A reportagem avaliou os planos de governo dos seis candidatos ao cargo de Chefe do Executivo para entender quais os compromissos relacionados às agendas de clima e meio ambiente num dos estados mais afetados pela crise climática.

Por Adison Ferreira

O estado do Acre ocupa o primeiro lugar em um ranking nacional que avalia a chamada “dupla vulnerabilidade” dos municípios brasileiros: a combinação entre a alta exposição a eventos climáticos extremos e a incapacidade financeira dos cofres públicos para investir em infraestrutura de prevenção e resposta. A afirmação é de uma pesquisa do Observatório do Clima, que revelou que 77% das cidades acreanas encontram-se em situação crítica.

O estudo cruzou dados de duas fontes oficiais: a plataforma AdaptaBrasil (do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação), que mede o risco de inundações, deslizamentos e enxurradas, e o índice de Capacidade de Pagamento (Capag) do Tesouro Nacional, que avalia a saúde fiscal dos governos locais.

A chegada do Super El Niño, previsto para os meses de setembro a novembro, com possibilidade de chuvas abaixo da média na Região Norte, aumenta ainda mais a preocupação sobre os efeitos da emergência climática no estado. Esse alerta ocorre em meio à eleição, o que coloca a agenda de enfrentamento às mudanças do clima como uma das principais pautas na disputa eleitoral no Acre. 

A partir desse cenário e com base num levantamento realizado pelo jornal Varadouro, a agência Carta Amazônia avaliou os planos de gestão dos seis candidatos que disputam governo estadual: Mailza Assis (PP), Alan Rick (Republicanos), Thor Dantas (PSB) e Tião Bocalom (PSDB), Dr. Luisinho (Agir) e Eudo Raffael (PCB).

O levantamento busca entender quais são os compromissos apresentados para a agenda socioambiental e se existem medidas concretas para enfrentar os efeitos da crise climática no estado.

A análise mostra contradições profundas nas estratégias e planos de governo dos candidatos em relação ao tema. As propostas vão desde a expansão do agronegócio até a recusa de mercados de carbono por uma ótica anticapitalista. 

Um exemplo dessa contradição ocorre na comparação entre os planos de gestão dos candidatos Tião Bocalom (PSDB) e Eudo Raffael (PCB). Com uma proposta de governo pautada no agronegócio, Bocalom defende a “modernização e flexibilização” das legislações ambiental estadual e federal para viabilizar a exploração da agricultura e pecuária, enxergando regras ambientais e terras indígenas como obstáculos produtivos. 

Já o candidato do PCB apresenta uma leitura estrutural e de esquerda radical. Eudo destaca que a preservação é incompatível com o capitalismo e rejeita explicitamente os créditos de carbono e o “mercado verde”, propondo em contrapartida uma reforma agrária agroecológica, o desmembramento de latifúndios e o foco na soberania alimentar coletiva.

O que cada candidato fala sobre agenda climática?

Atual governadora do Acre, Mailza Assis, do Partido Progressistas (PP), chega às eleições de 2026 prometendo fazer da proteção da floresta e da economia de baixo carbono duas das principais marcas de um eventual novo mandato.

Mailza Assis é candidata à reeleição do Governo do Acre. (Foto:  José Caminha/Secom)

O plano de governo apresentado pela candidata à Justiça Eleitoral procura associar desenvolvimento econômico, conservação ambiental, bioeconomia e adaptação às mudanças climáticas. Ao longo de 68 páginas, o documento apresenta propostas para combater o desmatamento e as queimadas ilegais, ampliar a capacidade dos órgãos ambientais, explorar economicamente ativos florestais e fortalecer a participação de povos indígenas e comunidades tradicionais.

Entre as medidas anunciadas estão a criação de um sistema integrado de monitoramento contra o desmatamento e as queimadas ilegais, a realização de concurso público para ampliar o quadro dos órgãos ambientais e a contratação de equipes multidisciplinares para reforçar o licenciamento, a fiscalização e a proteção da floresta.

O plano também promete concluir a regularização ambiental e fundiária das propriedades rurais, auxiliar produtores na recuperação de passivos ambientais e implantar um programa estadual de educação ambiental.

Empatado tecnicamente com a candidata Mailza Assis nas principais pesquisas eleitorais para o cargo de Chefe do Executivo, o senador Alan Rick, do Partido Republicanos, promete uma gestão que prioriza a economia da floresta. A promessa contradiz com sua atuação no Senado, onde ele votou pela defesa do marco temporal e pelo novo licenciamento ambiental.

