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El Niño ameaça repetir isolamento de comunidades ribeirinhas da Amazônia

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El Niño ameaça repetir isolamento de comunidades ribeirinhas da Amazônia

Seca de 2024 quebrou recorde histórico na região e deixou famílias sem acesso a remédios e água, acendendo um alerta para os efeitos potenciais do fenômeno no Brasil. Especialistas alertam para a repetição desse cenário em 2026.

Por Sofia Schuck

Botos mortos na beira do rio, famílias isoladas, pescadores sem peixe para vender: esse foi o retrato de diversas regiões da Amazônia em 2024, quando uma seca histórica atingiu o bioma. Agora, em 2026, com a Organização Meteorológica Mundial (OMM) monitorando um novo El Niño potencialmente recorde em formação, o temor é que o cenário de dois anos atrás volte a se repetir.

A cena marcou o auge de uma das piores estiagens já registradas no Norte, impulsionada por um El Niño persistente aliado ao aquecimento das águas do Atlântico Norte e agravado pelas mudanças climáticas. O fenômeno se caracteriza por um aquecimento periódico do mar no Pacífico que costuma durar entre nove e 12 meses, elevando as temperaturas globais e aumentando o risco de condições climáticas extrema.

Em junho deste ano, a organização meteorológica havia previsto um El Niño moderado ou possivelmente forte. As previsões mais recentes, no entanto, não são animadoras.

Segundo a OMM, a probabilidade de um evento forte em 2026 é de 30%, enquanto a chance de intensidade muito forte chega a 37%, e pode ser necessário ainda revisar a previsão para cima caso novas informações confirmem esse cenário.

O impacto já é visível fora da América do Sul: a Europa passou pela pior onda de calor já registrada na sua história durante a Semana do Clima de Londres na última semana de junho, com interrupções na geração de energia e danos à infraestrutura e a serviços básicos.

Isolamento das comunidades

Na Amazônia, o primeiro impacto de um novo ciclo de seca tende a ser o isolamento. A redução dos níveis dos rios compromete o acesso à água potável, dificulta o deslocamento e o transporte de bens essenciais, e pode isolar comunidades inteiras, afetando serviços como saúde e educação.

O caso de Envira, município do sudoeste do Amazonas, ilustra esse colapso: em 2024, um barco carregando oxigênio e medicamentos levou mais de 10 dias para chegar à cidade.

A base produtiva que sustenta ribeirinhos, indígenas e agricultores familiares também corre risco de entrar em colapso. A pesca artesanal foi duramente golpeada pela seca de 2024, com redução significativa na quantidade de peixes capturados, o que compromete tanto a segurança alimentar quanto a economia regional.

Além disso, o aumento da temperatura da água levou à alta mortandade de peixes ao longo da estiagem e também dos botos, símbolos do bioma.

No Rio Xingu, no Pará, a coleta de castanha simplesmente não ocorreu em 2025, resultando na menor safra já registrada na região.

Nessa conta, os impactos mais severos tendem a ser sentidos pelas comunidades mais vulneráveis e que menos contribuem para a crise do clima. São os periféricos, indígenas, ribeirinhos e agricultores familiares, justamente a população que sustenta a economia de subsistência da Amazônia.

Gabriela Costa, Diretora Executiva da Associação de Terminais Portuários Privados (ATP), sugere que a dragagem dos rios surge como uma possível solução rápida para conter a estiagem, capaz de manter corredores mínimos de navegabilidade em meio à seca.

Além disso, especialistas reforçam a importância da adaptação climática e das infraestruturas frente ao novo El Niño, iniciado em junho deste ano.  

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Conteúdo publicado originalmente pelo portal Exame.

Foto de capa:  Alberto César Araújo/Amazônia Real

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