Fenômeno climático iniciado em junho deste ano ameaça reduzir chuvas, prolongar períodos de estiagem e elevar risco de incêndios florestais na região. Território lidera o número de brigadas voluntárias e comunitárias no país.

Por Adison Ferreira

O cuidado com a floresta faz parte da rotina do professor Luiz Weymilawa Suruí, morador da Terra Indígena Sete de Setembro, em Rondônia. Foi esse cuidado que o motivou a criar, em 2021, junto com outros indígenas, a primeira brigada comunitária do povo Paiter Suruí, destinada às ações de prevenção e combate aos incêndios florestais no território.

O projeto, coordenado pela Associação Gap Ey, organização que representa os moradores da TI Sete de Setembro, foi uma resposta a uma série de incêndios no território em 2020. Muitos deles, realizados de forma criminosa por madeireiros da região. As queimadas devastaram roças, mataram diversos animais e provocaram vários problemas de saúde na comunidade.

“A brigada da etnia Paiter Suruí foi uma solução prática para amenizar os problemas de incêndios florestais no nosso território. Além do trabalho de combate às queimadas, nós também atuamos com educação ambiental, prevenção, monitoramento e controle de fogo na Terra Indigena”, afirma Luiz Suruí, idealizador e integrante da brigada comunitária da Associação Gap Ey.

Além de contar com treinamentos do Corpo de Bombeiros, o projeto também leva em consideração o conhecimento ancestral da etnia para elaborar protocolos de manejo do fogo na comunidade.

Treinamento dos brigadistas Paiter Surui, na Terra Indígena Sete de Setembro,em Rondônia. (Foto: Associação Gap Ey/Museu Paiter A Soe)

Segundo a associação, o grupo de brigadistas apresenta uma paridade de gênero, sendo 20 homens e 20 mulheres, entre jovens, adultos e sabedores, como são chamados os idosos Paiter. 

“A participação das mulheres se destacou tanto que atualmente temos uma demanda para formar uma brigada feminina. Para nós, essa iniciativa é uma forma de proteger e ao mesmo tempo incentivar a participação coletiva no cuidado com o nosso território”, destaca Luiz.

O trabalho realizado pela brigada Paiter Suruí foi fundamental para mitigar os efeitos dos incêndios florestais de 2024, o ano mais quente da história, segundo a Organização Meteorológica Mundial (OMM). Entre julho e novembro daquele ano, a Amazônia registrou um número recorde de queimadas, provocadas pelo prolongamento do período de seca e aumento dos focos de calor, intensificados pelo último El Niño, ocorrido no biênio 2023-2024.

Para evitar que esse cenário de queimadas se repita em 2026, com a chegada do novo El Niño, iniciado em junho, o grupo está reforçando o treinamento de novos brigadistas e ações de educação ambiental que envolvam toda a comunidade.

Brigada de Alter

A luta dos brigadistas Paiter Suruí para manter a floresta em pé também é compartilhada pelos integrantes da Brigada de Incêndio Florestal de Alter do Chão, no oeste do Pará. O grupo se prepara para o período de seca extrema, com a chegada do novo fenômeno climático, através da capacitação de brigadistas e do monitoramento em tempo real das áreas mais sensíveis da região.

 “O monitoramento é realizado em parceria com a empresa Umgrauemeio, através do software Pantera, que fornece dados precisos sobre focos de calor e permite respostas mais rápidas e eficientes. Além disso, a brigada mantém parcerias consolidadas com instituições como o ICMBio, o Prevfogo/IBAMA e o Corpo de Bombeiros Militar, fortalecendo a capacidade de prevenção e resposta aos incêndios florestais”, afirma Elder Stefano, diretor-presidente da brigada.

O grupo conta atualmente com 14 integrantes ativos. Segundo a coordenação, os brigadistas atuam de forma integrada, divididos entre os setores operacional, de comunicação, jurídico e de captação de dados. “Essa organização permite que a brigada desenvolva tanto as ações de combate aos incêndios quanto atividades de monitoramento, prevenção, gestão e articulação institucional”, explica Elder.

Rede de Brigadas do Baixo Tapajós

Para fortalecer as ações de enfrentamento aos incêndios florestais, a Brigada de Alter atua em conjunto com outras oito brigadas comunitárias e indígenas da região, através da Rede de Brigadas do Baixo Tapajós. A parceria funciona por meio da troca de informações, da capacitação de brigadistas e do apoio recíproco nas ocorrências, permitindo que as brigadas presentes nos territórios sejam as primeiras a responder aos incêndios.

Curso de formação para os integrantes da Rede de Brigadas do Baixo Tapajós. (Foto: Brigada de Alter/Divulgação)

Além do combate direto às queimadas, Elder ressalta que o grupo também desenvolve um trabalho contínuo de prevenção por meio de ações de educação ambiental junto às instituições e comunidades do Baixo Tapajós. Outra característica importante da brigada é a disseminação do MIF – Manejo Integrado do Fogo, uma estratégia que busca promover o uso responsável e planejado do fogo, reduzindo os riscos de grandes incêndios.

