O Fundo, criticado por movimentos sociais e organizações ambientalistas, busca arrecadar um capital inicial de 25 bilhões de dólares. Proposta ainda deve angariar US$ 3,3 bilhões de investimentos públicos para receber aporte de US$ 3 bilhões prometido pela Noruega.
Por Adison Ferreira
Lançado em novembro do ano passado, durante a Conferência Mundial do Clima, em Belém, o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) só deve liberar recursos aos países com florestas tropicais em 2028. A informação foi divulgada nesta semana pela agência de notícias britânica Climate Home News, especializada em cobertura climática.
Proposto pelo Brasil, o TFF é um fundo internacional de investimentos financeiros. A proposta é distribuir parte dos rendimentos para os países com florestas úmidas conservadas. O fundo pretende arrecadar um capital inicial de 25 bilhões de dólares (135 bilhões de reais) de países e entidades filantrópicas, chamados de “patrocinadores”.
No entanto, arrecadar esses 25 bilhões de dólares em investimentos públicos e privados necessários para viabilizar pagamentos significativos pode levar anos, segundo os especialistas ouvidos pela Climate Home.
O ministro do Clima da Noruega, Andreas Bjelland Eriksen, um dos principais apoiadores da proposta, disse que “o TFFF exige escala, o que levará algum tempo”, mas acrescentou que se trata de uma “oportunidade histórica” para financiar a proteção das florestas tropicais “por gerações”.
Andrew Deutz, diretor-geral de Políticas Globais e Parcerias do WWF, uma das organizações envolvidas na concepção do fundo, afirmou que a projeção para a iniciativa angariar capital privado por meio da emissão de títulos é de dois ou três anos.
Segundo ele, o atraso não é necessariamente ruim, pois permitirá que as comunidades desenvolvam capacidades e estruturas jurídicas para lidar com o novo fluxo de recursos. “Precisa haver um processo de capacitação nos próximos dois anos com organizações indígenas e comunidades locais para que possam gerir o fluxo de fundos nesse nível”, afirmou.

Primeiro passo: arrecadar US$ 10 bilhões
Embora o TFFF tenha a meta de longo prazo de captar US$ 25 bilhões, seus proponentes afirmam que o objetivo principal para 2026 será elevar o investimento público total para US$ 10 bilhões, permitindo o início da expansão.
O fundo já arrecadou US$ 6,7 bilhões, mas a promessa de US$ 3 bilhões da Noruega exige que o TFFF alcance cerca de US$ 10 bilhões (majoritariamente de outros financiadores) até o final de 2026, caso contrário, o investimento norueguês não será concretizado.
Se a meta inicial de 10 bilhões de dólares for atingida, o fundo poderá começar a captar financiamento privado — estimado em até US$ 40 bilhões. Essa primeira parcela de US$ 50 bilhões serviria para iniciar os investimentos e provar que o modelo funciona e gera retornos.
João Paulo de Resende, líder do TFFF no Ministério da Fazenda do Brasil, disse que o país continuará os esforços de captação ao longo deste ano e mencionou uma turnê recente pelo Leste Asiático para conversar com autoridades do Japão, Coreia do Sul e China.
Apesar de ter liderado o lançamento oficial do fundo, o Brasil agora busca “compartilhar a liderança” à medida que outros países se juntam ao comitê gestor. Resende afirmou que “o projeto não pertence mais apenas ao Brasil” e que o grupo de países doadores agora desempenha um papel maior na busca conjunta por novos patrocinadores.
O TFFF deverá agora formar um comitê gestor, provavelmente presidido pelo Brasil e por um país europeu, que dará instruções ao Banco Mundial sobre a criação das estruturas formais do fundo. Espera-se que o fundo seja formalmente incorporado em alguma jurisdição europeia até o início do segundo semestre de 2026.
Ambientalistas questionam centralidade do mercado proposta pelo fundo
Apesar de ser apresentado como um modelo inovador, o TFFF é criticado por movimentos sociais e organizações socioambientais que acusam a proposta de transformar florestas em “ativos financeiros” priorizando o retorno de lucro para investidores em detrimento da conservação real.
Para Adilson Vieira, coordenador de Articulação e Parcerias da REDE de Trabalho Amazônico – GTA, o fundo é uma falsa solução e transforma a floresta em objeto de especulação. “Ele [TFFF] promete que ‘ao valorizar florestas nativas em pé, reduziremos a pobreza e promoveremos o desenvolvimento econômico, como se desenvolvimento pudesse significar mais do que acumulação sob outra aparência. Ele diz querer resolver uma ‘falha de mercado’ quando, de fato, o mercado é o agente que criou a falha: a destruição ecológica”, afirma
.Para o cacique Jonas Mura, da aldeia Gavião Real, no Amazonas, a forma de captação de recursos, através do mercado financeiro, representa a mesma lógica extrativista e orientada pelo lucro que criou a crise climática. “O governo fala em salvar as florestas, mas o que estão fazendo com esse tal TFFF é colocar um preço em nossas vidas. A floresta não é mercadoria. O que o mundo precisa não é de mais fundos, mas de respeito aos povos que mantiveram a floresta viva por milênios”, afirmou.
Para Rachita Gupta, coordenadora da organização Campanha Global para Demandar Justiça Climática (DCJ), o fundo é uma falsa solução para a crise climática. “Rejeitamos firmemente o TFFF e consideramos a proposta como o mais novo disfarce dos esquemas de mercado de carbono que colocam preço em nossas florestas e aprofundam o controle das instituições financeiras e países ricos sobre nossos territórios”.
Gupta afirma que as florestas são sistemas vivos e não devem servir de ativos para especulação do mercado financeiro. A ambientalista defende que o financiamento deveria ser público e direto.
“Precisamos de financiamento climático público, não baseado em dívidas, que vá diretamente aos povos indígenas e comunidades locais, com base em direitos, soberania territorial e autodeterminação. Justiça significa reparações do Norte Global para o Sul Global”, ressaltou.
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Foto de capa: © Dado Galdieri/Hilaea Media
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