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O peixe migrante que ajuda a entender as crises dos rios da Amazônia

por redação Carta Amazônia | set 17, 2026 | meioAmbiente, Noticias, reportagemEspecial | 0 Comentários

Um animal que é capaz de nadar mais de 11 mil quilômetros ao longo da vida e guarda dentro da cabeça um acumulador de informações microscópicas que foram decisivas para aprovação de um novo plano de ação ambiental entre seis países da Amazônia a partir de 2026. Entenda como a avaliação do impacto ecológico das hidrelétricas e o manejo sustentável da pesca entre países podem determinar a existência ou a extinção da dourada, uma espécie de bagre gigante.

Por Antônio Laranjeira

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Um turista alemão observa a cuia por alguns segundos, como quem come pela primeira vez algo absolutamente fora do seu cotidiano. Diante da posta de dourada frita, do açaí do grosso e da farinha da baguda, ele arqueou sua sobrancelha gaza e aproximou o nariz da comida. O gringo vive seu primeiro contato com o jeito de comer local: o peixe frito é mergulhado no açaí, a farinha acrescentada a gosto.

O Sabor Dourado

Estamos no centenário Ver-o-Peso, centro da cidade de Belém (Brasil), o maior mercado a céu aberto dessa metrópole da Amazônia e indicado pelo Brasil para ser Patrimônio da Humanidade, organizado entre as bancas de feirantes e os boxes de restaurantes.

Nas bancas da Pedra do Peixe, os pescados que desembarcam são cortados, pesados e vendidos ao longo da madrugada para diversas cidades de todo Brasil. Nos boxes do Mercado de Ferro, pela manhã e tarde, funcionam dezenas de cozinhas de rua onde se pode comer refeições que existem apenas na Amazônia. Aqui um dos pratos mais famosos é a dourada.

Neste epicentro do comércio popular, o que poucos sabem é que esse peixe, que está agora no prato do turista, realizou a maior migração entre todas as espécies de água doce do mundo.

Vendedores organizam caixas de peixes frescos durante a madrugada no local conhecido como Pedra do Ver-o-Peso, no centro da cidade de Belém. (Foto: Flávio Forner/Acervo Repórter Brasil)

Entre o peixe que migra para se alimentar e procriar e o peixe que foi pescado e servido com açaí, existe uma história que começa a milhares de quilômetros de distância do Mercado Ver-o-Peso.

Barrada pelas usinas hidrelétricas e perseguida pelas redes de pesca, essa espécie de bagre guarda dentro da cabeça um segredo cristalizado, as evidências científicas que deram origem a um plano de proteção ambiental em seis países para evitar a sua extinção.

Esta é uma reportagem transfronteiriça, portanto prepare-se para uma leitura que pode parecer longa como a jornada da dourada, mas cheia de descobertas, curiosidades e alertas que a natureza é capaz de nos revelar.

A Pedra Preciosa

A vida dessa dourada servida no prato do turista em Belém começou a 5.000 quilômetros rio acima. Por ser um bagre migrante, quando adulto nada contra a correnteza para acasalar e desovar, saindo da foz do Rio Amazonas (Brasil) rumo aos rios localizados no sopé da Cordilheira dos Andes (Peru, Bolívia, Colômbia e Equador).

Ao longo de toda a vida uma dourada pode chegar a percorrer 11.600 quilômetros, a maior migração animal de água doce do mundo. De acordo com a base de dados Global Biodiversity Information Facility (GBIF), principal plataforma de registro colaborativo da vida animal na Terra, a dourada (Brachyplatystoma rousseauxii) ocorre em seis países da Amazônia com o primeiro registro na plataforma há mais de um século, em 1901.

Os principais estudos ecológicos sobre a espécie foram consolidados no final da década de 1990 pelos pesquisadores Ronaldo Barthem, ictiólogo brasileiro do Museu Paraense Emílio Goeldi, e Michael Goulding, ecologista aquático da Wildlife Conservation Society (WCS).

No livro “Os bagres balizadores”, os dois autores constataram de forma inédita que as ocorrências de douradas menores localizam-se nos rios à Leste, enquanto os indivíduos maiores e adultos estão localizados à Oeste. Assim, foi levantada a primeira hipótese de grandes migrações realizadas pela dourada ao longo de rios que conectam três ecossistemas: Andes, Amazônia e Atlântico.

