encontram com as provocações de Krenak sobre humanidade, natureza e futuro. O resultado é um espetáculo que questiona certezas e convida o público a imaginar outras formas de existir.
Longe de assumir o papel de porta-voz de um discurso pronto, Yumo prefere pensar seu trabalho como um espaço de encontro.
“Não busco um significado fechado para estar em cena. O sentido acontece quando estou presente, quando me implico naquilo que estou contando. É nesse momento que a peça ganha vida”, conta.
Ator, dramaturgo e performer, Yumo vem construindo uma carreira marcada pela valorização das narrativas indígenas contemporâneas. E, ao transformar suas memórias em arte, reafirma algo que aprendeu ainda criança: a importância de saber quem se é e de onde se veio para imaginar os caminhos do futuro.
Entrevista | Yumo Apurinã
Como foi seu primeiro contato com o livro Ideias para Adiar o Fim do Mundo?
Conheci a obra durante a graduação em Artes Cênicas, no Rio de Janeiro. Uma professora indicou a leitura em uma disciplina sobre filosofia e estética. Foi um encontro muito importante porque as reflexões do Krenak passaram a me acompanhar dentro e fora da universidade.
O que mais chamou sua atenção no pensamento de Ailton Krenak?
Eu poderia listar muitas coisas, mas talvez a principal coisa que foi um divisor de águas na minha vida foi sobre o sonho. Ele vê o sonho como uma instituição, como algo que a gente não pode e não tem como ignorar. O sonho é um outro lugar que a gente pode habitar além dessa terra dura. É um lugar que a gente também coexiste, e pra mim foi muito primordial e me levou a me envolver mais com os meus sonhos, de fato, eu acho que tem um antes e depois. Então, eu preciso prestar muito mais atenção nos meus sonhos hoje e penso muito mais sobre eles. E com base nesse pensamento e nesse sentimento também que eu vou desenvolvendo com o sonho, o meu dia a dia vai sendo transformado no meu modo de viver aqui nesse mundo, nessa dimensão.

Há alguma passagem da obra que tenha mexido especialmente com você?
Nossa, são tantas. Mas talvez uma das que mais me marcou seja a parte em que o Krenak fala sobre as montanhas. Ele conta que alguns povos dos Andes, na Colômbia, mantêm uma relação muito próxima com elas. Quando tive contato com essa narrativa pela primeira vez, achei aquilo muito bonito, mas também muito distante, quase como uma metáfora poética.
Com o tempo, percebi que era algo muito mais concreto do que eu imaginava. Krenak fala dessa relação de troca com as montanhas: as pessoas levam presentes, oferecem comida, recebem presentes delas também. Entre os Krenak, por exemplo, ele conta que as pessoas observam a montanha para saber como será o dia. Dependendo de como ela está, decidem se é um bom momento para dançar, fazer festa ou sair para pescar. Acho isso fascinante. Essa leitura me fez lembrar das montanhas da aldeia onde cresci e também de outros seres com os quais construí relações de afeto, não apenas eu, mas toda a minha família. Lembrei de um igarapé e de uma aroeira que plantei quando era criança. Gosto de dizer que plantei aquela árvore junto com outras mudas. A aroeira é uma árvore de tronco grande e, por algum motivo, ela cresceu tombada. Meu pai dizia que eu deveria tê-la plantado mais fundo. Mas nem ele nem eu mexemos nela. Ela permaneceu ali.
Eu cresci vendo aquela árvore se desenvolver daquele jeito. Uma parte do tronco cresceu inclinada, quase deitada, enquanto a outra seguiu apontando para o céu. Quando voltei à aldeia, em 2025, fui vê-la novamente. Fotografei, toquei nela e fiquei pensando em tudo o que aquela árvore carregava da minha própria história.
Por isso essa passagem do livro me toca tanto. Ela me fez perceber que essas relações com os lugares, com as árvores, com as águas e com os outros seres não são apenas ideias bonitas. Elas fazem parte da nossa vida, da nossa memória e da forma como existimos no mundo.
Sua história pessoal aparece na peça?
Meu pai aparece no texto da peça porque foi ele quem, desde criança, sempre me lembrava quem eu era. Ele dizia que eu precisava ter orgulho da minha origem, orgulho de ser quem sou. Acho que, se ele e minha mãe não tivessem repetido isso tantas vezes, talvez eu não carregasse esse orgulho da mesma forma. Afinal, crescer entre duas famílias e duas culturas diferentes nem sempre é simples.
