Impulsionada por novo ciclo de El Niño, estiagem deste ano ameaça castigar a região que ainda tenta se recuperar dos recordes devastadores de 2023 e 2024. Pesquisadores prevêem temperaturas que podem passar de 39ºC em Belém e Manaus

Da Redação

O verão amazônico de 2026 se projeta como um dos mais severos e desafiadores das últimas décadas. Sob a influência de um novo e intenso fenômeno El Niño, o trimestre de julho a setembro deve registrar temperaturas recordes e chuvas muito abaixo da média na região. Cientistas e autoridades monitoram a situação com extrema preocupação, alertando para o impacto de mais um evento extremo em um intervalo de tempo inédito na história recente da Amazônia Brasileira.

Embora o recorde absoluto de seca na série histórica pertença ao biênio 2023–2024, quando a bacia hidrográfica enfrentou o pior cenário de vazante já medido, a gravidade de 2026 reside na falta de tempo para a regeneração da floresta e dos rios. A região mal iniciou sua recuperação do colapso hídrico de dois anos atrás e já se depara com um novo estresse ambiental massivo.

No quesito temperatura, os termômetros podem ditar novos recordes. Meteorologistas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) preveem que capitais como Manaus enfrentem picos de sensação térmica de até 49°C, enquanto Belém deve registrar máximas rotineiras próximas aos 40°C.

A combinação de calor extremo com solo ressecado coloca governos estaduais em regime de prontidão preventiva contra queimadas. Planos de contingência e decretos de emergência ambiental começam a ser articulados para mitigar o isolamento de comunidades ribeirinhas e garantir o abastecimento de água potável e mantimentos, prevendo os gargalos logísticos gerados pela descida acelerada dos rios Solimões e Madeira.

Segundo o meteorologista Humberto Barbosa, do Laboratório de Análise e Processamento de Imagens de Satélites (Lápis), o aquecimento do Oceano Pacífico atingiu 1,7 °C neste início de julho. Nesse patamar de temperatura, o El Niño passa a ser classificado como de intensidade forte. “Essas atuais condições indicam que o verão amazônico de 2026 repetirá o cenário climático parecido com o El Niño 2023-2024”.

No biênio 2023–2024 a Amazônia enfrentou uma seca severa, enquanto o Atlântico Sul mais aquecido minimizou os impactos do fenômeno sobre as chuvas no Nordeste. O fenômeno tende a adicionar ainda mais calor ao Planeta, que já registra temperaturas elevadas em razão do aquecimento global.

Registro da última seca histórica no Amazonas, intensificada pelo El Niño. Na imagem, barcos encalhados no porto de Manaus, em setembro de 2024, destacam a queda drástica no nível do Rio Negro. (Foto: Michael Dantas/AFP)

A combinação entre altas temperaturas e redução das chuvas também aumenta o ressecamento da vegetação, criando condições mais propícias para queimadas e incêndios florestais na região. Segundo o boletim do Painel El Niño 2026-2027, produzido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Amazônia deve enfrentar nos próximos três meses  uma estiagem de chuvas e temperaturas acima do normal, o que aumenta a evaporação, reduz a umidade do solo e eleva o risco de deficiência hídrica, com possíveis prejuízos às pastagens, culturas perenes e agricultura familiar.

Entenda o verão Amazônico

O “verão amazônico” é um fenômeno climático característico da região amazônica, marcado por calor intenso e baixa umidade relativa do ar. Este período ocorre durante a estação seca, que vai de julho a novembro, quando as chuvas são menos frequentes e as temperaturas podem subir significativamente.

A combinação de alta temperatura e baixa umidade durante o verão amazônico pode exacerbar problemas como a secagem de rios e lagos, a diminuição da umidade do solo, e o aumento do risco de queimadas e incêndios florestais. Além disso, a saúde das pessoas também é afetada, com um aumento na incidência de doenças respiratórias e problemas relacionados ao calor.

Apesar de ser um termo amplamente utilizado por especialistas para facilitar a compreensão, o “verão amazônico” é mais uma convenção cultural e social do que um termo científico. Na realidade, a região amazônica não possui estações definidas como inverno e verão, mas sim uma estação chuvosa e uma estação menos chuvosa ou seca. O termo “verão amazônico” é usado para descrever o período de poucas chuvas ou ausência delas, enquanto “inverno amazônico” refere-se ao período de chuvas intensas.


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Foto de capa: Fabio Costa/UFPA

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