Mapa da rede hidrográfica destaca rios andinos, amazônicos e a conexão da bacia com o oceano com cores diferentes para cada sub-bacia por cores distintas. (Créditos: Antônio Laranjeira).


De acordo com um estudo de 2017, também assinado pelos especialistas Barthem e Goulding, além de outros autores, o registro de ocorrência e desova mais distante do Oceano Atlântico fica na bacia do Rio Madeira, especificamente na região de cabeceira do Rio Mamoré e Rio Guaporé nas saídas dos Andes bolivianos.

Mas também existem douradas em outros rios como o Ucayali e o Marañón no Peru, o Napo e o Pastaza no Equador, o o Putumayo e o Caquetá (Japurá para os brasileiros) na Colômbia, e o Orinoco na Venezuela, que possui sua própria bacia hidrográfica, mas está conectado ao Rio Amazonas por meio de um braço do rio Casiquiare.

A dourada ocupa praticamente todas as grandes artérias fluviais que conectam a Cordilheira dos Andes às planícies amazônicas, preferindo os rios terrosos, as chamadas “águas brancas”, em comparação com as “águas pretas” de tom escuro e as “águas claras” que são translúcidas.

Cada desova chega a superar um milhão de ovócitos, células reprodutivas que dependem da fecundação dos machos para se tornarem ovos. Destes, os que se desenvolvem com sucesso passam pelo estágio de larva antes de se tornarem alevinos, a primeira forma livre e totalmente formada dos peixes. 

nfográfico apresenta o ciclo de vida da dourada, da fase larval à vida adulta. A espécie passa por diferentes ambientes da Bacia Amazônica até atingir a maturidade sexual e realizar migrações de longa distância para reprodução.
(Créditos: Antônio Laranjeira/Chat GPT 5.5)

Descendo o rio, os alevinos das douradas (fase larval da vida dos peixes) iniciam sua história carregados pela força das águas ao longo de semanas. Os filhotes, com dois meses a um ano de vida, nadam rumo ao estuário do Rio Amazonas, uma faixa geográfica que compreende os estados brasileiros do Amapá e do Pará e a costa do Oceano Atlântico. Nessas águas as douradas amadurecem até chegar à fase adulta, quando sobem o rio que desceram quando ainda eram apenas pequenas larvas.

Machos e fêmeas que chegam à fase adulta a partir dos 3 anos. Nessa fase da vida, cardumes de douradas sobem por diferentes afluentes do Rio Amazonas enfrentando a correnteza, um período da vida do animal que dura de um a dois anos. Para sobreviver a esse esforço, o corpo da dourada adulta possui reservas de gordura acumuladas ao longo da vida, uma adaptação evolutiva fundamental para suportar a jornada migratória e garantir a reprodução da espécie.

O tempo de duração dessa migração, descendo e subindo pelos rios da Amazônia, permanece registrado na química dos “otólitos”, palavra em grego quer dizer otós (‘ouvido’) + líthos (‘pedra’). Estas três pequenas estruturas de carbonato de cálcio no ouvido interno do peixe são conhecidas como “pedras do juízo” entre pescadores ou “pedras preciosas” entre cientistas.

Cada dourada tem na cabeça três pares de otólitos (como humanos têm três ossos do ouvido) que servem como órgãos responsáveis pela audição do animal. Esses ossos incorporam elementos químicos da água dos rios (como os isótopos de estrôncio), criando uma assinatura única de cada trecho percorrido por cada dourada.

A composição explica adaptações corporais associadas à orientação, locomoção, proteção e sobrevivência da espécie nos grandes rios amazônicos. (Créditos: Antônio Laranjeira/Chat GPT 5.5)

Em pesquisa sobre a dourada, a bióloga e professora Marília Hauser pela Universidade Federal de Rondônia (UNIR) comprovou cronologicamente por quanto tempo cada peixe capturado viveu ao longo de diferentes partes da bacia em sua tese de doutorado. Foi essa tese, publicada em 2018, que ajudou a mudar o modo de olhar para os otólitos, uma peça-chave para entender os ciclos das águas doces a partir do comportamento migratório dessa espécie.

