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Não podemos normalizar uma Amazônia onde o medo decide o que pode ou não ser noticiado

Manifestamos nossa irrestrita solidariedade à equipe do Tapajós de Fato. É inadmissível que profissionais da comunicação sejam coagidos ou intimidados no exercício de seu trabalho.

A proteção da Amazônia e de seus povos passa indiscutivelmente pela proteção daqueles que narram e denunciam suas realidades. Num cenário de tantas disputas por territórios e recursos naturais, a salvaguarda daqueles que atuam na comunicação e cobertura da região é emergencial.

Em 2026, o Tapajós de Fato, veículo de jornalismo independente e comunitário com sede em Santarém, no Oeste do Pará, viu-se forçado a encerrar sua cobertura das eleições diante de severas ameaças e do medo real de morrer. Comunicadores do veículo sofreram intimidações diretas com armas brancas, o envio de cabeças de animais e a impossibilidade de retornar às suas casas ou visitar familiares, precisando viver sob o sobressalto e escondidos em hotéis.

Quando ameaças graves fazem um veículo de comunicação interromper a cobertura eleitoral, a crise ultrapassa as barreiras do jornalismo: trata-se de um ataque direto à própria democracia e ao direito de escolha da população.

Não podemos normalizar uma Amazônia onde o medo decide o que pode ou não ser noticiado. 

Esse sentimento de insegurança percorre cotidianamente comunicadores e lideranças que dedicam seu trabalho à defesa dos direitos socioambientais. O caso do Tapajós de Fato recupera marcas profundas e dolorosas da nossa história. Antes deles, perdemos Dom Phillips e Bruno Pereira em 2022; a missionária Dorothy Stang em 2005; Chico Mendes em 1988 e tantas outras lideranças socioambientais que tiveram suas vidas ceifadas por defender os povos da floresta. 

Diante dessa situação inaceitável, manifestamos nossa irrestrita solidariedade à equipe do Tapajós de Fato. É inadmissível que profissionais da comunicação sejam coagidos ou intimidados no exercício de seu trabalho, a ponto de verem sua segurança física colocada em risco por levarem informação de interesse público à sociedade. 

O ataque ao Tapajós de Fato não é apenas um ataque a uma redação; é uma tentativa de silenciar as vozes e as realidades da região do Tapajós e de enfraquecer o debate democrático.

A liberdade de imprensa e o direito à informação são garantias constitucionais cruciais. Exigimos que as autoridades competentes apurem com rigor e celeridade as ameaças relatadas, garantindo a proteção necessária para que os jornalistas do Tapajós de Fato possam exercer sua profissão com segurança e autonomia.

Nenhum direito a menos. Em defesa da liberdade de imprensa e da democracia na Amazônia.

Não podemos normalizar a violência, os ataques e a tentativa de silenciamento do jornalismo independente da Amazônia. 

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Arte da capa: Avany Martins/ Carta Amazônia

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