Ativos ambientais são gerados sobre terra reivindicada pela União; detentor da área nega irregularidade e diz que imóvel é mais antigo que assentamento criado em 2005.
GRILAGEM.COM | Capítulo 5
Por Ruan Martins
“O meu sócio é ócio de 70 empresas no Brasil, um bilionário. Ele tem até jato de 200 milhões e tal. Ele é um cara forte! E ele é sócio de um banco, tá? O banco é do filho dele”, gabou-se o empresário Marco Antônio de Melo durante uma chamada de voz efetuada pelo WhatsApp, no fim de julho de 2025, após um repórter do Subsolo o abordar passando-se pelo assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar algumas das fazendas que ele havia colocado à venda no site Mercado de Terras.
Nos primeiros instantes de uma ligação que durou 39 minutos, ele contou que tem 12 fazendas na Amazônia e que está vendendo a maior parte delas porque se tornou “bem-sucedido” em um projeto de créditos de carbono desenvolvido em uma de suas áreas. “Eu já tenho 2,6 bilhões de reais que vão entrar pra mim, e eu não tenho necessidade de querer ganhar mais dinheiro”, afirmou. Poucos meses depois dessa ligação, o seu projeto “bem-sucedido” estaria no meio de um dos maiores escândalos de corrupção da história do Brasil.
Antes que isso acontecesse, porém, Marco Antônio, que mora em Botucatu, a 240km de São Paulo, revelou como começou a empreender na Amazônia. Na ligação, ele contou que suas primeiras aquisições de imóveis na região tiveram início em 2008 e foram motivadas pela expectativa de extrair madeira nobre da floresta e exportá-la para Quebec, no Canadá, em parceria com a Indústria de Pisos do Amazonas. O negócio da madeira lhe rendeu um lucro de 15 milhões de reais e, com esse dinheiro, ele adquiriu várias fazendas. “Na época, era em torno de 300 reais o hectare. Então, eu consegui fazer aquisição de bastantes áreas. Só que aí eu pulei para o crédito de carbono – o dólar tinha caído em 2011 e não estava compensando, naquele momento, mexer com manejo florestal e exportação”, explicou.
Durante a chamada, Marco Antônio falou sobre um imóvel de 145 mil hectares que não estava entre as áreas colocadas à venda no Mercado de Terras. Segundo ele, essa propriedade não poderia ser vendida nesse momento porque a Corregedoria de Justiça do Estado bloqueou, de forma cautelar, em 2024, as matrículas de todas as fazendas com mais de 50 mil hectares nos municípios de Lábrea e Apuí. Esse bloqueio ocorreu após a Operação Greenwashing, da Polícia Federal (PF), desmontar um esquema de extração ilegal de madeira e venda de créditos de carbono sobre terras públicas nesses dois municípios. Segundo as investigações, os criminosos teriam faturado 800 milhões de reais com o esquema.
A propriedade cuja matrícula foi bloqueada é conhecida como Fazenda Floresta Amazônica e tem 99,6% de sua área sobreposta ao Projeto de Assentamento Extrativista (PAE) Aripuanã-Guariba, localizado no município de Apuí, no sul do estado. O PAE foi criado, em 2005, pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) para assentar 80 famílias pobres e promover o uso sustentável da floresta nesta região. A compra do imóvel por Marco Antônio teria acontecido apenas em 2009, quatro anos após a criação do assentamento. Segundo o INCRA, a matrícula do imóvel não contém “título de origem idôneo” e a terra foi incorporada ao patrimônio da União, em 1982, quando ainda não havia qualquer título de propriedade registrado sobre a área. Uma transcrição da sua matrícula, realizada em 1963, contém a informação de que o imóvel está localizado em Apuí, município que, na verdade, só viria a ser criado em 1987.