“Para comprovar minhas hipóteses de pesquisa, sobre as áreas de reprodução e desova das douradas, foi preciso coletar espécimes pela Amazônia ao longo de anos. Primeiro tive que treinar vendedores de peixes dos mercados, em diferentes mercados de peixes, para medir as douradas antes de cortá-las para seus clientes. Como era um peixe caro para ser comprado por inteiro, eu comprava deles apenas as cabeças, o que chamamos de ‘kit’ da pesquisa de campo. Depois dessa etapa, levei os otólitos para um laboratório na França, onde fiz meu doutorado, para fazer análises, que também são muito caras”, conta Hauser.

Da aliança entre o conhecimento científico e a colaboração cidadã, a tese de Hauser revelou que o bloqueio provocado por usinas hidrelétricas gerou dois perfis distintos na bacia: os peixes que conseguem manter o ciclo migratório natural e aqueles que se tornaram residentes forçados devido aos barramentos.

A Conexão em Crise

As águas fluviais transportam os sedimentos e nutrientes que descem desde os Andes, substâncias essenciais para a produtividade biológica das planícies onde os juvenis crescem. Contudo, os barramentos são um fator determinante para alteração do comportamento das migrações das douradas.

O caso emblemático de problemas causados pelas barragens foi a construção, iniciada em 2008, das usinas do Rio Madeira. Um estudo publicado em 2024, liderado por Marília Hauser, comprovou a mudança radical de comportamento dos peixes: todas as douradas no Alto Rio Madeira (no estado de Rondônia, na fronteira entre Brasil e Bolívia) coletadas eram residentes, uma geração da espécie que nasceu e cresceu em um “isolamento hidrográfico” provocado pelas usinas geradoras de eletricidade de Santo Antônio e de Jirau que operam o controle da vazão dos rios.

Outro estudo, publicado em 2023, destaca que as barragens impactam a conectividade, o fluxo de sedimentos e a temperatura da água, degradando os habitats e causando o declínio de inúmeras espécies de peixes. 

A pesquisa de escala global, que tem como um dos co-autores o hidrólogo brasileiro Ayan Fleischmann, propõe uma síntese desses problemas e avalia medidas de conservação para garantir operações mais sustentáveis frente às mudanças climáticas e às necessidades humanas.

“Cada hidrelétrica da Amazônia tem um regime de vazões que variam ao longo do tempo, isso define quanto de água tem que passar na cheia e na seca pelas comportas. Então para maximizar a saúde ambiental de um rio é preciso fazer estudos, inclusive sobre o impacto nas espécies migratórias como a dourada”, diz Fleischmann, pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá na Amazônia. 

A engenheira de pesca Fabíola Katrine Cajado, do Centro Avançado de Pesquisa Ação da Conservação e Recuperação Ecossistêmica da Amazônia (Capacream), afirma que o Rio Solimões,  funciona como uma verdadeira ponte ecológica entre as áreas de desova e as áreas de crescimento. Este rio é formado por afluentes que vêm direto dos Andes, águas que trazem os alevinos das douradas que conseguiram cumprir a jornada rio acima.

“A manutenção da conectividade, da dinâmica natural do rio e da qualidade dos habitats ao longo desse percurso é essencial para que as larvas consigam se transformar em juvenis, alcançar a fase adulta e, futuramente, retornar aos Andes para reproduzir, fechando um dos ciclos migratórios mais impressionantes conhecidos entre os peixes de água doce”, avalia Cajado.

Mapa mostra a localização de hidrelétricas nos principais eixos da bacia amazônica e destaca os impactos dessas barragens sobre a conectividade dos rios. (Créditos: Antônio Laranjeira).

O ictiólogo Carlos Rodríguez, que liderou a Fundação Tropenbos por três décadas com foco em pesquisas com comunidades pesqueiras e indígenas da Amazônia, alerta que, embora o trecho do Rio Caquetá (Colômbia) seja livre de hidrelétricas, essa bacia enfrenta o colapso na pesca dos bagres migratórios.

“O declínio da captura da dourada, um peixe que se alimenta de outras 60 espécies de peixes que habitam o Rio Caquetá [chamado de Rio Japurá pelos brasileiros], indica um desequilíbrio ambiental grave. Hoje existe uma oferta muito menor de douradas adultas viajando rio acima [do Brasil para a Colômbia], evidenciando falhas na gestão ambiental binacional e impactos sofridos pelas espécies de bagres que realizam essas migrações”, explica Rodríguez.

