Decisão obriga o Estado a realizar um diagnóstico ambiental e um estudo de saúde humana, no prazo máximo de 60 dias, para compreender os riscos e os impactos socioambientais do empreendimento na região

Por Eraldo Paulino

O Tribunal de Justiça do Estado do Pará determinou que o Governo do Estado e a Companhia de Desenvolvimento Econômico do Pará (CODEC) tomem providências imediatas para diagnosticar os danos ambientais e à saúde humana provocados pelo polo industrial de Barcarena, na Região Metropolitana de Belém. A decisão, assinada pelo juiz Charbel Abdon Haber Jeha ,atende a um pedido de liminar do Ministério Público do Estado (MPPA) e aponta uma “inércia estatal prolongada” de quase cinco décadas.

Na Ação Civil Pública, o MPPA argumenta que, desde a instalação do polo industrial em 1979, o Estado tem falhado em avaliar de forma sistemática os impactos da atividade industrial na região.

Ao analisar o caso, a Justiça reconheceu a urgência da situação e determinou a realização imediata de diagnósticos epidemiológicos e ambientais que avaliem, de forma ampla e transparente, os efeitos da atividade industrial sobre as comunidades locais — especialmente ribeirinhas, quilombolas e populações tradicionais que convivem com os impactos socioambientais causados pelo empreendimento. Os estudos devem ser apresentados no prazo máximo de até 60 dias.

De acordo com o Ministério Público, a instalação e expansão do polo industrial de Barcarena ocorreram sem consulta adequada às comunidades e sem a implementação de mecanismos eficazes de controle ambiental. Esse processo, segundo o órgão, gerou um quadro de degradação progressiva da qualidade de vida, contaminação ambiental e invisibilização dos impactos na saúde humana.

Para o promotor Márcio Faria, responsável pela ação, o cenário atual poderia ter sido evitado, se houvesse fiscalização mais efetiva do Estado. “Pelo histórico de ocorrências no polo industrial, é possível afirmar que os mecanismos de prevenção e controle dos órgãos ambientais não são eficientes. Após tantos anos de eventos, mudanças estruturais deveriam ter sido feitas muito antes, o que poderia ter evitado vários danos ambientais”, afirmou.

Sequência de desastres evidencia falhas estruturais

A ação do MPPA reuniu uma extensa lista de acidentes ambientais registrados em Barcarena, incluindo vazamentos de rejeitos químicos, derramamentos de óleo, contaminação de rios, explosões industriais e episódios recorrentes de poluição atmosférica.

Segundo o Comitê Nacional em Defesa dos Territórios Frente à Mineração, grupo formado por movimentos sociais e acadêmicos, desde 2000 houve 29 desastres ambientais no município. Entre os casos mais graves estão vazamentos de lama vermelha e caulim, contaminação por metais pesados, mortandade de peixes, emissão de fumaça tóxica e despejo de resíduos industriais e esgoto em cursos d’água.

Em 2018, um vazamento no entorno de uma das barragens de rejeitos da Hydro Alunorte poluiu com resíduos do refinamento de bauxita diversos cursos de água em Barcarena (Foto: Instituto Evandro Chagas/ Acervo)

Um levantamento realizado pela Carta Amazônia mostrou que nos últimos 15 anos foram registrados 8 episódios de tragédias ambientais de repercussão nacional. Entre os casos estão chuva de fuligem, contaminação por metais pesados, explosão de depósito químico e naufrágios que geraram grave contaminação hídrica e crise sanitária na região.

Linha do tempo com os principais eventos e tragédias ambientais relacionados ao polo industrial de Barcarena nos últimos 15 anos.
(Fonte: Carta Amazônia)

Para o promotor, o acúmulo desses episódios revela um problema estrutural na fiscalização ambiental. “Os mecanismos atuais de fiscalização servem mais para atender à burocracia necessária para atestar a regularidade das operações. O papel do Estado deveria ir além de um check-list de formalidades”, disse.

Segundo ele, é necessário investigar os efeitos concretos da atividade industrial sobre o território. “É preciso examinar se há externalidades ocorrendo no local e a possível relação entre os empreendimentos licenciados e a realidade das comunidades.”

Contaminação e falta de transparência

Estudos citados na ação indicam a presença de metais pesados no organismo de moradores e níveis de contaminação acima dos limites legais em água e solo. Apesar disso, segundo o MP, os dados não foram devidamente divulgados à população, nem houve oferta de acompanhamento ou tratamento adequado.

“O direito à informação ambiental é um direito fundamental, que deve ser garantido pelo Estado em linguagem clara e acessível”, afirmou Márcio Faria.

O promotor destaca que há registros oficiais que reforçam a gravidade da situação. Como a identificação de moradores contaminados com metais pesados e centenas de notificações de intoxicação por produtos industriais no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN). Entretanto, a população não tem conhecimento da real gravidade dos fatos, nem dos riscos a que está exposta.

Dados analisados pelo Ministério Público também apontam crescimento expressivo de mortes por câncer em Barcarena nas últimas décadas. Entre 2000 e 2022, o aumento foi de 636%, índice muito superior ao crescimento populacional no período.

Embora ainda não haja comprovação definitiva de causalidade, o MP destaca que a população está exposta a múltiplos contaminantes industriais, o que exige investigação aprofundada.

Acordos descumpridos e expansão industrial

A ação também aponta o descumprimento de um Termo de Compromisso firmado em 2016, no qual o Estado do Pará e a Codec reconheceram a necessidade de realizar diagnósticos ambientais e sociais na região.

Quase dez anos depois, os estudos não foram concluídos. Ao mesmo tempo, novos empreendimentos continuam sendo licenciados e incentivados, inclusive com a criação recente de uma Zona de Processamento de Exportação (ZPE), sem debate com a população local.

Na decisão, a Justiça decretou que o Estado e a Codec sejam obrigados a:realizar estudos epidemiológicos e ambientais completos; avaliar os impactos cumulativos da atividade industrial; divulgar os resultados de forma acessível; e garantir tratamento e reparação às pessoas afetadas.

Modelo de desenvollvimento sob questionamento

Para o Ministério Público, o caso de Barcarena evidencia um modelo de desenvolvimento que avança sem responder pelos impactos que produz. Sem informação adequada, sem monitoramento eficaz e sem assistência à saúde, comunidades inteiras permanecem expostas a riscos invisíveis em um dos territórios mais pressionados pela atividade industrial na Amazônia.

Caso o Governo e a CODEC descumpram os prazos, foi fixada uma multa diária de R$20.000,00, que pode chegar a R$2 milhões. O juiz descartou a possibilidade de conciliação imediata devido à gravidade do caso e determinou a citação urgente dos réus para apresentarem defesa.

Carta Amazônia entrou em contato com a assessoria de comunicação da Companhia de Desenvolvimento Econômico do Pará (CODEC) para pedir um posicionamento sobre a decisão judicial e ainda aguarda retorno.

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Foto de capa:  João Laet/SUMAÚMA

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