Relatos de enjoo, sede e dor de cabeça mostram como grupos vulneráveis vivem sem estrutura para reduzir os danos do calor extremo na capital amazonense
Por Ariel Bentes
Para conseguir tomar um banho, Sirley Ferreira, de 40 anos, precisa de R$ 2 no bolso. Vivendo em situação de rua no Centro de Manaus, a melhor opção é pagar o valor e usar o banheiro da Feira da Manaus Moderna. É isso ou se jogar na beira do rio Negro, onde resíduos de plástico e comida estão acumulados.
Nascido em Itacoatiara, município a 270 km de Manaus, Sirley veio para a capital trabalhar na construção civil, mas foi dispensado e ficou sem condições de pagar o custo de vida. Hoje, faz serviços no Porto de Manaus. Descama peixes, carrega mercadorias, vigia carros. Aceita o que aparece.
Com o aumento do calor, Sirley começou a sentir enjoo e dor de cabeça. Ele vive nos arredores da Praça da Matriz. “De um mês para cá com esse verãozão complicou mais. Acho que é normal do calor, né? Dor de cabeça principalmente, pois eu tenho um traumatismo craniano. Mas o enjoo é um enjoo que dá e passa. Nunca tinha sentido isso”, afirmou ele.

Quando não pode comprar água para beber, Sirley depende de quem passa pela praça. O padre da igreja também costuma distribuir e existe uma torneira pública, frequentemente utilizada.
“Se você conseguir um depósito [garrafa] o padre quando tá por aí dá uma aguinha gelada pra nós. E para tomar banho eu gosto de tomar banho todo dia, então eu vou lá para o beiral [beira do Rio Negro] quando eu não tenho dinheiro. Mas quando eu tenho R$2 eu pago para tomar banho na feira e fico mais à vontade”, compartilhou Sirley.

O relato de Sirley reflete os impactos do retorno do El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Na Amazônia, o El Niño é responsável pelas secas severas e o atraso no início do período chuvoso. Embora a estiagem faça parte do ciclo sazonal da região, o fenômeno agrava essas condições, reduzindo drasticamente o nível dos rios.
Com isso, o Amazonas está em estado de emergência climática e ambiental desde junho deste ano. Esse calor extremo é sentido principalmente por grupos mais vulneráveis. A história de Sirley se repete no Centro da cidade. No Porto da Manaus Moderna, o carregador Felipe Guerra, de 26 anos, transporta mercadorias das embarcações que atracam no local.
Ele conta que o dia 11 deste mês exigiu grande esforço para continuar trabalhando. Ele sentiu enjoos. Naquele dia, Manaus passava pelo o momento mais quente do ano de 2026, com máxima de 36,3°C, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET). Porém, a cidade atingiu um novo recorde de calor, registrando 37,6°C no dia 01 de setembro.
A reportagem encontrou Felipe Guerra à beira do rio Negro. Ele tinha acabado de saltar do alto de uma escada — vestindo um colete salva-vidas vermelho — em direção ao rio. Vindo de Urucurituba, a 207km de Manaus, o trabalhador está há dois anos nas ruas da capital.

“Terça-feira foi muito quente mesmo. Acho que foi ruim para quase todos os carregadores daqui. É difícil trabalhar nesses dias, mas nós tem que continuar para nos sustentar, né. Eu sou ambicioso e quero sair daqui, então eu agradeço à Deus pelo calor também”, disse Felipe.
Uma pesquisa realizada pela Universidade de Oxford apontou que Manaus é a cidade mais ameaçada pelo calor no Brasil. A capital do Amazonas é, em média, 1,74 °C mais quente do que a área vegetada ao seu redor, chegando a registrar diferenças de até 3 °C nas temperaturas máximas anuais.
Política para quem precisa
Ano passado, a prefeitura lançou o Plano de Ação Climática de Manaus, mas o documento não menciona o impacto do estresse térmico sobre os vulneráveis, deixando a distribuição de água e o alívio do calor a cargo da solidariedade da população.
Em âmbito estadual, a Lei nº 6.662/2023 fixa diretrizes para ações de defesa dos direitos da população em situação de rua no Amazonas, como a intersetorialidade nas ações e políticas de atendimento. O texto também prevê a atenção integral às necessidades de saúde do grupo e a estruturação ou reestruturação da rede de acolhimento temporário. A lei amazonense foi criada em sintonia com a Política Nacional do setor.
Na prática, a infraestrutura criada pela Prefeitura de Manaus mostra-se limitada diante do problema. A cidade de Manaus tem 4,1 mil pessoas em situação de rua, de acordo com dados do Cadastro Único (CadÚnico), que identifica beneficiários nesta condição. A reportagem analisou os números de julho deste ano. As informações mostram que 36% deles estão na rua por problemas com familiares/cônjuges, 29,7% porque ficaram desempregados e outros 29% porque perderam a moradia.