De acordo com dados coletados pelo estudo precursor deste ictiólogo, publicado em 1991, na cidade de La Pedrera (Colômbia), em 1984 foi registrado um total de 49 mil quilos de peixes pescados ao ano, sendo aproximadamente 61% desse total de “dorado”, como se chama a dourada em espanhol.

Anos depois, em 2019, La Pedrera registrou uma queda para 30 mil quilos de pescado ao ano, sendo a maior redução para a dourada, que passou a representar apenas 15% do total (um registro 46% menor). Ao todo, em 35 anos a captura da dourada caiu de 30 mil para 4.600 quilos na bacia do Rio Caquetá. É como se um barco de pesca que antes tinha o potencial de capturar sete peixes por vez agora tivesse sua chance reduzida para apenas uma por vez.

A fragmentação dos rios e a alteração dos regimes de inundação também afetam a alimentação desses predadores ao reduzir a oferta de presas. A bióloga Cristhiana Paula Röpke, do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), explica que se o consumo de presas é fortemente reduzido ao longo de um trecho longo da rota migratória, isso pode representar não ter energia necessária para migrar e reproduzir ao final da jornada.

“Reduzir a disponibilidade de presas pode levar a uma maior sobreposição da dieta dos bagres, principalmente se as presas ficarem mais disponíveis em poucos habitats. Por exemplo, as douradas também podem ficar magras e se tornarem menos resistentes a doenças ou suportar outros riscos que exigem energia para fugir ou se recuperar. Isso pode levar a um aumento na mortalidade desses peixes pré-adultos ou adultos ao longo da jornada de migração”, exemplifica Röpke.

Vista aérea da Usina Hidrelétrica de Jirau, no Rio Madeira, em Rondônia (Brasil/Bolívia). A barragem integra o conjunto de grandes obras que alteraram a dinâmica do rio e afetaram a conectividade de rotas migratórias de peixes amazônicos. (Foto: Antônio Grutzmacher).

No Rio Madeira, a situação é considerada a mais crítica. As evidências científicas desta crise existem há pelo menos 20 anos. Um estudo de 2001, realizado por os engenheiros hidráulicos Kikuo Tamada e Sidney Lázaro Martins, apontam que a tecnologia de engenharia utilizada ainda falha em replicar a hidrodinâmica natural, o que tem resultado no desaparecimento lento da espécie nas áreas represadas.

Embora sistemas de transposição de peixes tenham sido instalados entre os muros dessas barragens, conectando uma pequena vazão das águas entre trechos do Baixo e do Médio Rio Madeira, a maioria das douradas não consegue retornar rio acima, de acordo com a pesquisa dos engenheiros hidráulicos.

A usina hidrelétrica de Santo Antônio, por exemplo, conta com um canal seminatural de cerca de 900 a 1.000 metros de extensão e 10 metros de largura. Esse canal busca reproduzir a velocidade e o fluxo das antigas cachoeiras de Santo Antônio e Teotônio que existiam no local. Isso deveria permitir que os peixes (como douradas, jaús, pirararas e curimbas) fizessem o caminho inverso no seu ciclo de vida.

“As capturas de dourada caíram vertiginosamente desde 2011. Esse declínio na captura de espécies de interesse comercial fomenta a diversificação das capturas, como tem acontecido na comunidade de Humaitá, Amazonas (Brasil), onde a captura de ‘salada’ [um conjunto diversificado de peixes de pequeno porte e baixo valor comercial] tem aumentado entre os pescadores artesanais”, relata o pesquisador Igor Lourenço, engenheiro agrônomo e mestre em Ciências Ambientais pela Universidade Federal do Amazonas (UFAM), autor principal de outro estudo de 2024 sobre bagres migratórios, entre eles a dourada.

