Em entrevista à agência Carta Amazônia, Guilherme Tampieri destaca o impacto das mudanças climáticas nas eleições de 2026 e o papel da plataforma Vote Pelo Clima. Iniciativa ajuda a ampliar a visibilidade de candidaturas alinhadas à agenda climática.

Por Adison Ferreira

Em um cenário marcado pelo aumento e pela gravidade dos eventos climáticos extremos no Brasil, como conectar eleitores a candidaturas comprometidas com a agenda climática? Essa é a pergunta que move a plataforma Vote pelo Clima, uma iniciativa do Instituto Clima de Política criada para fortalecer a democracia por meio da promoção do voto consciente. 

Lançado em 2020, o projeto se prepara para expandir sua atuação nas eleições de 2026, se consolidando como uma das principais ferramentas de transparência socioambiental do eleitorado brasileiro.

Em entrevista exclusiva à agência Carta Amazônia, Guilherme Tampieri, pesquisador e coordenador de programas e projetos do Instituto Clima de Política, falou sobre o papel do Vote Pelo Clima e o impacto da agenda climática nas eleições de 2026. 

“A iniciativa visa mitigar o abismo existente entre a alta percepção pública sobre a emergência climática e a morosidade do poder público na formulação de políticas preventivas e adaptativas. Em outras palavras, a plataforma busca mostrar aos eleitores que a escolha dos representantes políticos deve estar alinhada com a capacidade de resposta desses representantes ao enfrentamento das mudanças climáticas”, afirma Guilherme. 

Nas eleições municipais de 2024, a plataforma registrou números expressivos: reuniu mais de 1.000 candidaturas em todo o país, alcançou perto de 400 mil acessos de eleitores e obteve um índice de eleição de quase 20% dos candidatos cadastrados na ferramenta.

Plataforma ‘Vote pelo Clima’ une eleitores ao combate à emergência climática (Foto: Reprodução)

Em 2026 a edição do Vote pelo Clima traz duas importantes novidades. A primeira é uma aba com materiais de apoio para entender as propostas alinhadas com a pauta climática. São PDFs como o “Plano de 10 pontos para a política climática brasileira”, do Instituto Talanoa, ou “OC nas Eleições”, desenvolvido pelo Observatório do Clima após a consulta de cerca de 150 entidades.

Para ampliar o engajamento e a participação, este ano, a plataforma também disponibiliza um link para se inscrever em um grupo de WhatsApp para distribuição e divulgação de temas.

“Neste ano, esperamos um número de acessos muito maior, dado o que aconteceu nos últimos anos no Brasil. Tivemos eventos climáticos extremos frequentes e há outro fenômeno em curso, o El Niño, que tem mobilizado as pessoas para entenderem o que está acontecendo com o planeta em que vivemos”, destaca o pesquisador.

Além da agenda ambiental 

Guilherme explica que a plataforma foi pensada para dialogar com o eleitor e com as candidaturas a partir de 20 bandeiras políticas relacionadas à questão climática: água e saneamento, alimentação e agricultura, cultura, economia e trabalho, educação, energia renovável, gênero e raça, gestão de resíduos, governança e participação, meio ambiente, moradia e habitação, oceanos e zonas costeiras, povos indígenas e comunidades tradicionais, proteção dos animais, redução de desastres, saúde, segurança pública, tecnologia e inovação, transparência e combate à corrupção e transporte e mobilidade.

“A nossa proposta é mostrar para a sociedade que a agenda climática é um assunto que atravessa diversos outros temas além do meio ambiente. A pauta ambiental é uma dessas bandeiras, mas a questão climática não se reduz apenas ao meio ambiente.  Afinal, os efeitos da crise climática perpassam diversas outras agendas que estão no dia a dia da população”. 

Construída com o apoio de mais de 90 organizações da sociedade civil, o Vote pelo Clima amplia o monitoramento das propostas eleitorais e ajudar dar mais visibilidade para as candidaturas alinhadas à agenda climática

“Nossa mensagem é entender que o enfrentamento à crise climática não é uma pauta de esquerda ou direita, mas uma pauta de sobrevivência da espécie humana. O planeta vai continuar aí, mas nós estamos ameaçados, especialmente as pessoas mais pobres. Esse é o cerne da plataforma: desmistificar e trazer a ideia de justiça climática”, afirma Tampieri. 

Amazônia no centro do debate e sem plano de ação climática

Além dos tradicionais debates sobre economia, saúde, educação e segurança pública, as eleições de 2026 no Brasil também serão marcadas pela ameaça dos efeitos do Super El Niño e pela intensificação dos eventos climáticos extremos. Na Amazônia, os impactos podem incluir secas severas, queda nos níveis dos rios, aumento da propagação de incêndios e maior vulnerabilidade de populações ribeirinhas.

Apesar desse cenário de emergência climática, Guilherme afirma que nenhum dos estados da Amazônia Legal possui um plano de ação que aponte estratégias de como enfrentar e mitigar a crise climática. 

“Ano passado eu escrevi um artigo para a revista de estudos eleitorais do TSE [Tribunal Superior Eleitoral] em que eu fiz uma análise dos nove prefeitos que foram eleitos nas capitais da Amazônia Legal.  Nenhum deles está no espectro político à esquerda. Todos eles estão ao centro até a extrema direita e todos eles falam sobre a mudança do clima, quer seja diretamente, citando essas palavras, quer seja de outra maneira, falando sobre perdas e danos, falando sobre a importância da adaptação. Mas ao mesmo tempo, nenhum dos estados amazônicos no Brasil tem um plano de ação climática, que é algo básico.  Eles podem ter sua política, que é importante? Mas não existe um plano que aponte estratégias de como enfrentar e mitigar esses problemas. Isso mostra tamanha fragilidade na governança climática nos estados brasileiros, sobretudo, nesse cenário de El Nino e de aumento de eventos climático”. 

O custo da inação e a percepção da sociedade

Dados da Confederação Nacional de Municípios (CNM) escancaram o impacto financeiro da negligência preventiva. Entre 2013 e 2024, os prejuízos acumulados por desastres naturais no Brasil saltaram de R$ 8 bilhões para R$ 732 bilhões, gerando uma média anual superior a R$ 60 bilhões em perdas.

Ao mesmo tempo, pesquisas de opinião como Datafolha e Quest indicam uma mudança expressiva no comportamento da população: nas tragédias recentes do Sul do país, 99% dos entrevistados relacionaram diretamente os eventos extremos às mudanças climáticas.

“Apesar do diagnóstico claro e da pressão da sociedade civil, o grande entrave permanece na tradução dessa consciência coletiva em legislação e orçamentos públicos. A articulação entre União, Estados e Municípios é apontada como precondição indispensável para que o Brasil deixe o ciclo de respostas emergenciais e passe a agir na mitigação e adaptação contínuas”, destaca Guilherme. 


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Foto de capa: Carta Amazônia/Reprodução

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