Procurado pela reportagem em julho de 2026, Marco Antônio disse que fez a aquisição de boa-fé e que o cartório local confirmou a legitimidade do imóvel. Segundo ele, “não existe nenhuma informação oficial de irregularidade, apenas dois erros de digitação em duas palavras, os quais não alteram a sua essência e cuja correção já foi solicitada”. Ele também afirmou que “servidores do INCRA parecem ter interpretado esses lapsos como irregularidade, divulgando informações pautadas em meras suposições” e que “até o presente momento, não existe qualquer documento oficial de cancelamento, declaração de irregularidade definitiva ou nulidade contra o título da Fazenda Floresta Amazônica”. Em relação ao bloqueio feito pela Corregedoria de Justiça, ele explicou que “o que vigora é um procedimento administrativo de fiscalização de caráter generalizado, e não uma sanção específica direcionada a essa propriedade”.
Marco Antônio acrescentou ainda que “foi apresentado ao INCRA, em 2021, toda a documentação do imóvel”. Na ocasião, a autarquia teria emitido o Certificado de Cadastro de Imóvel Rural (CCIR), um documento que comprova a regularidade cadastral da propriedade. Segundo ele, a equipe do INCRA teria recomendado expressamente, na presença da diretoria da autarquia, a realização de georreferenciamento para “desvincular” o PAE da Fazenda Floresta Amazônica. Suas respostas completas podem ser encontradas aqui no ítem 5.A.
O INCRA, por outro lado, informou à reportagem que protocolou um pedido de cancelamento da matrícula do imóvel em 12 de janeiro de 2026.
Três andares de ativos
A sobreposição com uma terra da União não impediu que ao menos três projetos de comercialização de ativos ambientais fossem concebidos sobre a área reivindicada por Marco Antônio. A seguir, Subsolo explica como cada um deles funcionava.
Unidade de Crédito de Sustentabilidade
O primeiro desses projetos consiste na criação de Unidades de Crédito de Sustentabilidade (UCS), um ativo criado pela empresa Brasil Mata Viva (BMV) para remunerar proprietários que assumem o compromisso de manter a floresta em pé por, pelo menos, 25 anos. O cálculo da compensação é feito com base em uma metodologia desenvolvida pela economista Maria Tereza Umbelino, CEO da empresa. No início do processo, é realizado um levantamento para avaliar 27 serviços ambientais prestados pela área de mata do imóvel, os quais incluem desde a quantidade de carbono ali armazenada até a biodiversidade nela presente. Na sequência, as UCS são auditadas, certificadas e registradas em blockchain¹. No caso da Fazenda Floresta Amazônica, a empresa responsável pela auditoria foi a TÜV Rheinland; a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) ficou encarregada de validar a metodologia.
Depois de registradas em blockchain, as unidades podem finalmente ser adquiridas por pessoas ou empresas interessadas em compensar suas emissões de dióxido de carbono (co2). O preço da UCS varia de acordo com a cotação de outras commodities no mercado internacional, como soja e madeira. De um lado, quem compra a UCS recebe um selo que atesta a conformidade socioambiental das suas atividades. Do outro, os proprietários garantem uma renda anual para conservar a floresta. Em tese, a divisão da quantia proveniente da venda é feita igualmente entre os proprietários, as associações de produtores rurais locais e a IMEI (braço da BMV responsável por estruturar os ativos). De acordo com Maria Tereza, o faturamento anual da BMV é da ordem de cinco milhões de reais e decorre das taxas que a empresa cobra para certificar cada UCS.
Segundo o site da BMV, até 2024, foram “transacionadas” 232 milhões de UCS oriundas da Fazenda Floresta Amazônica. A empresa explica que cada transação corresponde à troca de titularidade do ativo, e essa troca pode se dar tanto por venda, quanto por doação ou herança. Um painel que reúne dados de parte das vendas de UCS no intervalo que vai de junho de 2018 a abril de 2024 mostra que o imóvel de Marco Antônio gerou 8.075 das 15.083 UCS totais comercializadas nesse período. Essas vendas produziram um faturamento de 2,18 milhões de reais, dos quais 1,17 milhão foi gerado pelo imóvel de Marco Antônio.
A principal compradora das unidades de crédito ligadas à Fazenda Floresta Amazônica foi a Mina Tucano, empresa que opera uma mina a céu aberto no município de Pedra Branca do Amapari, no Amapá. A companhia desembolsou 709 mil reais na compra de 5.146 UCS. O segundo maior comprador dessas unidades foi o Banco da Amazônia, que adquiriu 716 UCS a um custo total de 125 mil reais. Procurados pela reportagem, o Banco da Amazônia e a Amapá Minerals, holding que assumiu o controle da Mina Tucano em 2025, não se manifestaram.