Vendedora de peixes em mercado de Iquitos, no Peru. A cidade é um dos pontos centrais da pesca e do consumo de bagres migradores na Amazônia ocidental. (Foto: Gustavo Faleiros/Acervo InfoAmazonia)

As hidrelétricas construídas no território do Brasil (Rio Madeira) interromperam as rotas de migração da dourada e provocaram impactos profundos na Amazônia Boliviana, por exemplo no Rio Mamoré e no Rio Beni. É o que revela um estudo publicado em 2019 por cientistas que atuam na Amazônia, incluindo a bióloga brasileira Marília Hauser e o biólogo belga Paul Van Damme que trabalha na Faunagua, organização não-governamental boliviana.

Os autores analisaram os peixes a 1.500 quilômetros de distância das usinas de Santo Antônio e Jirau e compararam a atividade pesqueira comercial entre os anos de 1998 e 2007 com o cenário observado entre 2015 e 2017.

Os resultados indicam uma redução nas capturas, uma queda de 93% no rendimento pesqueiro na Bolívia após o bloqueio do rio. A análise da idade das douradas sobreviventes revela que a população atual é composta por velhos migrantes que subiram o rio antes de 2009 e por uma nova geração de residentes que nasceu acima das hidrelétricas e permanece presa no alto Madeira.

A menos que os sistemas de passagem de peixes nas barragens melhorem sua eficiência, a ciência feita na Amazônia já estimava, há duas décadas, que a dourada poderia entrar em extinção, hipótese que vem se confirmando a cada novo estudo.

O Peso do Peixe

A dependência econômica da pesca artesanal foi subestimada em diferentes processos de licenciamento ambiental das hidrelétricas construídas ao longo da bacia amazônica.

“Aprendi a pescar peixes com meu pai, quando eu era criança, aqui no Rio Ucayali. O dorado [como é conhecido em espanhol] foi o primeiro peixe grande que pesquei na vida, quase me derrubou do barco na água de tão grande! Nunca me esqueci desse dia… Mas faz mais de 50 anos que não vejo nenhum desses nesta parte [Alto Rio Ucayali]”, relata por telefone Ruperto Fasabi Valera, 70 anos, pescador artesanal e morador de Pucallpa, uma das maiores cidades da Amazônia Peruana.

Quando este pescador do Peru fala em “anos que não vejo nenhum desses nesta parte”, ele está se referindo à década de 1970, quando ele tinha 20 anos. Nessa mesma época a Amazônia começava a conhecer o início da pescaria industrial em rios por onde a dourada migrava. Anos de pesca sem planejamento conduziram a dourada ao atual risco de extinção, reconhecido por governos de diferentes países da América do Sul.

O alerta vermelho para a pesca predatória da dourada foi aceso após um estudo de cientistas da Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) publicado em 2017. A pesquisa descreveu como a pesca acontece nos canais dos rios e comandadas por embarcações motorizadas equipadas com armazenamento em gelo. Esses barcos usam as redes de deriva, operadas por meio da técnica conhecida regionalmente como bubuia.

Pesca de bubuia com rede, técnica tradicional de deriva usada na Amazônia para capturar douradas e outros bagres migradores. A sequência mostra a preparação da rede, o lançamento na correnteza, a captura dos peixes e o recolhimento a bordo. (Créditos: Antônio Laranjeira/Chat GPT 5.5)

O estudo também revelou que a pesca industrial da dourada segue um padrão sazonal estritamente associado ao ciclo dos rios, no qual o período de maior safra ocorre durante a redução do nível do rio.

A engenheira de pesca Luiza Prestes, professora e pesquisadora do curso de Engenharia de Pesca, da Universidade do Estado do Amapá (UEAP), liderou um estudo de 2022 em que cientistas especialistas em bagres migratórios (incluindo Ronaldo Barthem e Michael Goulding) confirmaram que a pesca da dourada está em colapso em diferentes trechos hidrográficos da bacia da Amazônia.

O resultado desse colapso da dourada é a alteração da própria estrutura da atividade pesqueira: com o desaparecimento dos grandes bagres, a pesca passa a buscar peixes pequenos (juvenis), processo chamado de “fishing down” pelos cientistas e de “salada” pelos pescadores. Os achados indicam que esse tipo de pescaria, que consiste em capturar peixes menores e menos valorizados pelo consumidor final, tem relação direta com a falta de douradas nas redes.

