A reportagem avaliou os planos de governo dos cinco candidatos ao cargo de Chefe do Executivo. A análise revela visões distintas, desde abordagens pragmáticas focadas no agronegócio e bioeconomia até projeto ecossocialista e de combate ao garimpo.

Por Adison Ferreira

Em 2024, durante o último El Niño, a Amazônia enfrentou uma seca extrema e histórica, que resultou em mais de 17 milhões de hectares afetados por incêndios florestais e quedas drásticas nos níveis dos rios. Somente entre o início de janeiro e o fim de março, a região registrou 7.861 focos de fogo. Desse total, mais da metade se concentrou em Roraima. 

Os incêndios descontrolados tiveram impactos no abastecimento de água e comida, na saúde e na economia local, afetando principalmente populações em situação de maior vulnerabilidade social. As consequências foram sentidas nas cidades e nas comunidades indígenas, produzindo uma situação de emergência humanitária. 

Nesse mesmo ano, o desmatamento também aumentou de maneira alarmante no estado. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que no primeiro trimestre de 2024 foram 115,1 km² de área devastada. O valor é quase 25% maior que o registrado no mesmo período do ano anterior (92,2 km²) e praticamente iguala os 115,7 km² registrados no primeiro trimestre de 2019, recorde histórico de desmatamento em Roraima para o período. 

Esse cenário de emergência climática, vivido pelos roraimenses em 2024, deve se repetir neste ano com a confirmação de um Super El Niño, apontado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês) como um dos mais intensos já registrados desde o início da série histórica, em 1950.

A intensidade do El Niño é medida a partir das anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Tropical. Episódios classificados como muito fortes ocorrem quando esse aquecimento supera 2°C em relação à média histórica.

Com o planeta mais quente, os efeitos do El Niño se somam às condições extremas provocadas pelo aquecimento global. O resultado é uma combinação que amplia a pressão sobre cidades, sistemas de saúde, infraestrutura, produção de alimentos e recursos hídricos, afetando diretamente a vida da população. 

Por esse motivo, é inevitável desassociar as eleições de 2026 das discussões sobre a crise climática. Neste ano, além dos tradicionais debates sobre economia, saúde, educação e segurança pública, o período eleitoral também será marcado pela ameaça dos efeitos do Super El Niño e pela intensificação dos eventos climáticos extremos, principalmente na região amazônica.  

Como a crise climática aparece nos projetos de governo apresentados aos eleitores de Roraima?

Para entender como a crise climática aparece nos projetos de governo apresentados pelos candidatos ao cargo de chefe do Poder Executivo de Roraima, a agência Carta Amazônia avaliou os planos de governo dos cinco candidatos ao governo estadual: Arthur Henrique (PL), Farah Mesquita (Solidariedade), Rosi Aires (PSOL), Soldado Sampaio (Republicanos) e Clébio Genuíno (PCO). 

O levantamento busca entender quais são os compromissos apresentados para a agenda socioambiental e se existem medidas concretas para enfrentar os efeitos da crise climática no estado.

A análise revela visões distintas: desde abordagens pragmáticas focadas no agronegócio e bioeconomia, passando por programas de transição e justiça socioecológica, até visões focadas no controle de ilícitos e infraestrutura, e posições de viés estritamente político e anti-imperialista. 

Como os candidatos tratam a agenda climática e ambiental

Arthur Henrique (PL): Abordagem pragmática. Defende que preservação e desenvolvimento agrícola andam juntos. Aposta forte no mercado de carbono, bioeconomia e em infraestrutura logística resiliente às chuvas. 

Ex-prefeito de Boa Vista, o candidato Arthur Henrique, do Partido Liberal (PL), lidera a disputa pelo governo de Roraima, segundo pesquisas recentes. (Foto: Divulgação/ Ascom – Arthur Henrique)

Farah Mesquita (Solidariedade): Equilibra conservação e exploração econômica regulada. Destaca a bioeconomia, transição energética e uma proposta polêmica de regularização e assistência ao garimpo. 

 O candidato Farah Mesquita, do partido Solidariedade, já trabalhou como assessor na gestão do ex governador de Roraima, Neudo Campos. (Foto: Divulgação/ Ascom – Farah Mesquita)

Rosi Aires (PSOL): Visão ecossocialista e transversal. Trata o clima e o meio ambiente atrelados à defesa dos povos originários, universalização do saneamento, transição energética e combate frontal aos ilícitos ambientais (desmatamento e garimpo). 