Subsolo analisou 224 propriedades listadas pela BMV e descobriu que, além da área reivindicada por Marco Antônio, outros 31 imóveis com algum tipo de sobreposição a terras públicas na Amazônia comercializaram UCS. Quase todos esses imóveis estão sobrepostos a terras de domínio do INCRA. Em um caso específico, porém, a Fazenda Mataporã está totalmente sobreposta à Terra Indígena Manoki, em Mato Grosso, cujos limites foram reconhecidos pelo Ministério da Justiça em agosto de 2008. A homologação² da área foi suspensa pelo ministro da Suprema Corte Flávio Dino, em junho de 2026, para permitir a realização de uma audiência de conciliação entre os manokis e os ocupantes não indígenas.
Ao Subsolo, o departamento jurídico da BMV afirmou que a empresa atua dentro da legalidade e que não confirma nem nega o número de imóveis sobrepostos a terras públicas encontrados pela reportagem. A empresa disse, todavia, que monitora continuamente a situação fundiária de todas as 500 propriedades que integram seu portfólio e remove aquelas que não estão em conformidade com a legislação vigente. Como exemplo, a empresa disse ter interrompido, em 2014, a geração de UCS sobre o imóvel reivindicado por Marco Antônio porque ele não forneceu o georreferenciamento da área. A BMV também assumiu o compromisso de avaliar a situação da Fazenda Mataporã e paralisar a comercialização dos ativos da nova safra até que tudo seja esclarecido.
Marco Antônio diz que recebeu apenas 21 mil reais pela comercialização de UCS e que a BMV não lhe pagou a parte que lhe é de direito. Maria Tereza, por sua vez, afirma que essa informação não procede.
Os tokens de preservação da Greener
O segundo projeto criado sobre o mesmo imóvel resultou na conversão da floresta em ativos digitais conhecidos como tokens. Como contou Marco Antônio, “têm negócios que são até melhores que o manejo. Anota aí! Estão tokenizando as fazendas de floresta e vendendo no mercado mundial”. No caso da Fazenda Floresta Amazônica, os serviços ambientais fornecidos pelo imóvel foram convertidos em Greener Preservation Tokens (GPT), cuja unidade equivale a uma tonelada de emissão de co2 evitada.
O GPT foi criado pela Greener, plataforma lançada em setembro de 2022 a partir de uma parceria entre a empresa de tecnologia Dax Green e a gestora de fundos Reag Investimentos. Os tokens seriam administrados, então, pela Sião S.A, e controlados por dois fundos geridos pela própria Reag. Uma reportagem da revista Carta Capital, publicada na semana de lançamento da Greener, reportou que os ativos que lastreavam os tokens da plataforma estavam também sob a administração da empresa Golden Green S.A.
Dentre as empresas que adquiriram GPTs provenientes do imóvel de Marco Antônio, está a Insider, marca de roupas que teria investido 100 mil reais para compensar suas emissões de co2. Em resposta a uma reportagem da revista Globo Rural, a Greener afirmou ter feito uma venda única de GPTs ligados à Fazenda Floresta Amazônica pelo preço de 6 mil dólares (ou 30 mil reais) em outubro de 2024. Desse total, 5% teriam ido para a conta da Associação Agroextrativista Aripuanã-Guariba (ASAGA), que representa as famílias que trabalham com a extração de óleo de copaíba no assentamento. À revista, Marco Antônio disse que o projeto ainda estava em fase de estruturação e, por isso, “nunca ocorreu nenhuma venda” de tokens e “nunca assinou contrato autorizando a comercialização de ativos gerados em sua propriedade”. “Minha regra é que não saia nenhum ativo da Sião enquanto não resolver a questão com o INCRA”, explicou.