Atualmente, são estimadas em média 10,5 mil toneladas de douradas pescadas por ano. Esse declínio do ciclo de vida da dourada pela pesca predatória coloca em risco a segurança alimentar de cerca de 50 milhões de pessoas que vivem na bacia amazônica e que dependem desse alimento diário, de acordo com o relatório mais recente sobre a dourada, assinado por mais de 30 organizações da rede de conservação Águas Amazônicas.

O estudante Heitor Amorim, de 13 anos, conta por telefone que “ama comer uma douradinha” na principal refeição do dia. Antes comprava esse peixe perto da casa da avó, em um pequeno restaurante popular de Dona Teca, localizado no bairro da Condor, periferia da cidade de Belém (Brasil). “Ano passado a dourada sumiu de vez do cardápio aqui”, diz ele.

Ele ainda lembra que em 2023, o prato feito de dourada (refeição individual) custava R$16 (3,16 dólares), subiu para R$18 (3,56 dólares), e que “ainda sobrava o troco”. Atualmente, o mesmo prato chega a custar R$30 (quase 6 dólares) na maior parte da cidade, um aumento que fez a cozinheira deixar de preparar esse peixe tão apreciado quanto caro.

Entre as regiões pesqueiras é no estuário do Rio Amazonas (Brasil), próximo ao Atlântico, que a personagem dessa reportagem atravessa a fase mais crítica da sua vida, já que 38% da pesca acontece nessa área. No Rio Madeira, o desembarque da espécie despencou, restando para esse rio apenas 2% do rendimento de pesca da dourada em toda a bacia amazônica, conforme o mapa.

Mapa indica que o maior rendimento potencial da pesca da dourada se concentra no Estuário Amazônico (ao Leste) com 28% do total estimado, enquanto o Amazônia Peruana (ao Oeste) responde por 16%. (Créditos: Antônio Laranjeira)

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Entre o mar e o rio, sobretudo entre as ilhas, é onde acontece 38% da pesca da dourada e também onde esse peixe passa maior parte da vida (juvenis e subadultos), uma fase de desenvolvimento antes de iniciar o retorno em direção às áreas de reprodução quando atingem de 30 a 50 centímetros de comprimento.

Na cidade de Barcarena, localizada a cerca de 20 km de Belém pelo rio e 110 km pela estrada, a criadora de conteúdo Bianca Oliveira de Jesus, 24 anos, compartilha vídeos da sua rotina de trabalho em uma banca no mercado de peixes local. Bianca demonstra extrema agilidade no corte de diversos peixes em poucos segundos. Entre dezenas de conteúdos publicados no Instagram, o vídeo de uma dourada foi o que teve o maior alcance, com  milhões de reproduções.

“Eu trabalho com minha mãe desde criança tratando peixes que vendemos. Todos esses anos, a dourada sempre foi um dos mais procurados na nossa banca, nunca cai de vendas. Mas o preço dela mudou. Já custou R$13 e agora chega a R$30 o quilo de dourada. Quem não pode pagar por esse peixe escolhe outros que são mais baratos na comparação”, relata Bianca.

Na montagem é possível ver o feed da influenciadora digital do Pará, conhecida como “menina do peixe”, preparando três douradas em estágios diferentes do desenvolvimento. (Fonte: Reprodução do Instagram @bianicyoliveira)

Os peixes migratórios representam, em média, 93% dos desembarques pesqueiros analisados na bacia amazônica, de acordo com um estudo científico publicado em 2021. O comércio desses pescados totaliza aproximadamente R$ 2,228 bilhões (US$ 436 milhões).

Além do peixe preferido em quase toda a Amazônia, nas redes sociais e nas redes de pesca, a dourada é uma das principais fontes de renda para as comunidades ribeirinhas, que têm nos peixes a principal fonte de proteína, com taxas de consumo entre as mais altas do mundo.

“Os ribeirinhos da Amazônia comem cerca de meio quilo [500 g] de peixe por dia, em média, e esse consumo constitui tanto quanto a captura comercial. É muito maior que a média mundial e que a média nacional. Ou seja, se o peixe faltar no futuro, devemos nos preocupar com a segurança alimentar dessas populações”, avalia Victoria Judith Isaac, professora do Núcleo de Ecologia Aquática e Pesca, da Universidade Federal do Pará (UFPA), coautora do estudo científico, publicado em 2024, que analisa a relação entre bagres migratórios e a pesca artesanal junto com Igor Lourenço (UFAM).