Alan Rick é senador e candidato ao Chefe do Executivo do Acre pelo Uniao Brasil. (Foto: Michel Jesus/Agência Câmara)

O levantamento realizado pelo Varadouro mostra que a questão ambiental não ganhou um capítulo próprio. Está distribuída principalmente entre as propostas para economia, produção rural, infraestrutura, cidades, turismo e Defesa Civil. A orientação geral é transformar a floresta e sua biodiversidade em ativos capazes de gerar emprego, renda e vantagem econômica para o Acre.

Apesar das numerosas referências à sustentabilidade, o documento não estabelece metas para redução do desmatamento e das queimadas nem informa quanto pretende investir na fiscalização ambiental. Também não apresenta uma política específica para garantir a participação dos povos indígenas nas decisões que afetam seus territórios.

O histórico parlamentar do candidato acrescenta novas questões à análise. No Senado, Alan Rick votou a favor do marco temporal das terras indígenas e do novo marco do licenciamento ambiental. Ao mesmo tempo, participou das discussões sobre o mercado de carbono e apoiou dispositivos relacionados à transição energética e aos combustíveis de menor emissão.

As medidas climáticas mais detalhadas estão voltadas às cidades. O plano propõe criar o Programa Cidades Resilientes, combinando obras de infraestrutura, soluções baseadas na natureza e planejamento territorial para prevenir inundações.

Em Rio Branco, o projeto Adapta Rio Branco prevê intervenções na bacia do Igarapé São Francisco, com parques lineares, bacias de detenção, reflorestamento, drenagem, recuperação ambiental e reassentamento de famílias que vivem em áreas de risco.

Também estão previstos corredores ecológicos, recuperação de igarapés, recomposição de Áreas de Preservação Permanente (APP) e apoio aos municípios na elaboração de planos de macrodrenagem.

Médico infectologista e professor da Universidade Federal do Acre (UFAC), Thor Dantas apresenta um programa de governo que tenta colocar a agenda ambiental no centro das decisões políticas, econômicas, sociais e de infraestrutura.  Entre as principais propostas do candidato do PSB estão a recuperação de áreas degradadas e o fomento à bioeconomia e ao mercado de carbono no estado.

Thor Dantas é candidato ao Governo do Acre pelo partido PSB. (Foto: Ascom/PSB)

Diferentemente dos demais programas analisados, o plano de Thor não reserva um capítulo exclusivo ao meio ambiente. Conservação da floresta, mudanças climáticas e proteção dos povos indígenas e das comunidades tradicionais aparecem como princípios que, pelo menos no papel, devem orientar todas as políticas de governo.

O programa foi organizado em cinco eixos: saúde, emprego, renda e economia; infraestrutura; segurança; e educação. A gestão pública, a governança e a inovação aparecem como a base que sustentaria essas áreas. O documento apresenta como missão a reconstrução da capacidade do Estado para “proteger o território” e conduzir o Acre a um futuro “economicamente viável, ambientalmente equilibrado e socialmente justo”.

Ex-prefeito das cidades de Acrelândia e Rio Branco, Sebastião Bocalom Rodrigues, conhecido como Tião Bocalom, é professor de matemática e ciências físicas e biológicas. Em seu plano de governo apresentado ao TSE, Bocalom coloca o agronegócio como “eixo principal” da matriz econômica acreana. O candidato propõe “modernizar e flexibilizar” a legislação ambiental para permitir uma exploração maior das terras consideradas agricultáveis.

TEx-prefeito de Acrelândia e Rio Branco, Tião Bocalom concorre ao cargo de governador do Acre pelo PSDB. (Foto: Ascom/PSDB Acre)

“O agronegócio passará a ser o eixo principal da nossa matriz econômica”, destaca o documento. Segundo reportagem do site Varadouro, a frase resume bem a concepção de desenvolvimento do candidato, que há décadas defende que a legislação ambiental, as unidades de conservação e as terras indígenas representam obstáculos ao aproveitamento produtivo do território acreano.

A flexibilização não se limita às regras estaduais. Bocalom promete atuar junto ao governo federal para alterar também a legislação nacional. “Vamos modernizar a legislação ambiental estadual e somar esforços, em nível federal, para modernizar e flexibilizar a legislação ambiental federal de tal forma a viabilizar maior exploração das nossas terras agricultáveis”, diz o plano. 