Claudio Olimpio, um dos fundadores da DaX, afirmou ao Subsolo que não exerce qualquer função na empresa há mais de um ano. Apesar disso, ele esclareceu que, durante a sua atuação como CEO da companhia, “a DaX prestou serviços de desenvolvimento tecnológico voltados à estruturação e tokenização de ativos ambientais” e que “no curso do Projeto Greener surgiram apontamentos relacionados à regularidade fundiária da área”, o que teria levado a empresa a suspender todas as atividades relacionadas ao projeto que, posteriormente, “foi descontinuado e, conforme as informações de que disponho, a DaX também encerrou sua atuação no segmento de tokenização de ativos ambientais, não desenvolvendo atualmente qualquer atividade nessa área”. Ele também afirmou que nenhum GPT vinculado ao imóvel de Marco Antônio foi comercializado. “Por fim, desconheço qualquer vínculo, operação ou relação envolvendo os demais nomes, empresas e instituições mencionados na apuração, além das relações contratuais e documentais às quais tive acesso durante minha atuação na empresa”, concluiu ele, referindo-se à Reag, à BMV, à Sião S.A e à Golden Green, cujos nomes estavam no pedido de comentários enviado por Subsolo. A nota completa pode ser encontrada aqui no ítem 5.B.
Os créditos de carbono
O terceiro esquema criado sobre a área da Fazenda Floresta Amazônica é o projeto de créditos de carbono “bem-sucedido” que Marco Antônio contou ter desenvolvido com seu sócio bilionário. Em projetos dessa natureza, as empresas que desejam compensar suas emissões de carbono adquirem créditos de iniciativas que comprovadamente sequestram co2 da atmosfera ou reduzem e evitam essas emissões. Nesse mercado, cada tonelada de co2 equivale a um crédito, que é convertido em moeda corrente e utilizado para remunerar os responsáveis pela iniciativa. Quanto mais rigoroso for o processo de certificação do projeto, maior tende a ser o preço de cada crédito. No caso de Marco Antônio, ele e seu sócio seriam compensados para evitar que o imóvel fosse desmatado e lançasse na atmosfera todo o carbono nele armazenado. Na ligação, ele explicou que o lucro de um projeto de créditos de carbono é igual (ou maior) ao do manejo florestal, embora mais “complexo de vender”. “Já a madeira não. É fila de gente querendo comprar”, afirmou.
Durante a chamada, Marco Antônio contou que o levantamento do estoque de carbono da área foi feito pela UNESP e validado pela KPMG. De acordo com ele, a universidade encontrou 168,8 milhões de toneladas de co2 armazenadas no seu imóvel (ou, como ele diz, unidades de estoque de carbono – UEC) e, agora, todo esse estoque estava sob a administração da Sião S.A, empresa controlada por dois fundos geridos pela Reag. A Sião é a mesma companhia que administrava parte dos GPTs da Greener.
Por meio de registros da Junta Comercial de São Paulo, a reportagem descobriu que a Sião foi registrada, em agosto de 2020, com outro nome e sob outra categoria de atuação. Criada como uma loja de miudezas, situada no bairro Cidade Monções, em São Paulo, a empresa se chamava Pereira e Silva Comércio de Armarinhos S.A., com capital social de 100 reais. Cerca de três anos depois, em junho de 2023, a companhia passou por uma série de transformações, as quais envolveram a alteração do nome para Sião e uma nova sede na Avenida Brigadeiro Faria Lima, o centro financeiro do país. Mais do que a troca de nome, a mudança de endereço refletia o novo status da empresa que, com a remodelação, passara a deter um capital social da ordem de 26,5 bilhões de reais e se tornara uma gestora de ativos intangíveis não financeiros, categoria que inclui softwares, marcas, patentes e créditos de carbono. Na gestão da empresa, os antigos diretores foram destituídos e, em seu lugar, assumiram Silvano Gersztel e Antonio José Santos Guimarães, ambos sócios da Reag.
Esses dois sócios da Reag também ocupavam a posição de diretores da Golden Green S.A, companhia detentora dos mesmos ativos que teriam sido usados para lastrear os tokens da Greener. Assim como a Sião, a Golden Green nasceu com outro nome e um capital social muito inferior. Anteriormente denominada N.R.B.S.P.E Empreendimentos e Participações S.A, a empresa foi criada em março de 2020 com capital de apenas 500 reais. Cinco meses depois, em agosto de 2020, os diretores da companhia foram destituídos e os dois sócios da Reag assumiram a operação. Em outubro do ano seguinte, a empresa passaria a se chamar Golden Green, começaria a atuar no ramo de ativos intangíveis não financeiros e veria seu capital subir para 9,5 bilhões de reais. Em março de 2022, o capital da firma seria novamente alterado, dessa vez para 13,5 bilhões de reais.
