Mapeamento realizado pela agência Carta Amazônia mostra a centralidade da região no conjunto de produções ligadas ao concurso. O Pará é o principal destaque do levantamento preliminar, com 98 registros na seletiva.

Por Antônio Laranjeira

O resultado do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação pode revelar mais do que uma lista de produções classificadas e finalistas. Quando organizado como base de dados, o documento permite observar a geografia do jornalismo brasileiro dedicado à defesa do meio ambiente, dos povos indígenas e das comunidades tradicionais.

A premiação foi criada pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República para reconhecer trabalhos de jornalismo, comunicação e educação midiática voltados à proteção ambiental e aos direitos territoriais. O concurso homenageia o jornalista britânico Dom Phillips e o indigenista brasileiro Bruno Pereira, assassinados em junho de 2022, no Vale do Javari, no Amazonas, durante uma viagem relacionada à apuração jornalística e ao trabalho de proteção de povos indígenas.

A partir da lista oficial de classificados e finalistas, a Agência Carta Amazônia estruturou uma base preliminar de análise territorial para identificar a distribuição das produções e dos territórios citados nos títulos participantes do concurso. Ao todo, foram analisadas 719 produções, sendo 689 classificadas e 30 finalistas. Desse total, foi possível identificar referências territoriais associadas a 26 Unidades da Federação.

O dado que mais chama atenção é a força da região Norte. Entre as UFs identificadas, o Norte aparece com 176 registros, bem à frente das demais regiões. O Pará desponta como o principal estado no levantamento, com 98 produções ou referências territoriais identificadas. Em seguida aparecem Roraima, com 26; Acre, com 22; Amazonas, com 21; e Bahia, com 18.

O resultado mostra a centralidade amazônica no conjunto de produções ligadas ao concurso. Essa presença não surpreende, considerando que a premiação homenageia Dom Phillips e Bruno Pereira e está diretamente relacionada a agendas de meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais. Ainda assim, a concentração no Norte ajuda a dimensionar como a Amazônia aparece não apenas como território de conflito, mas também como eixo simbólico, jornalístico e político da cobertura socioambiental brasileira.

Resultados do concurso

Entre os classificados, a leitura regional permite observar a amplitude do campo de produção. Esse grupo representa o conjunto mais aberto de trabalhos reconhecidos pela seleção e ajuda a identificar quais regiões conseguiram inserir suas produções no processo de avaliação nacional. A presença maior de determinadas UFs pode indicar a existência de redes jornalísticas, coletivos, organizações independentes, universidades ou veículos especializados mais conectados aos circuitos de inscrição e reconhecimento.

A ausência ou baixa presença de uma região entre os classificados, no entanto, não significa ausência de conflitos ambientais ou de experiências de comunicação nesses territórios. Pode indicar menor infraestrutura de produção, menos acesso a editais e premiações, menor capacidade de circulação pública ou dificuldades para transformar experiências locais em produtos jornalísticos inscritos em uma chamada nacional.

Entre os finalistas, a análise ganha outro significado. O recorte é menor e aponta quais produções atravessaram o processo de seleção até chegar ao grupo de maior destaque. Se os classificados mostram a presença ampliada de iniciativas, os finalistas indicam a conversão dessa presença em reconhecimento.

Comparar classificados e finalistas permite observar se uma região aparece com volume inicial, mas perde força no funil final, ou se apresenta menor quantidade de produções, mas maior presença proporcional entre os finalistas. Essa diferença é importante porque ajuda a separar quantidade de reconhecimento. Uma UF pode concentrar muitas produções classificadas e poucas finalistas. Outra pode aparecer com menos trabalhos na etapa inicial, mas alcançar maior destaque no resultado final. No recorte regional preliminar, o Norte concentra a maior parte das UFs identificadas, com 176 registros. O Nordeste aparece em seguida, com 44. Sudeste e Sul registram 18 cada, enquanto o Centro-Oeste soma 15. O predomínio nortista indica a força territorial da pauta amazônica no concurso, mas também reforça a necessidade de observar como essas produções se distribuem entre veículos locais, organizações regionais, redes nacionais e reportagens sobre territórios amazônicos feitas a partir de outros centros.

Pará na liderança

O Pará é o principal destaque do levantamento preliminar. Com 98 registros, o estado aparece isolado na primeira posição entre as UFs identificadas. O número sugere uma presença expressiva de pautas, conflitos, territórios e produções relacionadas ao estado no conjunto dos trabalhos classificados e finalistas.

Esse protagonismo pode ser lido em diferentes camadas. O Pará é um dos principais territórios da Amazônia brasileira e concentra debates sobre desmatamento, mineração, garimpo, grandes obras, rios, povos indígenas, comunidades ribeirinhas, quilombolas e disputas fundiárias. Também ocupa posição estratégica na agenda climática e ambiental, especialmente no contexto de visibilidade internacional da Amazônia.

