Entre as principais consequências para a região estão secas severas, queda nos níveis dos rios, aumento da propagação de incêndios e maior vulnerabilidade de populações ribeirinhas.
Por Adison Ferreira
Os efeitos climáticos provocados pelo fenômeno El Niño em 2026 podem ser os mais intensos já registrados desde o início da série histórica, em 1950. A afirmação é da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês). A entidade confirmou oficialmente, na última quinta-feira (11), a formação do Super El Niño no Oceano Pacífico Ecuatorial.
A confirmação já era esperada por meteorologistas, depois de meses de aquecimento gradual no Pacífico e de diversas projeções indicando alta probabilidade de desenvolvimento do fenômeno climático ainda no primeiro semestre deste ano.
Segundo a NOAA, a temperatura média das águas no Oceano Pacífico já alcançou 0,7°C acima do normal. O novo patamar retirou o oceano da condição neutra observada durante grande parte da primavera no Hemisfério Norte e marcou oficialmente o início do fenômeno.
A agência norte-americana afirmou ainda que existe 63% de probabilidade de o aquecimento atual continuar subindo e atingir níveis considerados muito fortes entre o fim de 2026 e o início de 2027.
Uma das regiões monitoradas pelos pesquisadores é a chamada Niño 1+2, localizada próxima às costas do Peru e do Equador. Nesta área, o aquecimento atinge cerca de 2,7°C acima da média. De acordo com a meteorologista Estael Sias, da plataforma MetSul Meteorologia, o valor é praticamente igual ao registrado em 1997, quando a anomalia chegou a 2,8°C, e supera o observado em 2015, que estava em torno de 2,0°C na mesma época.
“Caso as projeções se confirmem, o mundo poderá enfrentar o super El Niño, classificação usada para os eventos mais intensos já registrados. Não é possível afirmar se recordes históricos serão quebrados, mas o fenômeno se desenvolve em um planeta que já apresenta temperaturas globais sem precedentes”, afirma Sias.
Mas afinal, o que é um Super El Niño?
O El Niño é um fenômeno climático natural causado pelo aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Tropical. Esse aquecimento altera padrões de vento e chuvas em escala global, com efeitos opostos em diferentes regiões do Brasil.
No Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste do país, esse fenômeno costuma reduzir as chuvas e elevar as temperaturas, o que deixa essas regiões mais vulneráveis à secas prolongadas e às queimadas. No Sul, o efeito se inverte e traz chuvas mais intensas e concentradas, elevando o risco de enchentes e deslizamentos. Nas regiões Sudeste e Centro-Oeste, ondas de calor ficam mais frequentes, geralmente combinadas com baixa umidade do ar.

Um Super El Niño ocorre quando o desequilíbrio de temperatura da superfície do mar ultrapassa +2°C em relação à média histórica. Nos últimos 150 anos, isso aconteceu apenas 4 vezes: 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Os modelos climáticos atuais indicam que 2026 pode ser o quinto. Caso se confirme, significará um intervalo de pelo menos 5 anos mais curto entre um Super El Niño e outro, o que pode estar associado ao aquecimento global e intensificação das mudanças climáticas.
Quais os principais efeitos do Super El Niño na Amazônia?
De acordo com os meteorologistas, as principais consequências do fenômeno climático para a região amazônica são secas severas, queda nos níveis dos rios, aumento da propagação de incêndios e maior vulnerabilidade de populações ribeirinhas. O registro mais recente ocorreu em 2024, quando o El Niño, combinado ao aquecimento do Atlântico Tropical, contribuiu para uma das secas mais intensas já observadas na região.
Os impactos sentidos na região em 2024 foram determinantes para o Governo do Amazonas decretar, em caráter preventivo, Estado de Emergência Climática e Ambiental em todo o território estadual. A medida, publicada no início deste mês, foi tomada com base nas projeções meteorológicas associadas ao Super El Niño e os impactos que ele deve causar até o primeiro semestre de 2027.
Risco de nova seca extrema
Na região amazônica, a possível evolução do El Niño pode provocar alterações significativas no regime de chuvas, com efeitos diretos sobre os sistemas hidrológicos, os ecossistemas e as populações locais.

Outro efeito crítico associado ao fenômeno é o aumento do risco de incêndios florestais, especialmente em um contexto de temperaturas mais elevadas e menor umidade. Segundo os especialistas em clima, o El Niño atua como um fator de amplificação do aquecimento global.
“O fenômeno cria condições ambientais altamente favoráveis para que queimadas iniciadas localmente se tornem mais intensas, extensas e difíceis de controlar”, afirma Isabelle Vilela, especialista em mudança do clima do Observatório Regional Amazônico, da OTCA.
Impactos socioeconômicos
A redução dos níveis dos rios pode comprometer a navegabilidade na região, afetando o transporte de alimentos, combustíveis e insumos. Setores como agricultura, pesca e energia também podem sofrer perdas significativas.
Populações ribeirinhas e indígenas estão entre as mais vulneráveis, com riscos relacionados ao acesso à água, segurança alimentar e isolamento geográfico.
“A redução dos níveis dos rios compromete o acesso à água potável, dificulta o deslocamento e o transporte de bens essenciais, e pode levar ao isolamento de comunidades, afetando serviços básicos como saúde e educação”, afirma a especialista da OTCA.
Entretanto, no caso da Amazônia, impactos como secas severas, queda nos níveis dos rios e aumento do risco de incêndios não dependem apenas da intensidade do El Niño no Pacífico. “Esses impactos não dependem de um único fator. O aquecimento anormal do Atlântico tropical pode mudar o regime de chuvas e agravar a seca na Amazônia, enquanto o estado do solo e da vegetação pode intensificar ou amenizar esses efeitos”, esclarece Vilela.
A especialista complementa que, embora não seja possível afirmar que os eventos extremos recentes vão se repetir, a combinação entre a variabilidade climática e o aquecimento global mantém elevado o risco de impactos importantes na Amazônia, especialmente se a projeção de ocorrer o Super El Niño, como foi o caso em 2015-2016.
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Foto de capa: NOAA/ Reprodução
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