Dados do Instituto Fogo Cruzado apontam que a cada 10 tiroteios realizados na Região Metropolitana de Belém, quatro ocorrem com a participação dos agentes policiais. SEGUP afirma que a pesquisa não utiliza dados oficiais do Ministério da Justiça e Segurança Pública
Da Redação
As ações policiais permanecem entre os principais motivos do elevado número de tiroteios nos oitos munícipios que integram a Região Metropolitana de Belém. Um levantamento realizado pelo Instituto Fogo Cruzado mostra que, dos 34 tiroteios ocorridos em julho deste ano, 15 foram motivados por ações ou operações policiais. Em média, a cada 10 tiroteios, quatro ocorrem com a participação dos agentes.
Além da capital paraense, a RMB é formada pelas cidades de Ananindeua, Marituba, Benevides, Santa Bárbara do Pará, Santa Izabel do Pará, Castanhal e Barcarena. De acordo com o último censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), na região vivem cerca de 2.544.868 milhões de habitantes,
A pesquisa do Instituto Fogo Cruzado aponta dados de julho de 2026. Neste período 28 pessoas foram baleadas na Grande Belém. Desse total, 24 morreram e quatro ficaram feridas. As ações policiais foram responsáveis por 43% das vítimas: 12 pessoas foram baleadas durante essas ocorrências. Entre os atingidos, os negros foram a maioria, representando 58% das vítimas de ações policiais.
“O Pará vive uma contradição profunda. Enquanto o governo projeta, de um lado, uma imagem internacional de defesa de direitos e sustentabilidade e, de outro, comunica êxitos de um Programa de Segurança Pública baseado em prevenção, os dados mostram que o Estado segue sendo um dos principais motores da violência armada dentro de seus próprios territórios”, afirma Para Eryck Batalha, coordenador regional do Instituto Fogo Cruzado no Pará.
Segundo ele, os dados reforçam um padrão persistente no estado: a política de confronto direto como eixo central da segurança pública, com resultados limitados na redução da violência.
Violência dentro de casa
As residências continuam sendo cenário de violência. Ao menos oito pessoas foram mortas dentro do ambiente doméstico. O número de atingidos é maior que o registrado em julho de 2025, quando uma pessoa foi morta a tiros dentro de casa.
Durante o primeiro semestre de 2026, 234 tiroteios foram mapeados na região metropolitana de Belém, uma queda de 20% em comparação com os primeiros seis meses de 2025, com 293 casos mapeados.
A violência na região segue sendo profundamente marcada por ações e operações policiais. Durante o primeiro semestre de 2026, houve a participação dos agentes em 45% dos registros.
O ambiente doméstico também foi afetado e o número de vítimas atingiu o maior patamar da série histórica, com 59 pessoas baleadas em residências, número 90% maior que o registrado no primeiro semestre de 2025, quando 31 pessoas foram baleadas dentro do ambiente doméstico.
Dados detalhados ao longo de julho de 2026
Municípios
Entre os municípios que compõem a região metropolitana de Belém, a capital concentrou 59% dos registros. Os municípios afetados pela violência armada foram:
● Belém: 20 tiroteios, 11 mortos e 3 feridos
● Ananindeua: 7 tiroteios e 7 mortos
● Castanhal: 5 tiroteios, 4 mortos e 1 ferido
● Benevides: 1 tiroteio e 1 morto
● Marituba: 1 tiroteio e 1 morto
Bairros
Os bairros da região metropolitana de Belém que mais registraram tiroteios ao longo do mês de julho foram:
● Campina de Icoaraci (Belém): 3 tiroteios, 2 mortos e 2 feridos
● Curuçambá (Ananindeua): 2 tiroteios e 2 mortos
● Condor (Belém): 2 tiroteios e 2 mortos
● Saudade (Castanhal): 2 tiroteios e 2 mortos
O que diz a SEGUP?
A Carta Amazônia entrou em contato com a Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Pará (SEGUP) para pedir um posicionamento sobre a pesquisa do Instituto Fogo Cruzado. Em nota, a pasta informou que a metodologia da organização não utiliza dados oficiais estipulados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o que pode gerar divergências nos indicadores e nas informações sobre a realidade do Estado.
A reportagem também perguntou à SEGUP se existe algum levantamento sobre o número de mortes nas ações policiais na RMB e a utilização de câmeras corporais por agentes da Polícia Militar, mas não teve retorno.
Sobre o Fogo Cruzado
O Fogo Cruzado é um Instituto que utiliza tecnologia para produzir e divulgar dados abertos e colaborativos sobre violência armada, fortalecendo a democracia através da transformação social e da preservação da vida.
Com uma metodologia própria e inovadora, o laboratório de dados da instituição produz mais de 50 indicadores inéditos sobre violência nas regiões metropolitanas do Rio, do Recife, de Salvador e de Belém. Por meio de um aplicativo de celular, o Fogo Cruzado obtém e disponibiliza informações sobre tiroteios, verifi cados em tempo real, sendo o único banco de dados aberto sobre violência armada da América Latina, que pode ser acessado gratuitamente pela API do Instituto ou dos relatórios produzidos mensalmente.
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Foto de capa: Mauro Pimentel/AFP
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