Depois do Pará, aparecem Roraima, Acre e Amazonas, todos da Região Norte. A presença desses estados entre os cinco primeiros reforça o peso amazônico no concurso. A Bahia, em quinto lugar, aparece como principal destaque fora da Região Norte, indicando que a pauta socioambiental também se expressa com força em outros territórios, especialmente em contextos marcados por comunidades tradicionais, conflitos rurais, povos originários, zonas costeiras e disputas por terra e água.

Desigualdades na produção brasileira

A perspectiva territorial também permite identificar uma tensão recorrente no jornalismo socioambiental brasileiro. Em muitos casos, os territórios mais reportados não são necessariamente os mesmos que concentram a origem dos veículos e organizações responsáveis pelas produções. Essa diferença pode revelar uma assimetria entre os lugares onde estão localizadas as organizações produtoras e os lugares que aparecem como tema das reportagens produzidas.

Essa questão é especialmente sensível quando envolve a Amazônia, povos indígenas e comunidades tradicionais. Territórios marcados por conflitos fundiários, garimpo, desmatamento, pesca ilegal, contaminação, pressão sobre terras indígenas e impactos climáticos podem aparecer com frequência como pauta, mesmo quando a produção jornalística parte de centros urbanos distantes. Ao mesmo tempo, a presença de veículos e organizações locais entre classificados e finalistas pode indicar maior proximidade territorial da cobertura.

O levantamento mostra uma distribuição territorial preliminar, baseada na identificação de UFs nos títulos e na planilha de apuração. Mas o mapa não substitui a leitura completa de cada reportagem, nem resolve sozinho a diferença entre origem da produção e território abordado. O mapa funciona como uma primeira síntese visual da presença regional no concurso.

Metodologia utilizada

A metodologia desta análise das produções e territórios do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira de Jornalismo e Comunicação considerou apenas os trabalhos classificados e finalistas. A base foi organizada por categoria, título, status, veículo ou organização responsável, link da publicação, Unidade da Federação do veículo e Unidade da Federação da pauta, quando identificáveis. Veja mais na tabela completa.

A separação entre essas dimensões é necessária porque a origem institucional de uma produção nem sempre coincide com o território retratado. Uma reportagem pode ser publicada por uma organização sediada em São Paulo, no Rio de Janeiro, no Distrito Federal ou em outro centro de produção jornalística, mas tratar de conflitos ambientais, povos indígenas, comunidades tradicionais ou impactos climáticos na Amazônia, no Cerrado, no Pantanal ou em áreas rurais de outras regiões do país.

Nesta primeira visualização, a opção foi consolidar um mapa preliminar das UFs identificadas. A base reúne 719 produções, das quais 689 são classificadas e 30 são finalistas. Foram identificadas referências associadas a 26 UFs. Parte expressiva dos registros, no entanto, permaneceu em recortes macro ou sem UF definida. Ao todo, 448 registros ficaram classificados como macroterritoriais ou sem identificação estadual precisa.

Esse cuidado evita atribuições automáticas. Títulos que mencionam “Amazônia”, “Brasil”, “Cerrado”, “Nordeste” ou outros recortes amplos foram separados quando não havia indicação clara de uma Unidade da Federação. Casos com abrangência nacional, regional ou multiterritorial foram marcados para revisão específica.

Com os dados estruturados, a visualização dos resultados é apresentada em um mapa coroplético do Brasil, ou seja, uma visão espacial em que as cores indicam a concentração de registros por estado. Acompanhado desse mapa estão os dados por territórios do Brasil.

Reconhecimento que gera conhecimento

O objetivo dessa análise geoestatística é mostrar como a lista pública de classificados e finalistas pode ser lida como um retrato da circulação territorial do jornalismo socioambiental no Brasil. O mapa ajuda a visualizar quais estados aparecem com maior frequência na base e quais regiões concentram mais registros identificáveis.

Ao transformar a lista em base georreferenciada, o resultado do Concurso Dom Phillips e Bruno Pereira deixa de ser apenas um documento administrativo e passa a funcionar como um dado público sobre o próprio jornalismo local e na comunicação comunitária. A análise regional dos classificados mostra a extensão do campo. A análise dos finalistas mostra o núcleo de maior reconhecimento.

O destaque do Pará e da Região Norte reforça a centralidade da Amazônia na cobertura socioambiental brasileira. Ao mesmo tempo, a presença de registros sem UF definida demonstra que parte importante das produções opera não apenas na mesoescala mas também na macroescala e na microescala (como biomas, regiões, povos, redes de conflito e agendas nacionais).

Entre o mapa e a leitura das produções de jornalismo e comunicação, aparece uma questão central: quais territórios ganham visibilidade quando o jornalismo brasileiro olha para meio ambiente, povos indígenas e comunidades tradicionais?


____________________________________________

Foto de capa: Reprodução/ Antônio Laranjeira

Fique por dentro das últimas notícias da agência Carta Amazônia. Participe do nosso canal no WhatsApp e receba conteúdos exclusivos direto no seu celular.