Retomada de equipes de proteção territorial, monitoramento com georreferenciamento, formação de jovens indígenas e articulação entre organizações estão entre os resultados das ações apoiadas pelo Fundo LIRA em áreas protegidas da região.

Da Redação

 Na Terra Indígena Boca do Acre, no sul do Amazonas, equipes de vigilância voltaram a percorrer o território. Na Terra Indígena Nukini, no Acre, as ações de vigilância foram ampliadas. Na Terra Indígena Trincheira Bacajá, no Pará, indígenas passaram a produzir mapas, fotografias e registros georreferenciados para embasar denúncias de invasão. Também no sul do Amazonas, organizações indígenas se uniram para criar uma rede de monitoramento e formar novas lideranças.
 

As histórias seguem caminhos diferentes, mas em todos os casos, as organizações indígenas saíram mais preparadas para conduzir a proteção de seus territórios e dar continuidade a esse trabalho dentro das próprias comunidades. Os projetos fazem parte do Fundo LIRA – Legado Integrado da Região Amazônica, iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, que apoia atualmente 53 projetos em 57 áreas protegidas distribuídas por sete estados da Amazônia Legal.
 

“A proteção territorial começa nas próprias organizações indígenas. São elas que conhecem seus territórios, identificam as ameaças e definem as prioridades de atuação. O Fundo LIRA existe, entre outras coisas, para fortalecer esse trabalho e ajudar essas organizações a manter essa atuação de forma contínua”, afirma Fabiana Prado, gerente do Fundo LIRA.
 

Na Terra Indígena Boca do Acre, no sul do Amazonas, a retomada das equipes de vigilância marcou uma nova fase da Associação Indígena Apurinã Mayônaty. “A associação tinha agentes ambientais formados, mas eles estavam inativos porque não havia recursos nem equipamentos. A gente estava esquecido. Com o projeto surgiu a oportunidade de ativar esses agentes para fazer o monitoramento e acompanhar as ações predatórias que acontecem no território”, afirma Joemisson Apurinã, secretário executivo da Associação Indígena Apurinã Mayônaty.


 

Equipes de vigilância territorial durante atividade de monitoramento na TI Nukini, no Acre. (Foto: cervo VACA VISU/Divulgação)

Cortada pela BR-317, a Terra Indígena Boca do Acre convive com a entrada frequente de caçadores, pescadores e madeireiros. O projeto reorganizou as equipes de vigilância, forneceu equipamentos e capacitou jovens em fotografia, produção de vídeos e georreferenciamento para registrar ocorrências e fortalecer as denúncias encaminhadas aos órgãos competentes. “Hoje continuamos trabalhando com os equipamentos e mantemos parceria com Ibama, Funai e ICMBio. O projeto fortaleceu nosso trabalho e abriu portas para novas parcerias”, afirma Joemisson.
 

A Terra Indígena Nukini, no Acre, faz divisa com o Parque Nacional da Serra do Divisor e enfrenta desafios relacionados à caça, à pesca e à exploração ilegal de recursos naturais. O projeto Fortalecimento da Vigilância Territorial e Soberania Alimentar nas Aldeias Nukini, desenvolvido pela Associação do Povo Indígena Inū Kuī Vaka Visu do Rio Moa, fortaleceu as ações de vigilância territorial com a construção de bases de apoio, aquisição de embarcações e equipamentos, além da realização de missões de monitoramento comunitário. “A gente já fazia esse trabalho, mas não tinha barco adequado, motor, comunicação nem lugar para pernoitar. Era muito difícil. Hoje as invasões diminuíram bastante. As pessoas sabem que existe vigilância e que a comunidade está organizada para proteger o território”, afirma Paulo Nukini, cacique da Aldeia Wakavi Sul, do povo Nukini.
 

No Pará, o projeto desenvolvido pelo Instituto de Desenvolvimento Florestal e da Biodiversidade Indígena Kayapó Mekrãgnoti (IBKRIN) acrescentou uma nova dimensão à proteção territorial. Além do monitoramento em campo, as comunidades passaram a fortalecer a produção de informações técnicas para embasar denúncias e dialogar com órgãos públicos. “Nossos anciãos sempre defenderam o território. Hoje, quando fazemos uma denúncia, também apresentamos mapas, pontos de GPS, fotografias e documentos. A gente aprendeu a qualificar as nossas denúncias”, afirma Potkro Ngren Kokote, presidenta do IBKRIN.
 

A iniciativa também ampliou a formação de agentes ambientais, pesquisadores indígenas, profissionais de sistemas de informação geográfica, jovens e mulheres, fortalecendo a atuação da própria organização indígena. “Estamos preparando pessoas para atuar em diferentes áreas que fortalecem nossas organizações e a proteção do território. Esse trabalho continua muito além do projeto”, afirma Potkro.
 

Em outra ação no sul do Amazonas, o fortalecimento institucional começou antes mesmo da execução das atividades. A Organização dos Povos Indígenas do Alto Madeira (OPIAM) percorreu aldeias, ouviu as associações indígenas da região e construiu coletivamente uma estratégia de atuação. O resultado foi a criação da Rede Cuandu, iniciativa que reúne cinco associações indígenas e promove formação continuada, intercâmbio entre comunidades e apoio à implementação dos Protocolos de Consulta e dos Planos de Gestão Territorial e Ambiental.
 

“A gente foi para o chão da aldeia, ouviu as associações e construiu o projeto junto com elas. Algumas já tinham agentes ambientais, outras não tinham nenhum. A ideia foi formar uma rede para que uma comunidade aprendesse com a outra”, afirma Cleiton Gajarui, da OPIAM.
 

A rede prepara uma nova etapa de trabalho com diagnóstico integrado dos territórios, formação continuada e fortalecimento da gestão territorial. “Esse projeto despertou nossa vontade de continuar aprendendo. As leis mudam, os desafios mudam e a gente precisa manter as pessoas preparadas para proteger o território”, afirma Cleiton.
 

Para Neluce Soares, coordenadora do Fundo LIRA, o principal legado dessas iniciativas permanece nas próprias organizações indígenas. “Cada projeto responde a uma realidade diferente, mas todos deixam organizações mais preparadas para conduzir a gestão de seus territórios. Quando novas lideranças passam a participar desse trabalho, esse conhecimento permanece nas comunidades e fortalece a proteção territorial no longo prazo”, afirma. 

Sobre o LIRA

O Fundo LIRA  é uma iniciativa de apoio a projetos de impacto socioambiental em áreas protegidas. É uma iniciativa do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas que atua de forma integrada, combinando financiamento, desenvolvimento institucional das organizações de povos e comunidades tradicionais, gestão do conhecimento, inovação e articulação com políticas públicas. Ao trabalhar em rede e a partir das realidades territoriais, o LIRA contribui para a conservação da biodiversidade, justiça climática, consolidação das organizações locais e a construção de estratégias duradouras para os territórios amazônicos.

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Foto de capa: Acervo VACA VISU/Divulgação

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