Empresário, bacharel em Direito e jornalista, Francisco das Chagas Conceição da silva, conhecido como Dr. Luisinho, participa pela primeira vez de uma disputa para o Executivo do Acre. Em seu plano de governo, o candidato do Partido AGIR propõe o conceito de “Industrialização Verde” e promete aliar o crescimento econômico à preservação dos recursos naturais da Amazônia. 

Dr. Luisinho (Agir) participa pela primeira vez de uma disputa para o Executivo do Acre. (Foto: Divulhação/Agir Acre(

No eixo de agenda ambiental, o plano argumenta que o Acre não precisa escolher entre manter a floresta em pé e desenvolver sua economia. A proposta central é transformar o meio ambiente e a biodiversidade em ativos estratégicos de desenvolvimento econômico. 

O documento apresenta propostas de estímulo ao manejo florestal sustentável e fomento da bioeconomia; a monetização de Ativos Ambientais; o Combate ao Desmatamento Ilegal; o fortalecimento da fiscalização estadual para garantir punição a crimes ambientais, a expansão da Transição Energética e Energias Limpas; a modernização e desburocratização do licenciamento ambiental; além de ações voltadas para a gestão moderna de resíduos sólidos, incentivo à reciclagem (economia circular) e a universalização do saneamento básico e da água tratada. 

Em relação à adaptação e enfrentamento de efeitos climáticos extremos, Dr. Luisinho cita propostas como a obra estruturante o Plano Antienchente do Rio Acre, que prevê a construção de eclusas e de lagoas artificiais associadas a um sistema de controle hídrico e a instalação de usinas solares flutuantes, integrando a segurança contra enchentes à geração de energia limpa e ao desenvolvimento de um novo polo turístico na região.

Candidato do Partido Comunista Brasileiro (PCB), Eudo Raffael é presidente do Sindicato dos Empregados em Estabelecimentos Bancários do Acre (Seeb-AC). Esta é a primeira vez que ele disputa um cargo eletivo público. 

Eudo Raffael também participa pela primeira vez de uma disputa para o Governo do Acre. (Foto: Ascom/PCB Acre)

Com base na análise do plano de governo registrado na Justiça Eleitoral, Eudo apresenta uma agenda climática e ambiental pautada pela ótica anticapitalista, estrutural e de defesa da Amazônia.

No eixo sobre meio ambiente, o documento afirma que a proteção da Amazônia é incompatível com o modelo de produção capitalista, que, segundo a proposta, exige a expansão predatória e o esgotamento dos recursos naturais para a obtenção de lucros. O plano propõe aliar a ciência ao conhecimento tradicional, reconhecendo as populações originárias e tradicionais como as guardiãs essenciais do patrimônio natural do bioma.

O plano também faz duras críticas ao chamado “mercado verde” e rejeita as soluções baseadas na lógica dos “créditos de carbono”, apontadas como insuficientes ou mercantilizadas da natureza. 

Em relação à agenda climática, o plano propõe diretrizes práticas de intervenção estatal e socioambiental, como o incentivo à Bioeconomia e Proteção Territorial; gestão Hídrica e Saneamento Adaptados; e defesa da reforma agrária agroecológica e Soberania Alimentar. Neste ponto, o candidato cita a divisão de latifúndios improdutivos e terras griladas, priorizando a produção coletiva e cooperativa voltada ao mercado interno e à agroecologia como resistência técnica contra a dependência do agronegócio.

Outras propostas em relação ao enfrentamento da crise climática são Transição Energética, com previsão de investimentos públicos em matrizes energéticas renováveis (como energia solar e biomassa); e a defesa dos Povos Originários e Tradicionais como medida central para a preservação ambiental e mitigação das mudanças climáticas.

Acre sem plano de ação climática

Apesar de ser um dos estados brasileiros mais afetados pela crise climática, o Acre não possui até o momento um plano de ação que aponte estratégias de como enfrentar e mitigar a crise climática. Segundo o pesquisador Guilherme Tampieri, do Instituto Clima de Política, essa mesma situação se repete em todos os estados da Amazônia Legal.

 “Nenhum dos estados amazônicos no Brasil tem um plano de ação climática, que é algo básico.  Eles podem ter sua política, que é importante. Mas não existe um plano que aponte estratégias de como enfrentar e mitigar esses problemas. Isso mostra tamanha fragilidade na governança climática nos estados brasileiros, sobretudo, nesse cenário de El Niño e de aumento de eventos climáticos”, afirma o pesquisador. 

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Foto de capa: Carta Amazônia/Reprodução

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