Levantamento inédito mostra que no Acre as políticas públicas de combate à fome não levam em conta os efeitos da crise climática 

Por Cecília Amorim

Em Rio Branco, capital do Acre, o bairro Conquista aprendeu a conviver com a água, mas não da forma que deveria. Localizado em uma área cortada pelo igarapé São Francisco, um afluente do rio Acre e próximo ao Horto Florestal, o bairro reúne características que o colocam entre os mais vulneráveis a alagamentos na cidade.

Ali, a enchente não é um evento inesperado, já é parte do calendário. Historicamente, o Conquista enfrenta problemas de drenagem urbana. O sistema, antigo e subdimensionado, não acompanha o volume de água das chuvas intensas que atingem a capital acreana, especialmente durante o inverno amazônico. Quando chove forte, a água não escoa. Ela retorna, acumula, invade ruas e, rapidamente, entra nas casas.

Esse cenário se agravou nos últimos anos, à medida que eventos climáticos extremos passaram a se intensificar. Em 2023, Rio Branco registrou um dos episódios mais críticos: em apenas um dia, o volume de chuva ultrapassou 170 milímetros, sobrecarregando igarapés e estruturas urbanas. Mais de 20 bairros foram atingidos, entre eles, o Conquista.

Na comunidade, o impacto foi imediato. Ruas ficaram intrafegáveis, cobertas por água e lama. Moradores perderam móveis, eletrodomésticos e, em muitos casos, a própria casa. O acesso a serviços básicos foi interrompido, e o cotidiano precisou ser reorganizado em meio à emergência. 

Alberto Siqueira, 33, conhece bem essa dinâmica. Desde a infância já testemunhou inúmeras enchentes. Em 2023, viu a água invadir sua casa, deixando um rastro de destruição por onde passou, danificando piso, parede, fiação elétrica e transformando móveis, adquiridos com muitos esforços, em entulhos. Naquele ano mais de 32 mil pessoas foram afetadas pelas enchentes em Rio Branco.

Crise climática intensificou as enchentes no bairro Conquista, em Rio Branco/AC. (Foto: Thaís Rodrigues/ Divulgação)

Morando há 25 anos com a mãe, numa casa de dois quartos próxima ao igarapé. ele descreve o bairro como confortável e familiar.  Tem vento à noite, vizinhança conhecida, vida construída. Mas a segurança dessa vida também tem um limite visível: o nível do igarapé.

Quando sobe, a água invade casas, interrompe rotinas e contamina alimentos. Quando desaparece, isola comunidades, esvazia rios e impede a pesca. Entre esses extremos, um efeito comum se espalha silenciosamente: a dificuldade de garantir comida.

Nos últimos anos, a intensificação de eventos climáticos extremos na Amazônia, como as cheias mais fortes e secas mais prolongadas, tem empurrado comunidades inteiras para uma situação crescente de insegurança alimentar. O que antes era um evento pontual passou a ser uma condição recorrente.

Após a enchente, o cenário é de destruição: vias comprometidas, necessidade de reconstrução e uma rotina que não voltava ao normal com a mesma velocidade com que a água recuava. Mas o problema não termina quando a enchente passa.

No Conquista, como em tantos outros bairros periféricos da Amazônia urbana, os impactos se prolongam. A perda de bens compromete a renda familiar, o comércio local demora a se reerguer e o acesso a alimentos se torna mais difícil. Em comunidades de baixa renda, onde muitas famílias já vivem no limite, qualquer problema pode significar dias, ou semanas e meses de insegurança alimentar. 

Em 2023, mais de 32 mil pessoas foram afetadas pela enchente em Rio Branco/AC. (Foto: Thaís Rodrigues/ Divulgação)

O crescimento urbano de Rio Branco, como em outras cidades amazônicas, avançou sobre áreas naturalmente suscetíveis a alagamentos, sem que a infraestrutura acompanhasse esse processo. O resultado é um território onde o risco ambiental se soma à desigualdade social.

Nos últimos anos, a prefeitura iniciou obras de drenagem no bairro, reconhecendo o caráter “histórico” dos alagamentos na região. As intervenções buscam ampliar a capacidade de escoamento da água e reduzir os impactos das chuvas intensas. 

A enchente também traz a fome

Enquanto a crise climática torna as chuvas mais concentradas e imprevisíveis, bairros como o Conquista seguem expostos a um ciclo que se repete: a água chega, transforma o território e deixa marcas que vão muito além do momento da enchente. Porque, ali, a água não leva apenas objetos, ela interrompe rotinas, fragiliza economias domésticas e, muitas vezes, compromete o acesso ao que é mais básico: a comida. E nesse cenário, a alimentação passa a depender de ajuda externa.

“Teve ajuda de igrejas, de pessoas da comunidade e de alguns influenciadores locais. Isso ajudou bastante, porque muita gente realmente ficou sem nada. Mas é uma ajuda que vem naquele momento e depois vai diminuindo”, lembra Alberto. 

Quando a água baixa, a cidade segue, mas nem todos conseguem acompanhar. É no pós-desastre que o impacto mais profundo se instala. Sem renda, com perdas materiais e pouca assistência contínua, muitas famílias passam a enfrentar dificuldades para se alimentar.

Alagamentos prolongados também provocam insegurança alimentar na capital acreana. (Foto: Thaís Rodrigues/ Divulgação)

“Eu não vejo um apoio contínuo, não. O que chega é muito pontual, mais no momento da enchente. Depois, quando a água baixa, cada um tem que se virar como pode”, desabafou o morador. 