Em setembro de 2024, novas mudanças ocorreriam na Sião S.A, cujo nome seria trocado por Global Carbon S.A, dirigida não mais pelos sócios da Reag, mas sim pelos advogados Thiago Assumpção Henriques e Julio Antonio Nunes Queiroz.
A Reag e o caso Master
Ao ser questionado sobre qual era o banco do filho do seu sócio bilionário, Marco Antônio disse preferir não citar nomes porque seu parceiro de negócios sempre teve “certa privacidade”. Apesar dessa restrição, ele contou que esse sócio investiu 20 milhões de reais no projeto de créditos de carbono, com o adiantamento de 15 milhões de reais como sinal da sua intenção em fazer parte do negócio. Após compartilhar essas informações, ele também ofereceu ao repórter do Subsolo, que ainda estava falando sob o disfarce de assistente de um investidor estrangeiro interessado em comprar terras na Amazônia, a oportunidade desse investidor se tornar sócio do projeto enquanto o negócio ainda estava “congelado”.
Um mês após essa ligação, porém, os planos de Marco Antônio sofreriam alguns abalos. Na madrugada do dia 28 de agosto de 2025, a Receita Federal e órgãos parceiros deflagraram a maior operação contra o crime organizado da história do país, em termos de amplitude e cooperação institucional. Nomeada Carbono Oculto, a operação desmantelou um esquema bilionário de fraudes e lavagem de dinheiro no setor de combustíveis, envolvendo a organização criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC), fintecs e fundos de investimentos sediados na Faria Lima. Um dos alvos da operação foi a Reag, que, até então, era uma das maiores gestoras de fundos do país. Criada em 2012 por João Carlos Falpo Mansur, a companhia chegou a ter 299 bilhões de reais sob sua gestão.
Três meses depois da Carbono Oculto, a PF deflagrou a Operação Compliance Zero, na qual prendeu Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, por suspeitas de envolvimento em fraudes bilionárias. Segundo as investigações, o banco emprestava dinheiro a empresas de fachada, que aplicavam a quantia em fundos geridos pela Reag, alguns dos quais tinham como cotista o próprio Master. Depois de circular entre fundos e ser usado para comprar ativos de baixo ou nenhum valor real, o dinheiro voltava ao Master na forma de investimento em CDBs. Esse ciclo mascarava prejuízos e inflava artificialmente o patrimônio da instituição.
Com a descoberta desses esquemas, a recusa de Marco Antônio em compartilhar o nome do seu sócio e do banco do filho dele se mostraria inútil. Apenas dois meses depois da Compliance Zero, a Folha de S. Paulo revelou que a empresa Alliance Participações, presidida por Henrique Vorcaro, pai do banqueiro Daniel Vorcaro, teria pagado, em 2023, 15 milhões de reais a Marco Antônio para comercializar as unidades de carbono da Fazenda Floresta Amazônica antes mesmo de o projeto ser certificado. À Folha, Marco Antônio disse ter se sentido enganado, pois esperava receber pelo menos 10% dos 26 bilhões da Global Carbon. Além das unidades de carbono, a Alliance teria comprado, em 2022, 25,8 milhões de UCS geradas pelo imóvel reivindicado por Marco Antônio, conforme contrato obtido pelo jornal. A BMV diz desconhecer essa transação.