Na peça, também falo de uma lembrança da minha avó. Em determinado momento, digo que ela me ensinou que eu venceria porque pertenço a alguma coisa, porque faço parte de algo maior. Mas, para ser sincero, não sei exatamente de onde vem essa memória. Não sei se ouvi essas palavras dela, de alguma outra pessoa mais velha da minha família, ou se isso ficou registrado no meu corpo de alguma maneira. É uma lembrança que existe, mesmo que eu não consiga localizar sua origem.
Meu pai também é um grande contador de histórias. Ele tem uma força muito grande na oralidade. Sempre tem uma história para contar, uma lembrança para compartilhar, um caso para relembrar. Costumo dizer que ele adia o fim de muitas coisas por meio das histórias que narra. Se passássemos quarenta dias ao lado dele, todos os dias haveria uma história diferente para ouvir.
Talvez seja por isso que essa memória familiar esteja tão presente na peça. Porque contar histórias também é uma forma de manter vivos os lugares, as pessoas, os afetos e os modos de existir que vieram antes de nós.

Em algum momento você se reconhece nas perguntas feitas por Krenak?
Acho que a minha trajetória conversa com o texto o tempo inteiro. Tem uma pergunta que o Krenak faz e que atravessa toda a peça: “Somos mesmo uma humanidade?”. E existe uma outra pergunta que me acompanha desde que saí de casa, desde que deixei meu território para viver na cidade. É uma pergunta que ouvi muitas vezes das outras pessoas, mas que também passei a fazer para mim mesmo: “O que você está fazendo aqui?”
Quando abro a peça perguntando se somos mesmo uma humanidade, de certa forma eu também poderia estar perguntando: “O que você está fazendo aqui?”. São perguntas diferentes, mas que se encontram em algum lugar. Elas falam sobre pertencimento, sobre quem é reconhecido como parte de um coletivo, sobre quem tem o direito de ocupar determinados espaços.
Por isso sinto que minha história e a trajetória que o Krenak apresenta dialogam o tempo todo. Existem percursos que se parecem. Nós saímos dos nossos territórios, fomos viver na cidade, atravessamos deslocamentos e experiências que nos obrigam a refletir constantemente sobre quem somos e onde pertencemos.
Quanto à segunda pergunta, sim, existem muitas memórias da minha infância e do meu povo presentes no texto final da peça. Principalmente na parte em que deixo de olhar para o passado e passo a me perguntar sobre o presente. O texto final é um momento em que reflito sobre o que eu quero agora, o que eu preciso agora e quais caminhos desejo construir. Essas perguntas nascem das experiências que vivi, das histórias que ouvi da minha família, das lembranças da aldeia e da relação que construí com as pessoas e os lugares que me formaram. Tudo isso está presente na peça, mesmo quando não aparece de forma explícita.
Como foi construir um espetáculo inspirado em uma obra tão conhecida?
Foi um processo de muita escuta e diálogo. Não queríamos simplesmente adaptar o livro, mas criar uma experiência teatral que conversasse com aquelas reflexões e também com as vivências que eu carregava.
O que espera que o público leve para casa depois da sessão?
Espero que as pessoas saiam com perguntas. Acho que a peça convida a olhar para outras formas de existência e para outras narrativas sobre o Brasil. Talvez imaginar futuros diferentes comece justamente por aí.
Sobre a peça Ideias para Adiar o Fim do Mundo
Inspirado na obra de Ailton Krenak, o espetáculo acompanha a trajetória de um homem do povo Apurinã que revisita memórias pessoais, histórias familiares e reflexões sobre identidade, ancestralidade e pertencimento.
Misturando teatro, narrativa autobiográfica e pensamento indígena contemporâneo, a montagem propõe uma reflexão sobre a formação do Brasil, os impactos da colonização e a necessidade de imaginar outros futuros possíveis.
Em cartaz até domingo
CAIXA Cultural Belém
Até 21 de junho
Sessões às 19h
Domingo também às 16h
Ingressos: R$ 30 (inteira) e R$ 15 (meia)
Programação especial
Histórias para Adiar o Fim
Conversa entre Yumo Apurinã e a escritora indígena Márcia Kambeba
20 de junho
16h
Entrada gratuita
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Foto de capa: Dalton Valério
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