A recuperação é lenta. O comércio local demora a retomar, os preços sobem e a renda diminui. Em bairros mais vulneráveis, a alimentação passa a ser um desafio diário.

Quando a água some, a fome também chega

Se nas cidades o problema vem com o excesso de água, nas comunidades tradicionais ele também aparece com a ausência. Nos últimos anos, secas severas têm atingido os rios da Amazônia, alterando profundamente a vida de populações ribeirinhas e indígenas. Com o nível da água mais baixo, o acesso ao território se torna difícil, a pesca diminui e a produção de alimentos é comprometida.

Segundo o antropólogo Israel Araújo, diretor de pesquisa do Aruanã Instituto Pan-Amazônico, o impacto vai além da economia. “Quando a seca chega, ela não afeta só a água. Ela afeta a pesca, a agricultura, o transporte, o acesso aos alimentos. E isso muda completamente a forma como essas comunidades vivem e se organizam”.

Em comunidades ribeirinhas, o rio é estrada, mercado e fonte de alimento. Quando ele seca, tudo se interrompe. Em territórios indígenas, o impacto atinge também práticas culturais e modos de vida.

Nos últimos anos, os moradores do Acre também tem sofrido com secas severas. (Foto: Odair Leal/Amazônia Real)

“Se o rio muda, muda o modo de vida dessas populações. A forma de plantar, de pescar, de se deslocar… tudo depende desse equilíbrio. E quando esse equilíbrio é rompido, a insegurança alimentar aparece de forma muito forte”, afirma.

Um padrão invisível nas políticas públicas

O que conecta essas experiências, a enchente na cidade e a seca nos territórios, é um problema estrutural. Uma pesquisa do Aruanã Instituto Pan-Amazônico analisou sete documentos de políticas públicas do Acre e identificou uma lacuna central: as políticas de segurança alimentar não consideram as mudanças climáticas.

Os programas voltados ao combate à fome apresentam “score climático zero”, não incorporam variáveis como risco hídrico, eventos extremos ou vulnerabilidade territorial.

“As políticas são pensadas separadamente. De um lado, a agenda climática. De outro, a segurança alimentar. Mas, na prática, essas coisas estão completamente conectadas no território”, assegura o pesquisador. 

O estudo, acompanhado de um painel interativo, reúne dados territoriais, indicadores de risco hídrico e informações sobre insegurança alimentar. O resultado aponta para um problema de base: os instrumentos que deveriam garantir acesso à alimentação não consideram os impactos climáticos, mesmo em uma região onde esses eventos já afetam diretamente a produção, o abastecimento e o consumo de alimentos.

Entre os documentos analisados estão planos e programas voltados à produção agrícola, assistência social e segurança alimentar. Segundo a nota técnica, os programas mais diretamente voltados ao combate à fome apresentam “score climático zero”, ou seja, não incorporam variáveis como risco de enchentes, estiagens, eventos extremos ou vulnerabilidade territorial.

Na prática, isso significa que políticas públicas continuam sendo desenhadas com base em uma realidade estável que já não existe. Israel afirma que esse descompasso compromete a efetividade das ações. Sem considerar o clima, programas de apoio à produção familiar, por exemplo, não conseguem antecipar perdas causadas por cheias prolongadas ou secas severas, fenômenos cada vez mais frequentes na Amazônia.

Quando o risco é maior, a fome também é

O cruzamento de dados feito pelo instituto revela uma correlação direta entre clima e insegurança alimentar. Municípios classificados com alto risco hídrico apresentam taxas de insegurança alimentar quase o dobro em comparação com aqueles de baixo risco. O indicador considera a exposição a eventos como enchentes, variações no regime de chuvas e vulnerabilidade territorial.

O dado reforça que a crise alimentar no estado não pode ser dissociada da crise climática. Especialistas ouvidos pelo instituto apontam que famílias em áreas mais expostas tendem a enfrentar perda recorrente de safras, dificuldade de acesso a alimentos após eventos extremos, aumento de preços em períodos de crise e interrupção de atividades produtivas. Esse conjunto de fatores transforma eventos climáticos em gatilhos diretos de insegurança alimentar.

Essa desconexão tem efeitos diretos. Municípios com maior risco climático apresentam níveis de insegurança alimentar significativamente mais altos. E populações já vulneráveis, como comunidades tradicionais, indígenas e mulheres chefes de família, são as mais afetadas.

Um dos principais problemas identificados pela pesquisa está no período após os eventos extremos. Hoje, não existem políticas estruturadas para garantir alimentação no pós-desastre.

“Não há um plano de garantia alimentar depois da cheia ou da seca. O Estado atua na emergência, mas não acompanha o processo de recuperação. E isso faz com que as comunidades entrem em ciclos de vulnerabilidade”.

Esse ciclo se repete. A enchente leva. A seca impede. E, no meio disso, a comida falta. As mudanças climáticas têm alterado não apenas eventos extremos, mas a própria dinâmica dos territórios amazônicos.

Rios com níveis irregulares, estações menos previsíveis, períodos de cheia e seca mais intensos. Para quem depende diretamente da natureza para viver, essas mudanças são imediatas.

No bairro Conquista, Alberto segue atento ao nível da água. Observa o igarapé, avisa vizinhos, se prepara. Não porque quer, mas porque precisa.

“A gente vai aprendendo a se antecipar. Quando começa a subir, eu já aviso todo mundo, já tento mobilizar ajuda. Porque a gente sabe que, se não fizer isso, fica ainda mais difícil”.

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Foto de capa:   Marcos Vicentti/Secom-AC

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