“O trabalho preventivo é essencial para diminuir a ocorrência de queimadas descontroladas. Além disso, ajuda a fortalecer a conscientização das comunidades e aumentar a capacidade de preparação dos territórios, contribuindo diretamente para a proteção das pessoas, da biodiversidade e dos recursos naturais da região”, destaca.

Galo da Serra

Outro grupo voluntário que tem se preparado para mitigar os efeitos do El Niño na floresta amazônica é a brigada Galo da Serra, do município de Presidente Figueiredo, no Amazonas. Criada em 2022, a iniciativa é uma das principais referências em prevenção e combate a incêndios florestais no estado.

Para enfrentar os impactos do novo fenômeno climático, que prevê secas severas, queda nos níveis dos rios e aumento da propagação de incêndios na região, o grupo tem intensificado ações de treinamentos de novos brigadistas em parceria com o Corpo de Bombeiros, Defesa Civil e Ibama.

Integrantes da brigada voluntária Galo da Serra, no Amazonas. (Foto; Brigada Galo da Serra/Divulgação)

Mas, apesar do reconhecimento público de sua atuação, a brigada Galo da Serra ainda enfrenta dificuldades para realizar suas ações de proteção à biodiversidade.

“Neste ano mesmo com todos os alarmes, estamos tendo dificuldades para buscar parcerias para apoio em alimentação e hospedagem dos alunos que participam do nosso treinamento. Além disso, existe o gargalo da logística, devido a distância das bases as áreas de atuação e a falta de veículos para locomoção, sempre usamos veículos próprios”, afirma Marinalva Vasconcelos, integrante e idealizadora da brigada.

Marinalva reforça que a atuação da Galo da Serra vai além do trabalho de combate a incêndios. O grupo também trabalha com ações de educação ambiental envolvendo orientações e rodas de conversa com comunitários e palestras nas escolas da região. 

Amazônia lidera o número de brigadas voluntárias no país

A Amazônia Legal é a região com o maior número de brigadas voluntárias e comunitárias do Brasil. A afirmação é de um levantamento inédito realizado pelo IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas. A pesquisa identificou 86 iniciativas que atuam com prevenção e combate à incêndios florestais na região.  Esse número corresponde a 60,5% das brigadas voluntárias e comunitárias do país.

Pesquisa mostra a presença de brigadas voluntárias em todos os estados da Amazônia Legal. (Fonte: IPÊ )

 De acordo com o mapeamento, esses grupos atuam com maior predominância em terras indígenas e unidades de conservação, o que mostra a prioridade dessas ações em áreas protegidas. Outro dado importante gerado pela pesquisa é o papel decisivo da sociedade civil na prevenção e no combate a incêndios no Brasil. Essa informação ajudou a subsidiar os estudos para a aprovação da Estratégia Nacional de Voluntariado no Manejo Integrado do Fogo, em junho deste ano.

 A Resolução, aprovada pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, reconhece a importância de milhares de pessoas que atuam no manejo integrado do fogo, através das brigadas florestais voluntárias e comunitárias no país.

A Estratégia Nacional orienta a participação da sociedade no voluntariado no manejo integrado do fogo, estimulando a troca de saberes e a colaboração entre os diferentes setores sociais, reconhecendo e valorizando sua contribuição para a proteção de paisagens, territórios, culturas e modos de vida das populações locais, para a conservação da biodiversidade e para o equilíbrio climático.

Para Angela Pellin, coordenadora do projeto Voluntariado no Manejo Integrado do Fogo, do IPÊ, a medida é um avanço para a gestão do fogo no Brasil, principalmente, diante dos riscos e da crise climática que vivemos.

“Os estudos realizados pelo IPÊ, que identificaram mais de 220 brigadas florestais voluntárias e comunitárias no país, têm uma contribuição muito importante nessa política pública, pois ajudaram a dar mais visibilidade ao trabalho realizado por essas iniciativas que são fundamentais para manter a floresta em pé”, afirma.

Além do conhecimento do território em que atuam e do desejo em contribuir para a conservação ambiental, Angela ressalta que as brigadas florestais voluntárias e comunitárias também apresentam a vantagem de estarem próximos aos locais de maior ocorrência de incêndios florestais, o que permite o desenvolvimento de ações continuadas de sensibilização, de educação ambiental e de prevenção.

Do total, R$194,4 milhões serão destinados ao Ibama, sendo R$149,2 milhões para ações de prevenção e controle de incêndios florestais em áreas federais prioritárias e R$45,1 milhões para ampliar as operações de fiscalização ambiental. A meta, segundo o Ministério do Meio Ambiente, é expandir a cobertura das ações de proteção em 148,4 mil quilômetros quadrados e realizar 167 novas ações de fiscalização.


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Foto de capa:  Brigada de Alter/Divulgação

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