Douradas juvenis pescadas na região do Estuário Amazônico, com cerca de 32 centímetros de comprimento, aparecem acondicionadas em uma caixa plástica. (Foto: Ernando Pinto/Acervo pessoal).

No entanto, o comportamento dos peixes tem sofrido mudanças que afetam o rendimento de cada dia de trabalho. Pescadores da cidade de Marudá, localizada na faixa de estuário do Rio Amazonas no Pará, relatam que este ano as douradas apareceram, excepcionalmente, no mês de maio de 2026, durante esta reportagem.

“Esse peixe era para subir o Rio Amazonas de novo em julho, a ‘maré’ [período de ocorrência dos cardumes] dele é de janeiro a junho, você tá vendo? Mas só veio aparecer agora esse mês”, relata Ernando Pinto, representante nacional dos pescadores junto ao Ministério Nacional da Pesca do Brasil.

A Extinção à Espreita

Para que a dourada continue sua maratona continental, a ciência e as articulações diplomáticas precisavam chegar em um acordo com as sociedades e os governos de seis países.

Um marco histórico foi estabelecido com o consenso sobre o primeiro rascunho do Plano de Ações sobre Bagres Migratórios, uma iniciativa liderada pelo governo do Brasil e apoiada pelos seis países da bacia amazônica (Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela), apresentada durante a COP15 da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias, realizada na cidade de Campo Grande (Brasil) em março de 2026.

A Cúpula de alto nível da COP15, realizada no Brasil, reuniu representantes e especialistas para discutir ações de conservação da biodiversidade e de espécies migratórias. (Foto: Álvaro Rezende). 

O plano de ação foi apresentado em março de 2026 e reconheceu que a dourada está em um estado de vulnerabilidade e que sua preservação exige uma coordenação transfronteiriça, que supere as fronteiras nacionais.

Quando uma espécie é classificada como “vulnerável” na Lista Vermelha da IUCN significa que ela enfrenta um alto risco de extinção na natureza a médio prazo, geralmente devido à redução populacional ou degradação do habitat natural; no caso da dourada, pelo efeito negativo das usinas hidrelétricas e da sobrepesca nos rios da Amazônia.

Para salvar a dourada da extinção, a organização não-governamental Wildlife Conservation Society (WCS), com sede nos Estados Unidos da América (EUA), atua na proteção dos bagres migratórios da Amazônia com foco na governança internacional, na ciência cidadã e no manejo sustentável para proteger as espécies desse gênero (Brachyplatystoma), como a dourada, a piraíba e a piramutaba.

O advogado ambiental peruano Dino Delgado, diretor do programa Águas Amazônicas dessa ONG ambiental internacional, é uma das vozes centrais nessa articulação. Ele enfatiza que, por se tratar da maior migração de água doce do planeta, a governança é, por natureza, internacional.

Segundo Delgado, o objetivo não é necessariamente uma “harmonização completa” das leis de cada país, mas sim uma coordenação estratégica. “As regulações precisam ser suficientemente articuladas entre os Andes e o Atlântico”, afirma Delgado, lembrando que esses peixes são fonte de proteína na alimentação de milhões de pessoas que vivem na bacia.

O indicador de sucesso dessa nova política será a recuperação das populações de peixes. “A redução desses estoques funciona como um sinal de alerta para a necessidade de acordos reais entre os seis países”, conclui Delgado.

Infográfico apresenta cinco frentes de ação para manter a conectividade ecológica necessária ao ciclo de vida da dourada na Bacia Amazônica: habitats críticos, informação compartilhada, conectividade da bacia, cadeias de valor e políticas de regulação. (Crédito: Antônio Laranjeira/Chat GPT 5.5. Fonte: WCS.)

A nova governança proposta não se limita a gabinetes políticos e laboratórios científicos. O programa “Diálogos de Saberes” tem reunido delegações de pescadores do Brasil, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia e Venezuela para integrar o conhecimento tradicional à gestão. Esse movimento resultou no manifesto “Amazônia em perigo de extinção”, com seis pontos de ação definidos pelas próprias comunidades pesqueiras, que ecoam a necessidade urgente de proteger os corredores biológicos.