A candidata ao governo de Roraima pelo PSOL, Rosi Aires, é funcionária pública em um Centro de Atenção Psicossocial no estado. (Foto: Divulgação/ Ascom – Rosi Aires)

Soldado Sampaio (Republicanos): Foco em segurança hídrica, regularização ambiental (CAR e licenciamento), gestão de resíduos sólidos (fim dos lixões) e prevenção a incêndios por meio de operações integradas (como a Operação Verão Sem Fogo). 

Francisco dos Santos Sampaio, conhecido publicamente como “Soldado Sampaio”, é deputado estadual desde 2011 e presidente da Assembleia Legislativa de Roraima desde 2023. (Foto: Ascom ALE-RR)

Clébio Genuíno (PCO): Não possui diretrizes técnicas ou eixo de adaptação climática. Sua pauta restringe-se à soberania geopolítica, combatendo o que chama de “internacionalização da Amazônia” e defendendo o controle popular e indígena das riquezas frente ao imperialismo.

Candidato do Partido da Causa Operária (PCO), Clébio Genuíno é advogado e servidor público federal. (Foto: Acervo pessoal)

Medidas concretas para o enfrentamento da crise climática

A Carta Amazônia avaliou todos os planos de governo disponíveis no site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para saber se os candidatos propõem medidas reais para enfrentar eventos extremos (cheias e secas severas). O comparativo apresentou contrastes importantes:

Arthur Henrique: Apresenta o plano mais detalhado de adaptação logística e urbana contra temporais e cheias — com substituição de pontes de madeira por concreto, protocolo de resposta da Defesa Civil em até 72 horas, auxílio emergencial e cozinhas comunitárias. 

Soldado Sampaio: Foca na resiliência hídrica e prevenção ao fogo, destacando o plano de combate às perdas de água, captação de fundos climáticos e ações coordenadas de prevenção a queimadas agravadas pelo El Niño. 

Onde há foco em mitigação estrutural e combate a ilícitos:

Rosi Aires: Propõe um Plano Estadual de Desenvolvimento de Baixo Carbono, monitoramento por satélite para desmatamento, combate rigoroso ao mercúrio e ao garimpo ilegal, além de controle de agrotóxicos e transição para agroecologia. 

Farah Mesquita: Traz medidas de mitigação como o incentivo à energia solar e fiscalização contra queimadas, mas peca pela ausência de planos estratégicos de adaptação para secas e cheias, além de gerar contradições ao propor apoio ao pequeno garimpo (o que pode agravar a vulnerabilidade dos recursos hídricos). 

Onde o tema está ausente do ponto de vista técnico:

Clébio Genuíno: O plano é focado em reformas estruturais e agrárias e na expulsão de interesses estrangeiros da Amazônia, ignorando políticas públicas tradicionais de adaptação climática ou transição energética. 

Mandatos duram quatro anos. Suas consequências ambientais podem atravessar gerações.

Para Carlos Bocuhy, presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental (Proam), as eleições de 2026 ocorrerão em um contexto que já não permite tratar a questão climática como mais um tema ambiental entre tantas outras agendas.

“Avaliar candidatos por suas propostas para economia, emprego, saúde, educação, segurança e infraestrutura é importante. Mas a emergência climática acrescentou a exigência essencial: é preciso saber se aqueles que pretendem governar compreendem e tomarão medidas sobre o mundo no qual terão de governar. Um governante sem compreensão da crise climática não representa apenas uma posição ideológica diferente. Representa incapacidade objetiva de reconhecer riscos que ameaçam a população, a economia e o próprio funcionamento da sociedade”, afirma.

Em artigo publicado no site O Eco, Bocuhy alerta que, mesmo que os mandatos sejam curtos, as consequências das decisões públicas podem atravessar gerações. 

“A Organização do Comércio para o Desenvolvimento Econômico (OCDE) chama atenção para a necessidade de construir instituições capazes de sustentar políticas climáticas de longo prazo através dos ciclos eleitorais. A administração pública contemporânea precisa, portanto, conciliar a temporalidade curta da política com a temporalidade sinérgica e cumulativa dos riscos ambientais. Por isso, o problema não se limita ao negacionismo climático explícito. Existe uma forma institucionalmente mais perigosa de negacionismo: reconhecer discursivamente a mudança climática, mas continuar governando como se ela não existisse”, destaca.

_______________________________

Este conteúdo foi produzido com recursos do Fundo de Apoio ao Jornalismo (FAJ)

Foto de capa: Reprodução/ Redes Sociais

Fique por dentro das últimas notícias da agência Carta Amazônia. Participe do nosso canal no WhatsApp e receba conteúdos exclusivos direto no seu celular.