Subsolo descobriu que as UCS da BMV também foram utilizadas como principal ativo para lastrear alguns dos maiores Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) do mercado, todos geridos pela Reag. A situação levou a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) a determinar, em agosto de 2020, o encerramento do Jaya NP e do Green Eficiency Aberto NP. Após análise técnica, a Comissão concluiu que as UCS não correspondem a direitos creditórios, e que os fundos estariam financiando de forma irregular. O Jaya NP, administrado pela Terra DTVM, começou a operar em janeiro de 2019 e, até julho de 2020, tinha emitido 7,15 bilhões de reais em cotas. Já o Green Eficiency Aberto NP, administrado pela Monetar DTVM, também investigada na Carbono Oculto, iniciou suas operações em agosto de 2019 e, em apenas um ano, emitiu 2 bilhões de reais em cotas. Os administradores recorreram da decisão, mas a CVM reiterou a ordem de encerramento e acrescentou à sua lista o Tesouro Verde NP, administrado pela Terra DTVM e com 346 milhões de reais em cotas. Somados, os FIDCs tinham 9,5 bilhões de reais em cotas. Um mês após essa decisão, em outubro de 2021, o capital da Golden Green foi elevado de 500 reias para 9,5 bilhões de reais.
O engenheiro civil Jerson Kelman, professor de Recursos Hídricos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), calculou que, mesmo que fosse possível transformar todo o alegado estoque de 168 milhões de unidades de carbono da Fazenda Floresta Amazônica em créditos certificados, a quantia máxima a ser obtida pela comercialização desses créditos seria de 4,5 bilhões de reais, valor muito aquém dos 40 bilhões de reais resultantes da soma dos ativos da Golden Green e da Global Carbon.
Para o subprocurador do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) Lucas Furtado, “as transações financeiras realizadas com base nesses créditos fictícios foram utilizadas para inflar o patrimônio de empresas e fundos, permitindo a realização de operações financeiras fraudulentas que, segundo investigações da Polícia Federal, podem estar relacionadas à lavagem de dinheiro e ao financiamento de organizações criminosas, como o PCC”. Em sua representação, conforme noticiou a Agência Eixos, o subprocurador pediu ao TCU que investigue a Alliance e os fundos geridos pela Reag “com especial atenção à utilização de terras públicas e à emissão de créditos de carbono sem lastro real” e que a corte analise se o projeto está em conformidade com os dispositivos da lei que criou o Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões de Gases de Efeito Estufa.
Contatada pela reportagem, a Terra e a Monetar esclareceram que “atuaram exclusivamente na administração fiduciária dos fundos mencionados, sem participação na gestão ou na tomada de decisões de investimento, atribuições de responsabilidade do gestor” e que “desde 2021, não prestam serviços de administração fiduciária para fundos relacionados às empresas citadas e geridos pela Reag”. A BMV diz que a decisão da CVM de encerrar os fundos foi “corretíssima”. Os sócios da Reag, a Global Carbon, a Golden Green e a Alliance Participações não responderam aos pedidos de comentários.
Ao Subsolo, a UNESP negou ter firmado qualquer tipo de convênio ou contrato com a Alliance Participações ou com Marco Antônio para a validação metodológica de ativos gerados sobre a área da Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí. “A universidade tampouco autorizou que outros servidores o fizessem, nem autorizou o uso do nome UNESP para chancelar qualquer forma de prestação de serviços”. A universidade, porém, confirmou ter firmado contrato com a IMEI, do grupo BMV, para o “licenciamento não exclusivo, unicamente para atuação no território brasileiro, do uso da metodologia para aferição e validação dos resultados da aplicação do Padrão Brasil Mata Viva de Quantificação de Carbono Estocado e Biomassa Vegetal”. Um novo contrato, em 2019, previa a “transferência de know-how e cooperação com a IMEI” para “a formalização da operacionalização das vendas dos ativos ambientais, por meio das plataformas eletrônicas de distribuição dos ativos”. A resposta completa da universidade pode ser encontrada aqui no ítem 5.C.
Marco Antônio afirmou ao Subsolo que sempre tratou somente “com o estruturador chamado José Antônio [Ramos] Bittencourt” que teria afirmado ter um investidor para o projeto. “Um tempo depois, ele me informou que o investidor seria Henrique Vorcaro. Nessa fase, houve uma proposta para ter direito à opção de compra futura, para isso um arras de 15 milhões de reais. Aceitei a condição, mas, no momento de assinar o contrato, que já veio pronto do Sr. José Antônio, constava nesse aditivo Alliance Participações com assinatura de Natália Vorcaro [filha de Henrique Vorcaro]”, acrescentou. Marco Antônio também disse que “sempre soube que o Sr. Henrique Vorcaro é uma pessoa idônea e proprietário de diversas empresas”.