“O plano dos bagres promove o manejo sustentável da espécie para manter a pesca em bases sustentáveis, o que é um interesse muito importante para os pescadores mas também para os vendedores de peixes. A partir de agora eles estão ativamente envolvidos na implementação de sistemas de pesca em sinergia”, afirma a cientista ambiental colombiana Silvia Benítez, diretora de Água Doce para a América Latina da organização não-governamental The Nature Conservancy, que também participa da rede Águas Amazônicas.

Bagres amazônicos são armazenados em gelo durante etapa de manuseio e conservação do pescado. A cadeia da dourada envolve captura, transporte, venda e consumo em diferentes pontos da Amazônia. (Foto: Flávio Forner/Acervo Repórter Brasil)

As diretrizes da COP15 visam conservar a vida das espécies migratórias e transformar este plano desenvolvido ao longo de 10 anos em um tratado participativo. O objetivo final é que a dourada não seja extinta pelo efeito dos barramentos e que esta e outras espécies migratórias de bagres sejam protegidas por uma rede de cooperação transfronteiriça entre os países da Pan-Amazônia.

Além da pesca industrial, o maior obstáculo no plano de conservação dos bagres migratórios permanece sendo o interesse na geração de energia e a construção de novas hidrelétricas da Amazônia. O debate sobre os impactos dos barramentos dos rios na vida das douradas é essencial para o planejamento de novos projetos.

Até que as metas sejam alcançadas, a dourada seguirá repartida de maneira desigual. 

Por um lado, comida em abundância para centenas de turistas em um dia de passeio no Mercado Ver-o-Peso, no centro de Belém. Por outro lado, ausente do prato de uma criança, na periferia da mesma cidade, que convive diariamente com os efeitos locais do colapso da pesca da dourada, agravado pelas águas partidas da Amazônia.

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Colaboradores da reportagem

Apoio científico: Larissa Rayanny Sousa (UFSC) na recomendação de achados científicos; Natale Dias (UFPR) na recomendação de bases de dados e Renan Cassimiro Brito (USP) na recomendação de curadoria dos dados. Ambos bolsistas do Instituto Serrapilheira no Programa de Ecologia Quantitativa (2026)

Apoio cidadão: Johnattan Rupire (Pucallpa, Peru) e Cecília Amorim (Belém, Brasil)

Fotos e vídeos de acervos: Gustavo Faleiros (InfoAmazonia), Flávio Forner (Repórter Brasil), Antônio Grutzmacher, Ernando Pinto, Bianca Oliveira (vídeo), Álvaro Rezende

Ilustrações, mapas e infográficos: Antônio Laranjeira com suporte de inteligência artificial generativa (Chat GPT 5.5)

Referências científicas para a reportagem

  1. Barthem, R. B., e Goulding, M. (1997). Os bagres balizadores: Ecologia, migração e conservação de peixes amazônicos. Sociedade Civil Mamirauá; Ministério da Ciência e Tecnologia; Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico; Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas. https://acervo.socioambiental.org/acervo/livros/os-bagres-balizadores-ecologia-migracao-e-conservacao-de-peixes-amazonicos
  2. Barthem, R., Goulding, M., Leite, R. et al. (2017). Goliath catfish spawning in the far western Amazon confirmed by the distribution of mature adults, drifting larvae and migrating juveniles. Sci Rep 7, 41784. https://doi.org/10.1038/srep41784
  3. García Vásquez, A., Alonso, J. C., Carvajal, F., Moreau, J., Núñez, J., Renno, J.-F., Tello, S., Montreuil, V., e Duponchelle, F. (2009). Life-history characteristics of the large Amazonian migratory catfish Brachyplatystoma rousseauxii in the Iquitos region, Peru. Journal of Fish Biology, 75(10), 2527–2551. https://doi.org/10.1111/j.1095-8649.2009.02444.x
  4. Santos, M. H. dos. (2018). Migração dos grandes bagres amazônicos pela perspectiva dos isótopos de estrôncio em otólitos [Tese de doutorado, Fundação Universidade Federal de Rondônia]. Repositório Institucional da Universidade Federal de Rondônia. https://ri.unir.br/jspui/handle/123456789/2659
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Foto de capa: Reprodução/Antônio Laranjeira/Chat GPT 5.5

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