Para obter os dados, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social pede que cada pessoa responda a um formulário. No caso da pergunta sobre os motivos de estarem na rua, a pessoa pode ter múltiplas respostas. Portanto, alguém que assinou a opção ‘problemas com familiares’ também pode ter assinado ‘desemprego’. Isso mostra que as causas são multifatoriais.
A rede municipal possui três espaços que atendem este grupo, todos concentrados na Avenida Joaquim Nabuco, no Centro: o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro POP), com capacidade para até 100 atendimentos diários; a Casa de Passagem Padre Orlando Barbosa, com 80 vagas de acolhimento 24 horas, e o Centro de Atendimento e Desenvolvimento Social (CADS).
Sirley Ferreira está procurando um lugar para dormir, mas não frequenta o Centro POP. “Aqui ninguém consegue dormir aqui [na rua]. Eu estou querendo só arrumar um lugar pra mim dormir e trabalhar tranquilo de manhã. No POP [Centro POP] eu tomo um café e almoço, mas o resto é com a gente”, conta.
‘Caçando torneiras pelo Centro’
Em frente ao Porto, na Feira da Banana, o Emerson trabalha vigiando carros. Ele veste uma camisa escura de manga longa com capuz e um colete laranja. A blusa foi uma doação que recebeu há dois dias. Antes, precisava trabalhar sem camisa.
“Eu não tenho protetor solar, mas hoje você me pegou todo encapado porque eu ando sem camisa. Só tenho essa e não sei quando vou tirar do corpo”, conta Emerson.
Para ele, permanecer nos arredores da feira é uma estratégia de sobrevivência. No dia a dia, ele tem ajuda de moradores e turistas que passam pela região.
“Aqui o que não falta é água. É só mergulhar e tacar a boca nesse ‘riozão’. Eu descarrego umas caixas por aqui e peço água para alguém. Vou ali comprar um gelo para uma pessoa e coloco um pouco para mim numa garrafinha”, comentou.
Questionado sobre a existência de torneiras nas proximidades para beber água ou tomar banho, Emerson dá risadas e diz: “Eu não tomo banho, mas quando eu quero eu me jogo nesse ‘riozão’ de água”, referindo-se ao Rio Negro.
“Tem que caçar umas torneiras pelo Centro, aqui perto da feira ou ali próximo das lojas. É muito bom para beber água ou tomar banho pra quem não pode pagar na feira ou não quer ir pro rio”, completou.
Para a assistente social Rosiane Pinheiro, a rede de assistência à população em situação de rua não prevê medidas de enfrentamento ao calor extremo.

“Nossa rede é insuficiente para atender a complexidade das demandas da população em situação de rua. Hoje não temos um equipamento que as pessoas possam manter suas formas de vida e ter um lugar protegido para dormir”, ressalta ela.
Rosiane é uma das autoras do livro Sobrevivências nas Ruas de Manaus: Histórias, Condições de Vida, Política e Saúde, e atua há 11 anos no Consultório na Rua. O programa é do Ministério da Saúde e leva atendimento médico de forma itinerante para pessoas em situação de vulnerabilidade extrema nas ruas.
Rosiane conta que seu livro apresenta as estratégias de sobrevivência desta população. Naquela época, o enfrentamento ao calor já surgia nos relatos, mas hoje, durante os atendimentos no Consultório na Rua, ela observa que a questão é mais latente.
A assistente social explica que o grupo está constantemente exposto ao sol e, por isso, apresenta forte desidratação, queimaduras no rosto e na sola dos pés. Pinheiro compartilha também os desafios de tratar feridas e doenças crônicas.
“A gente faz um curativo, mas fica abafado e quando a gente chega na semana seguinte a gente vê que a ferida está ruim. Mas também tem a chuva, né? Na chuva os curativos molham e o local fica com mal cheiro. É um desafio fazer o acompanhamento nessas situações”, disse Rosiane.

“As políticas continuam alheias à realidade da população em situação de rua. Hoje limita-se a aspectos pontuais, como saúde básica ou regularização de documentos. Faltam políticas consistentes de geração de emprego e renda que realmente possibilitem a essa população sair dessa condição. Prestar atendimento emergencial na rua é simples. O que não existe são políticas públicas estruturadas para garantir que essas pessoas consigam, de fato, sair da rua”, afirma Pinheiro.
A Secretaria Municipal da Mulher, Assistência Social e Cidadania (Semasc) foi procurada para falar sobre o assunto. A reportagem questionou se há existência de um protocolo para amenizar os impactos do calor para pessoas em situação de rua. Tambén perguntou se há plano para distribuição de água, ampliação do horário de atendimento do Centro POP e climatização da Casa de Passagem Padre Orlando Barbosa. A Semasc não respondeu os questionamentos até a publicação do texto.
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Conteúdo publicado originalmente pela newsletter Tipiti e cedido para a publicação na agência Carta Amazônia.
Foto de capa: Rafael Ramos/Tipiti
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