No último dia 31 de julho, o ministro da Suprema Corte André Mendonça tornou públicos diálogos encontrados pela PF nos celulares do banqueiro Daniel Vorcaro que revelam seu interesse em projetos de lei sobre créditos de carbono em trâmite no Senado, incluindo três emendas apresentadas pelo senador Efraim Filho (PL-PB) ao PL 412, que regulamenta o mercado de carbono no país. Conforme noticiou o Estadão, “as propostas haviam sido protocoladas formalmente por Efraim em 20 de setembro de 2023. Cerca de um mês depois, em 22 de outubro, José Antonio Ramos Bittencourt, identificado no aparelho de Vorcaro como “José Antonio Carbono”, enviou ao banqueiro os arquivos das emendas 26, 27 e 28 ao Projeto de Lei 412/2022. Em seguida, afirmou: “As 3 emendas acima são fundamentais serem aplicadas no PL”. Além de receber as três emendas, Vorcaro pediu a José Antônio relatórios sobre a capacidade de geração de carbono da Fazenda Floresta Amazônica, que foi tratada na troca de mensagens como “nosso projeto”. Ainda conforme o jornal, “o relatório policial não indica que Efraim tenha enviado os documentos diretamente a Vorcaro, nem apresenta conversas entre os dois”.
A reportagem não conseguiu contato com José Antônio Bittencourt. A KPMG não respondeu ao pedido de comentários.
À espera de um milagre
Ao longo da ligação, Marco Antônio recomendou, ao menos quatro vezes, que o comprador estrangeiro tomasse cuidado com as terras indocumentadas no estado do Amazonas, pois, segundo ele, elas estavam por toda parte. As terras dele, porém, não teriam esse problema. Uma análise do Subsolo, contudo, descobriu que um dos seus imóveis à venda, com área de 32 mil hectares, conhecido como São Domingos, está sobreposto à Floresta Nacional (Flona) Mapiá Inauini, no Amazonas. O Plano de Manejo da Flona contém a informação de que a Corregedoria de Justiça do Estado do Amazonas cancelou, em dezembro de 2001, todos os registros de propriedades sobre a reserva, o que inclui o imóvel São Domingos.
Questionado pela reportagem, Marco Antônio disse haver três propriedades com o nome “São Domingos” e que a dele “está normal, sem nenhuma informação do cartório sobre qualquer cancelamento”. Ele afirmou ainda que sua área é 70 anos mais antiga que a referida unidade de conservação. O arquivo kmz que ele compartilhou na conversa de julho de 2025, todavia, mostra que o imóvel à venda está completamente sobreposto à área da reserva.

Nem mesmo as operações policiais contra seus parceiros de negócios e as contradições reveladas pela reportagem foram capazes de alterar os projetos de Marco Antônio para os imóveis que ele reivindica na Amazônia. Em resposta ao pedido de comentários enviado por Subsolo, ele demonstrou ainda querer dar andamento à iniciativa de comercialização de créditos de carbono em parceria com a Alliance. Segundo ele, “o projeto não está totalmente estruturado, porém, estamos aguardando a consolidação do georreferenciamento”. Em janeiro de 2026, o INCRA rejeitou um Termo de Ajustamento de Conduta apresentado pela Alliance para regularizar o projeto de créditos de carbono da Fazenda Floresta Amazônica.
Enquanto o processo de cancelamento da matrícula do imóvel não é concluído, Marco Antônio continua à espera do seu milagre verde.
Notas
1. Blockchain é uma rede criptografada que pode ser acessada de qualquer lugar do mundo e que não permite a alteração nem exclusão dos seus dados.
2. Ato administrativo que corresponde à fase final do processo de criação de uma terra indígena.
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Reportagem produzida pelo projeto de jornalismo investigativo Subsolo.
A investigação foi financiada por: The Mailman Foundation, Earth Island Institute, The Puffin Foundation, GRID-Arendal e Earth Journalism Network.
Apoio: Rodolfo Gadelha, do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), ajudou a filtrar os milhões de registros da CFEM.
Foto de capa: Ignacio Palacios/Getty Images
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